III - aproximação


Apossou-se. Abriu todas as janelas, as gavetas, as portas, os livros que mais amava. Não eram muitos. Como os amigos. Se forem muitos é mentira, não são. Aos dez anos temos cinco dos maiores, aos quinze temos vinte e são o nosso vagueio. Aos quarenta e cinco anos ficamos com os verdadeiros, os que gostam de nós com os livros abertos e ainda mais se estiverem fechados. É porque temos espaço para os ouvir.
Olhou-se no espelho do roupeiro, os jeans ligeiramente amarrotados, nunca tivera jeito para fazer as malas, a tee shirt branca a pensar no sol do meio-dia, parecia um miúdo e riu-se de si. A medida de aproximação das coisas. Era a casa. Trazia-o à película dos dias.
Não era visível da estrada principal, escondida pelo muro alto de pedra forrado de buganvílias encarnadas. Telhados de tesoura que são os que não escondem nada, isolam do frio no Inverno, protegem do calor no Verão. Semelhantes aos do oriente, permitem que o ar circule pelos cantos. Cada quatro águas, uma divisão ou uma partilha. Ele, os pais e os irmãos. Agora ele apenas. Uns metros adiante, a figueira, o laranjal, o tanque das regas e a vinha. Moscatel, tão doce como as laranjas e quando umas vinham as outras iam, numa alternância de frutos e de estações.
Chegara com uma esperança em quase nada e outra tanta em si. Se o seu velho carro tinha aguentado a viagem, porque é que ele não aguentaria?
Cansado de ser o sempre em pé no comboio lotado, o número trezentos e cinquenta e seis e lamento mas só atendemos cem, se me der um sorriso eu não sei o que lhe posso dar, há uma troca viciada no sentido dos afectos, quem é que o mandou tirar esse curso, mais valia a menos valia de não ser permitido sonhar, o número de inscritos excede o número de inscrições, seja paciente, aceite, impaciente-se, mas eu se fosse a si calava-me, poderá ficar pior do que está, há mais velhos do que tempo, há mais fragilidade do que amor.
Sentiu passos lá em baixo, uma corrida pela escada acima e atrás de si ouviu “chegaste, pá!” e ele gritou “João!” mesmo antes de se virar e abraçou o homem que o apertou como se aperta um tesouro.
Há mais de vinte anos, seria? João tinha o cabelo incendiado de ruivo e os olhos brilhantes, as mãos cheiravam a terra e a salsa frisada, os dedos acastanhados de apanhar beldroegas, são tão boas na sopa com o queijo de cabra e as batatas novas. As botas de afugentar bichos e galgar os montes, sábio a entender a linguagem das plantas e dos arcos de luz à roda da lua. Tinha sido o primeiro e único rapaz, a possuir um telescópio que instalara no sótão da sua casa, a da torre mais alta, a segunda de quem desce vindo da igreja. Uma clarabóia, uma ligação directa de infinito.
Quando os outros partiram, ele ficara, a contradição entre a terra e o céu, era João, o homem das estrelas.
Espremeram limões, gelaram e adoçaram a água, sentaram-se à sombra da figueira e segurando o copo com a mão direita, colaram-no à testa, como sempre fizeram, riram-se como sempre se tinham rido e reconheceram-se cúmplices nos gestos de agora.
“E o telescópio? ainda o tens? lembras-te João quando eu dizia, conta-me João e tu contavas?".
Dos segredos de uma terra fria e tão fechada e mais os que eles inventavam, aquele da mulher que nas noites de lua nova tomava banho nua no terceiro dos rios e com o coração aos pulos roubavam-lhe a privacidade e não sabiam se era uma mulher ou uma planta aquática e à medida que se afastavam do vale e das casas viam-lhe nitidamente os seios, o joelho exposto, o ventre a descoberto.
Já o gelo era água parada quando o vento da tarde se levantou e com um som seco e acelerado desfolhou os livros abertos pelo chão.
As portadas bateram.


esta é a terceira das páginas de um outro andamento


as pinturas, continuam insistentemente a não me pertencer!




43 comentários:

acácia rubra disse...

Fui lá atrás, àquele tempo dos inícios, naquele longe da memória que assalta quando não queremos...

Passei pela noite de todas as noites, em que constelações de estares se foram organizando em visões, cheiros e audições, procurando o que de mais íntimo temos - a mãe.

Chego ao agora, que foi já ali na confluências dos tempos.

Obrigada por escrever como escreve!

Beijo

© Piedade Araújo Sol disse...

Manela

como não gostar desta narrativa.

é tudo tão simples e eu sei que cada vez mais simples, cada vez mais dificil de escrever.

gostei, e estou a gostar desta continuação...

bom fim de semana!

beij

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


À medida que a desfolhas, aberto o livro, neste chão, a tua história vai-se, mais e mais enchendo de encantamento ...!

Se as pinturas não te pertencem, o que pintas, mais e mais, se te pertence, vai-nos também, progressivamente, pertencendo!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Julho de 2011

Eva Gonçalves disse...

