prisma


Avança devagar, os pés descalços, os olhos semicerrados, a forte percepção da luz.
O nariz toca levemente a textura do tecido e pára, abre as mãos, estica os dedos, cola-os ao algodão, desenha círculos. O lençol molda-se à face, assenta-lhe, fixa-se. Percorrem-se mutuamente, o cabelo puxado para trás, as pestanas viradas ao contrário, caminho infinito até ao bordado da dobra que mal toca o chão, as molas da roupa saltam e o grito, o enrolamento, a queda, deslizando sobre si é como um ladrão escondido num tapete à procura de um livro antigo das histórias de assustar.
Ninguém está sozinho quando faz brincar o tempo e vem mais um e outro e na memória do cheiro bom da roupa estendida ao sol, seguramos o ralador do queijo na mão esquerda, duzentas gramas de sabão na mão direita e ralamos, laminamos, óleos de amendoim, de copra e de palma, NaOH para branquear, muita água nos tanques do quintal, porque a mulher desconfia das máquinas e gosta do vagar de vaguear barrelas.
Se roubarmos os carrinhos das linhas encarnadas e amarelas, poderemos ainda engolir água e sabão, soprando o ar revestido de espuma onde ficam cativos os pensamentos, até que um espinho, um ramo fininho os faça estourar.
Este é um instante de luz refractada, um desvio na direcção dos raios solares transitando de um para outro lado, mas se não sabes dobrar os lençóis não vales nada, só entenderás a sabedoria das coisas simples se fores deusa de uma tarde quente, embrulhada em lençaria fina.
São precisos dois justamente, a quatro mãos como um piano bem temperado. Primeiro ao meio, o indicador e o polegar juntam as pontas, depois em quatro, são simples as fracções de um pano-cru. É neste instante que sacudimos um invisível ser que habita o linho e largamos tudo, perdidos num riso louco que contagia o Verão.
Aqui o lençol pode ser tanto. Asa de pássaro gigante, vela de um barco perdido nas marés, tenda de índio solitário lua no deserto espírito de lobo, tecto, abrigo, esconderijo, batida compassada quando sopra o vento e o faz secar.
E se dermos dois nós à árvore mais frondosa do jardim, ponta com ponta alinhada é o berço de uma criança aninhada, suspensa dos ruídos e dos piados, seja qual for o canto de embalar, a língua é a sua herança, o seu legado.
Nas gavetas pousam corações repletos de alfazema e cada perfume é um regresso a casa.



estendal de mb





35 comentários:

OutrosEncantos disse...

venho de lá com a lagrimita no olho, chego aqui e começo por encontrar Amélie des Crayons...

ui..., depois eu volto, preciso ler-te mais vezes:))
até lá, meu abraço carinhoso.

Mariazita disse...

Lençois ao vento podem fazer-nos sonhar, como nuvens levadas pelo vento.
Imagens delineadas na nossa imaginação, perfumadas com alfazema do campo.
Excelente texto.

Bom fim de semana. Beijinhos

Canduxa disse...

Lençóis ao vento ...
momentos da minha infância que recordo.
Já tinha saudades de a ler.
Obrigada Manuela pela mensagem, vou de férias e espero voltar com mais tempo.

um grande abraço

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Às vezes sei, outras menos, dobrar lençóis ...

Sempre que sigo os preceitos e as pontas me caem, sinto-me assim como um piano destemperado, perdido o invisível ser que o habita ...!

É então que vocifero perdido também que fica o riso louco que contagia o Verão!

Há prismas e ... o teu é maravilhoso


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Junho de 2011

walter disse...

vistas as coisas por este prisma...
não voltarei a rogar pragas aos lençois da vizinha do andar de cima, que tantas vezes me tapam o céu e a paisagem, como se fossem muros suspensos e ondulantes - barreiras intransponíveis para quem gosta de saltar a imaginação pela janela...

pensarei então, que os lençois brancos, são as velas de um barco que navega no azul do céu, ou então... uma insólita queda de neve numa manhã de verão, porque os tempos andam trocados, tal qual a imaginação, de quem convive com o desfraldar diário de cortinas exteriores...
ah e posso sempre imaginar que os lençois aos raminhos, são os campos de alfazema da provence e os das riscas azuis e amarelas, uma tenda de circo, cheia de risos, gritos histéricos e rugidos de leões...
bem...se tiver medo, os lençois são a corda por onde subo, rumo à janela superior e...

bom dia, vizinha...!
que bem que cheiram os seus lençois!


olá Manuela...!
que bem que cheira o seu colorido estendal!

beijos

Walter

Luís Coelho disse...

Mais um texto rico de parábolas que se torna difícil de comentar e por vezes difícil de entender dada a sua beleza.
- O ralador de queijo
- A mulher desconfiada
- O tempo e o vagar de fazer
Estas visitas e estas histórias são sempre enriquecedoras e deverão ser saboreadas com essa desconfiança e vagar dos sonhos dobrados e guardados.