As pinturas são lindas e esta página que teima em ser apenas a terceira e tão curta, deu-me sede de limonada e de conversas com amigas que partiram há vinte anos... espreito com um telescópio na esperança de ver a página seguinte neste desfolhar de um retorno às origens, às dele, e às nossas... :)Cada vez mais envolvente manuela, lindo. Beijinhos

alegria de viver disse...

Querida amiga

Obrigada pela festa, ainda escuto a musica suave.

Acabei lendo mais uma vez os textos, porque sonhar é bom.
Sinto o cheiro de natureza.
Lindo.

Com muito carinho BJS.

Graça Pereira disse...

Manela
É o voltar à confluência dos tempos e dos sentimentos.As tuas palavras trazem a essência das recordações e das emoções. Feliz de quem tem um amigo que o espera...talvez pelo telescópio ele soubesse da chegada do amigo...é que há amigos que são estrelas na nossa vida...
Depois da aproximação, o que virá?
Nos livros abertos pelo vento, encontrarás outra história maravilhosa para nos contar. Eu espero,Manela!
Mil beijos
Graça

Maria João disse...

É sempre assim quando se regressa. Tudo emerge ao encontro da pele. e saciamos a sede com a mão em concha e os olhos fechados para ver a nascente.
Afinal, há sempre tantas páginas escritas e repletas de afectos!

Como estas que a Manuela escreve.


Um beijinho e um bom domingo

walter disse...

é um outro andamento, inverso ao sentido dos ponteiros do relógio; é o rasgar com as mãos e com os olhos a fina placenta de luar que há tanto cobre um tempo adormecido...

vem aí um outro tempo, o da respiração dos afectos!


Manuela, gele-se e continue sff

um beijo

Walter

OutrosEncantos disse...

... se forem muitos é mentira, não são! e aos 45 os que gostam de nós, com os livros...... fechados. é porque temos espaço para os ouvir...

... há uma troca viciada no sentido dos afectos...:) pois... se o carro velho aguenta, porque não haveria ele de aguentar...

... há mais fragilidade do que amor...

mas, por vezes... um abraço como um tesouro!
... e não sabiam de era uma mulher ou uma planta aquática...

Manuela, ler os teus contos é como subir a escada em caracol, puxar a corda do sino e voar com ele, espantado corvos e agoiros...
... e partir, descansada.

obrigada por este e outros momentos, também nos tesouros do fundo do mar.

beijo.
até logo.

OutrosEncantos disse...

peço desculpa pelos erros de ortografia e mais ainda pelo esquecimento (preguiçoso) de conferir antes de enviar... :))) mais beijooo.

Fézada disse...

Auf!

Auf!

Eu cá também vou sempre em pé no comboio lotado... Se me sento dizem que sujo o assento com as patas... Mas, se me sentar no chão pisam-me a cauda!

E a minha cauda foi avaliada por organismos competentes e é actualmente das mais valiosas da Europa!

Por isso, olha, vou em pé e gosto de encostar o nariz geladinho às pernocas das meninas!

Auf!

Auf!

. intemporal . disse...

.

.

. "Onde está o tempo das histórias da noite, enrolados em mantas na relva molhada, partilhando segredos com os pés a crescer em sandálias de couro?" .

.

.

. e___s___p___a___r___s___o___s .

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. e íssimos . felizes .

.

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manuela baptista disse...

está aqui...?

antonio ganhão - o implume disse...

Defendo que nunca se deve começar um texto com um verbo, nunca. Talvez com a excepção de "Era uma vez..."

Mudei essa regra, pode-se começar um texto com "Apossou-se."

Fico a aguardar pela continuação, agora que te revelei esta regra de ouro. Bjnhos

manuela baptista disse...

...e nem fiz ruído

a quebrar a regra...

Mar Arável disse...

Grato pela partilha

Insana disse...

Fiz ao infinito que existe lá bem longe em um tempo que se passou a muitos anos..

bjs
Insana

AFRICA EM POESIA disse...

MANELA

Um beijo e...

saudades


Boa semana

. intemporal . disse...

.

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. e re.chego porque são duas as vezes de hoje como são duas as razões .

.

. chego com uma esperança em quase nada e outra tanta em Si.

.

. e chego porque as Suas histórias possuem todas um detalhe que imediatamente me transporta para um mundo que existe e que todos os dias desconhecemos .

.

. e esta história é o mais bonito presente com que se retribui uma amizade .

.

. o que a prova íssima e verdadeira .

.

. e nós . os espectadores . assistimos e sabemos ser de dentro deste mundo o qual também ansiamos integrar .

.

. para o efeito . temos a melhor anfitriã .

.

. um beijo feliz .

.

.

Luís Coelho disse...

O tempo e o amigo que se reencontra.
A cumplicidade e o reviver dos sonhos e sabores que se revezam em cada estação.

A sucessão está bela como belas são as palavras e as figuras literárias.

AC disse...