BRANCAMAR disse...

Ai, Manuela, cada história sua é um regresso à infância, à juventude, ainda hoje adoro a roupa a cheirar a sabão e a sol e a dobragem dos lençois a quatro mãos entre mim e a minha mãe foi uma recordação boa. Não se esqueceu de nenhum pormenor, mas aprendi uma coisa nova, que os carrinhos de linhas serviam para fazer bolas de sabão, eu fazia-as com palhinhas do campo. Talvez fosse a diferença entre as crianças de uma cidade que ainda tinha campo nos arredores e as crianças da cidade grande, todas com a sua imaginação transformando objectos em fazedores de sonhos coloridos e esvoaçantes.

Deixo beijos e vou daqui com este cheirinho a sol e a alfazema, porque tanque grande e cheio de água ainda tenho um em casa da mãe e outro público por perto, que fazem as minhas delícias.

Branca

Eva Gonçalves disse...

Linda como sempre esta história que puseste a corar ao sol para nosso regalo e volta e meia, pegarei no regador e regarei a história com os meus olhos... (até para escrever uma história com o mar ao fundo que está ligeiramente encalhada :)) Adoro roupa em estendais e o cheiro roupa molhada a cheirar a sabão. Essa sensação de ir contra os lençois estendidos com a face :)Hoje, guardarei os lençois cá de casa dobrando-os a preceito e junto do saquinho de alfazema e da memória olfactiva da minha infância, outro saquinho colocarei na gaveta, com novas memórias de histórias que reflectem as cores todas e iluminam o meu coração :) beijinho grande e bom fim-de-semana!

sagitario disse...

olá Manuela,
lindo o seu blog, gostaria de ficar a segui-la mas não consigo não sei como funciona..

Gosto dos seus contos são realistas e actuais, o meu francês é fraco mas consigo.

Por tudo isto quero felicitá-la e pode crer que gostei muito de visitar o seu blog.

Linda Simões disse...

Aqui o lençol é tanto...

Gosto de dobrar lençóis, de sentí-los cheirosos e fofinhos.

Teu conto me encanta,sempre.

Muitos beijinhos,amiga querida.


Linda Simões

António R. disse...

A Manuela tem uma capacidade impressionante de conseguir pôr tanta vida em tão poucas palavras.
pena que tanta gente passe a vida a fazer nós, mas não são como os das árvores que aqui nos deixa.
Passar aqui é sempre um problema, dos bons, porque é sempre difícil arranjar palavras para comentar o que é belo.

antonio - o implume disse...

A tua escrita tem um doce encantar que só rivaliza com os teus desenhos, também eles me seduzem na simplicidade do seu traço e no desdobrar do pastel como sentimentos que se revelam em intimidades tímidas.

Maria João disse...

Adormeço na dobra do lençol que aqui estendeu, Manuela. Inspiro a memória de cheiro bom e,
num repente,
tudo fica tão mais perto
e o tempo
torna-se apenas um fio de linho branqueado, fiado na ponta dos seus dedos.

Obrigada!

Um beijinho

alegria de viver disse...

Querida amiga

Depois de todos os comentários feitos com muita verdade,vim reforçar esta que considero uma realidade.

Aqui temos o imaginario, a realidade e a ficção.
Maravilhosos momentos de boa leitura.

Uma linda semana para uma linda pessoa de coração alvo cheio de luz.

Com muito carinho BJS.

Mel de Carvalho disse...

Manuela,
são textos como este que me fazem permanecer na blogger. Textos que me marejam os olhos. Cada frase uma mensagem. Cada palavra um sentido. Nada ao acaso. Dobrar lençóis não é tarefa fácil quando se pretende a possível harmonia da forma. O bordado é arte e tudo é arte no prima emocional...

Fica um beijo, o carinho seguramente conquistado da Mel, e, para que conste, porque nunca lho disse, para o bem e para o mal, o coração da tal Mel é de sentido único: quem entra jamais saí. A Manuela entrou - olhos nos olhos, palavra puxa palavra, linha a linha ...

. intemporal . disse...

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. "Ninguém está sozinho quando faz brincar o tempo" .

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. ninguém suspende o céu aberto . tão longe e tão perto . o derradeiro momento em que um lençol pode ser o in.tento . na pictórica renúncia do tento . e é através da palavra que cada momento que in.vento . por ora ondulado de vento . ao invés do contra.tempo de cada des.tempo . tatuado no tempo . que a arte se eleva e se inscreve nesta página deusa de todas as tardes quentes .

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. um .

.

. dois .

.

. três .

.

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. íssimos . felizes .

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Smareis disse...

Poema lindíssimo onde esse lençol acolhe as palavras derramadas muito bem sentidas. Gostei demais.Deixo um beijo , com desejo de ótima semana. Bjs!

Fézada disse...

Auf!

Já pedi Hirudoid ao Jaime!

Sabes, caí e depois de muitos caim`s, custa-me ainda tanto a sentar... e comer croquetes de pé não me dá jeito nenhum, pois resvalam-se-me entre as quatro patas e olha, é um autêntico desatino...

Auf!

Auf!

Filomena disse...

Manela!

Deixei um recadinho para si no " a minha vida"

Adoro a música


Beijinhos de santos populares

Filomena

manuela baptista disse...

ai que se me resvala o desatino

gelo, gelo Fézada, Hirudoid já não se usa...

e croquetes de soja? cais que nem um patinho :)))

manuela baptista disse...

...tão lindo Filomena!

obrigada!

um beijinho

manuela

Fernanda disse...

Senti o cheiro da alfazema e o toque dos lençóis de linho em meu corpo.

Lembrei-me ainda de quando ajudava a lavar, eu um trapo ... as tias os lençóis que depois da barrela coravam no lameiro expostos ao sol e não de qualquer maneira, era um ritual cantado de muitas cores e pouco sabão.

Usava-se muita cinza nas barrelas e estranhamente a roupa depois de cinzenta e corada, novamente passada na água da preza ficava imaculadamente limpa.

Que bom lembrar consigo, amiga Manuela, todos estes tempos de encanto.

Obrigada.

Beijinhos

Graça Pereira disse...

Manela
Pois é! É preciso arte para saber dobrar lençóis, uma doce partitura a quatro mãos... e quando não acertávamos as pontas e o nosso riso era maior que as nossas forças?
Ouviamos a voz da nossa mãe: Meninos, o que é que vos deu? Quero os lençóis bem esticados e dobrados!
Dobravamos sim as gargalhadas, já soltas ao vento e desejosos de nos deitarmos na roupa fresca para esquecermos o calor...
Naquele tempo, a nossa roupa não cheirava a alfazema mas sim, a limão, flor de laranjeira com um travo de manga e goiaba...
Ai, Manela, o que tu me foste lembrar...nesse teu geito de quem sabe das coisas!!
Beijo
Graça

Virgínia do Carmo disse...

Manuela, nas suas palavras encontro-me sempre com a inocência e a sabedoria das coisas simples e imensas.

Um beijinho

OutrosEncantos disse...

... Manuela!

esse lençol..., dar um nó em cada duas pontas opostas e ficar lá dentro!...
depois, à noite... os pirilampos...
porque o arco-iris... sempre a brilhar no cantinho do olho!

não sei comentar as tuas palavras :)
elas são momentos de vida de SENTIR!...

beijinho, até já.

OutrosEncantos disse...

... achei esse estendal fantástico, pleno de imaginação, e voei... no saltar dessas molas :))

Graça Pires disse...

A sabedoria das coisas simples na lembrança. A claridade dos sonhos na imaginação. Um texto para ler e reler em voz alta. Sentidamente...
Um beijo, Manuela

Mar Arável disse...

Mais um excelente texto

porque simples
é o mais complexo

terno poético
incomensurável

Grato

ju rigoni disse...

"Aqui o lençol pode ser tanto."

Estendeste ao sol um exto magnífico, que dança com o vento no varal das sutilezas. Lindo demais, Manuela!

Bjs, amiga. Bons dias. Inté!

FlorAlpina disse...

Gostei muito deste estendal. E das palavras que me fizeram regressar a um passado distante!

Bjs dos Alpes

© Piedade Araújo Sol disse...

por vezes escrever sobre as coisas simples, são sempre os textos mais dificeis.

este texto é um reviver de memórias, com as frases muito bem dileneadas que com elas quase que se consegue sentir o cheiro a lavado das roupas a secar ao sol.

mais um belissimo texto de quem tem mão de escritora.

beijinh

AnaMar (pseudónimo) disse...

um rol de palavras penduradas no tempo.

tanto tempo que eu fiquei sem me deliciar com letras encavalitadas em prismas paralelos de viagens.....histórias que nos despertam os sentidos.

De regresso não sei de onde. apenas sei que me sinto em casa.
Grata.

Glorinha L de Lion disse...

Manuela, voei com os lençóis ao vento, senti o perfume do sabão e os raios de sol tocaram minha pele...tens o poder de encantar, um poder mágico, etéreo de nos levar contigo ao teu mundo....beijos,

AC disse...

Quando a leio algo de bom acontece: o tempo parece amainar, como se decorresse em câmara lenta, e cada coisa insinua-se por si própria, com o seu aroma natural...
Manuela, já anteriormente lhe disse que a sua escrita é uma dádiva, que humildemente lhe agradeço.

Beijo :)

manuela baptista disse...

obrigada AC!