Manuela,
Já tinha lido as três partes, mas voltei a ler tudo de uma assentada, como se quanto mais lesse mais impregnado ficasse das linhas que tecem memórias e vivências de tempos com outros aromas, outros equilíbrios...
Manuela,há em si um enorme manancial de segredos das pequenas coisas, que têm estado escondidos como os dois rios. Ainda bem que, a pouco e pouco, vêm à tona.

Beijo :)

Mariazita disse...

Li, com renovado interesse, mais este episódio de uma história encantadora.

Una semana feliz. Beijinhos

Silenciosamente ouvindo... disse...

Ir lendo com toda a atenção a
sua narração - é o que eu faço -.
Beijinho

Smareis disse...

Os regresso sempre é assim... Palavras cheia de recordações e lembranças...Um beijim pra ti.

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Voltei a todos os capítulos e aportei silenciosamente e pausadamente neste.

Olhando os montes e as casinhas desta aldeia, agora sei porque as pinturas continuam insistentemente a não lhe pertencer, mas pertencem-lhe todo o desfiar de emoções contidas no texto, toda a inspiração com que deu vida a esta aldeia e que nos encanta e fico à espera do que acontece depois que as portadas bateram, até porque gosto do bater quente da madeira e por tràs dela há sempre vidas por contar.

Beijo
Branca

Mel de Carvalho disse...

Manuela,
não me enganei nem um pouco quando a li a primeira vez - tem tudo em si para ser uma ENORME escritora. Li agora (de novo) estes textos (os três) de uma assentada, seguidos. Existe o contínuo e o mistérios (re)velado. "E já é tanto" e quão belo o é.

Beijo saudoso
Mel

OutrosEncantos disse...

penso que nunca te disse, mas o teu comentário em: "há festa nos meus jardins" marcou s diferença no meu gostar de ti.
beijo e abraço, pessoa bonita.

Maltese Goat disse...

Eu "inha" porquê?

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Eu também tenho saudades, mas já li a história toda, por isso tenho saudades verdadeiras, mesmo...do próximo capítulo, :))))))

Beijinhos
Branca

manuela baptista disse...

Maltese Goat

inha? és uma antipática, levaste-me o lagarto, não está certo

ju rigoni disse...

Regressar à casa; ousar, - abrir janelas e portas da casa interior para as memórias. Reencontrando-as, quem sabe?, reencontrar-se... Adoro seus escritos, Manuela.

Bjs, querida. Boa semana. Inté!

Linda Simões disse...

Manuela

"...Aos quarenta e cinco anos ficamos com os verdadeiros, os que gostam de nós com os livros abertos e ainda mais se estiverem fechados. É porque temos espaço para os ouvir..."

És.


Grande beijinho de saudade,aos dois.


Linda Simões

Lídia Borges disse...

Um texto belíssimo, que nos leva e nos guarda.

Um beijo

OutrosEncantos disse...

...vim deixar-te um beijo!
aproveitei para reler-te... :))

nacasadorau disse...

Só agora me dei conta do tempo que estive ausente...
Já li esta III aproximação, mas volto atrás.
Já volto...
Beijo, Manuela.

nacasadorau disse...

Volto com vontade de reler tudo.
Amiga Manuela, adoro muros altos de pedras forrados de buganvílias encarnadas e de telhados de tesoura...
Adorei tudo, mesmo as pinturas que não sendo tuas são lindas.

Não conheço nenhuma escritora que me cative tanto.

Parabéns
Obrigada
Beijinho

Petrus Monte Real disse...

Manuela,

belo texto e imagem expressiva que me prenderam!
Parto de seguida para os primeiros capítulos...

Muito sensibilizado pelo seu comentário no meu espaço! Apreciei muito!
Ainda hoje não sei a razão das anomalias do blogger, que impedem o acesso ao espaço. Espero que esteja resolvido, definitivamente!

Só agora retribuo a sua visita porque tenho estado ausente da blogosfera. escassez de tempo que ainda não consigo gerir bem.

Vou regressar à sua história e poesia!

Desejo bom fim de semana
Abraço

Beatriz disse...

Manuela

Poucos e bons amigos são os que valem! Esses eu tenho. E seu texto me fez lembrar quando pequenos, íamos para o aeroporto à noite deitar na pista desativada e ficar horas a observar estrelas cadentes....Quantos pedidos ausentes....

Bj

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

FlorAlpina disse...

Já li este, depois de ter voltado atrás e ter lido os outros!

Parabéns!

Espero pelo próximo...

Bjs dos Alpes

N. Barcelli disse...

Adoro ler os teus contos.
A tua narrativa é uma delícia...
Querida amiga Manuela, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Smareis disse...

Como não gostar desse belo conto. Uma narrativa impecável. Parabéns! Um beijo e ótima semana.

Rogério Pereira disse...

Cheguei tão tarde...
...mas a tempo de ouvir reencontros e ver as portadas a bater...

Foi belo de se ler.

Glorinha L de Lion disse...

O retorno, sempre o retorno, o eterno retorno que fazemos em ciclos durante toda a nossa vida...lindo...vir aqui é me enlevar de beleza! beijos,