dobra



A casa tinha um jardim. Também tinha um sótão. Desse não quero ainda falar.
Os degraus da escada são catorze e a madeira encerada de amarelo estala ao mais leve toque, seja ele o de um pequeno pé descalço ou de um pé maior e mais magro, como é o meu agora. Após o patamar, os dois primeiros degraus estreitam-se do lado esquerdo e alargam-se para o lado direito na primeira curva, exactamente como um rio. Subimos a correr os cinco seguintes, mais fáceis, alinhados e iguais. Novamente as curvas do rio, desta vez à esquerda e os últimos cinco degraus, quase até ao tecto.
Sei tudo sobre eles, os que têm o bicho do caruncho que não se cala durante a noite, os que são bons para nos sentarmos a ler um livro, os que possuem um buraco secreto onde estão escondidas as cartas do namorado da Maria, os cigarros do António e o boletim escolar da Mi com as negativas a matemática. Meus, não têm objectos de pertença, entendemo-nos de uma outra forma.
Fiz uma pesquisa sobre escadas e degraus e apresentei-a como trabalho de projecto. Riram-se de mim, mas não me calei. Expliquei, que sendo cobertor, uma manta quente, é simultaneamente a parte superior de um degrau. Espelho, a parte anterior, ou qualquer superfície lisa que reproduza as imagens que a defrontam.
Cobertor, piso ou passo é aquilo que nos transporta de um lugar para outro. Do frio, para o calor; de um pavimento inferior, para um superior; de um sentimento de segurança, para um sentimento de insegurança, ou mau passo. Aquele que nos faz cair e ser alvo de troça.
Está abafado. As portadas da varanda ainda estão fechadas e eu permaneço no último degrau da escada que conduz ao sótão do qual não vou ainda falar.
Lá fora, entre o canteiro dos amores-perfeitos e o banco de pedra, oiço-me a disputar o baloiço, rústico, de madeira e cordas grossas, o assento pintado de vermelho suspenso do alto, a oscilação, as pernas e os braços esticados, a cabeça para trás, as pernas e os braços dobrados, a cabeça atira-se para a frente, a velocidade, a vertigem.
Uso uns calções de tecido escocês e não tenho sapatos. Nunca os suportei enquanto brincava, por isso no final de cada Verão os pés tinham aumentado dois números na escala das lojas da especialidade. Há sempre uma loja da especialidade quando nos querem moldar a qualquer coisa.
No banco de pedra mandei sentar todos os personagens das histórias que escreverei um dia e disse-lhes que estava farta deles, que me incomodavam, que eram ruído no silêncio da minha cabeça. Que eram toscos, deficientemente caracterizados, incompletos, superficiais, puxavam ao sentimento mas nunca se aguentariam no dobrar das esquinas.
Nesse dia dei uma volta completa e as cordas enrolaram-se no tronco da árvore que sustentava o assento de madeira e me largava no chão.
Conquisto, sem pisar o soalho, o espaço que me separa das portadas da varanda e abro-as de par em par. Cheira a maresia. O mar estará profundo sem eu saber, memória implícita que refaz em mim a habilidade do equilíbrio numa tábua pintada de vermelho, memória afectiva que me abre uma ferida na dobra do tempo, da qual talvez nunca falarei.




memória de mb




34 comentários:

nacasadorau disse...

Contará sim, amiga Manuela... o conto já começou!

Subi as escadas em caracol, senti o chão sob os pés descalços, ouvi o caruncho à noite, senti a maresia, deslumbro-me com a visão do amores perfeitos e do baloiço vermelho.

Maravilho-me sempre.

Beijinho

AC disse...

Há memórias que habitam connosco. Na maior parte do tempo estão escondidas, caladas, mas é infinita a sua paciência. E, quando menos o esperamos, aí estão elas a fazer-nos companhia, a dar lastro à força do que verdadeiramente nos move. Por vezes, quase envergonhadas, parecem vestidas de pó, mas, quando encontramos o mote do sopro, elas ganham vida, resplandecem, sobrepõem-se ao cinzentismo dos donos da verdade.
Não, elas não são a nossa bandeira, são natural rebate de algo que nunca deixará de brilhar.

Beijo :)

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Na dobra da memória
baloiço
em esplendor de fina glória


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Maio de 2011

walter disse...

nas dobras do tempo...!

apenas e somente... o maravilhoso mundo de MB


acho que tenho que subir a um escadote... para lhe dar um enorme xi-coração :))

walter.ito

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Já não sei que dizer, saio maravilhada com a leitura e dizer isso é pouco, este é um dos mais lindos textos que lhe li, que me remete também para algumas memórias nos sótãos da infância.
É um texto muito profundo e é dessas memórias afectivas que se refaz a habilidade do equilíbrio.

Vivi aqui um momento mais do que perfeito em tudo o que escreveu e sobretudo pelo que de seu existe no que talvez nunca escreverá...

Um grande beijinho.
Branca

Por toda minha Vida disse...

Manu.

Agora que começou continua pois este balanço já fez em mim um encantamento de infância, traga-me de volta para que possa humildemente deitar sobre os amores perfeitos que este também ficaram lá em meu passado...

Desejo a ti um domingo repleto de amor.

Eva Gonçalves disse...

E com esta história, percorremos também as escadas do tempo até chegar ao piso que a linda tela ilustra! Também eu brinquei sempre descalça no verão e o baloiço era amarelo em vez de vermelho (e também houve um pneu...), mas a sensação de liberdade, de vertigem era de certo a mesma. Todos temos feridas nas dobras do tempo, sobre as quais nunca falaremos, por mais voltas que as cordas do baloiço dêem. :) Beijinhos

Graça Pires disse...

Uma casa como um rio na dobra da memória. A luz que a inunda nos dias mais tranquilos terá uma inclinação tão perfeita que perceberás o fascínio que te colou a esse chão...
omo sempre um texto muito belo, Manuela. Um grande beijo.

E.A. disse...

Manuela,
Encheu-me o coração para hoje e não é coisa pouca se tantas vezes me parece fundo fundo.
Também eu amante de degraus, baloiços, muros e recantos, onde me vejo a braços com palavras que não saem nunca.
Dizer-lhe também que me enterneceu o carinho que pressenti nas palavras que me deixou. É que eu acho que a Manuela me vê...

Filomena disse...

Manuela!


Era esta a casa!
Lindo!


Beijinhos de fim de semana

Filomena

manuela baptista disse...

era, Filomena

mas ainda lhe faltam muitos pedaços


um beijo

manuela

Mariazita disse...

Boa noite, Manuela
É maravilhoso observar o poder da memória.
Tal como se diz das cerejas, que vêm umas agarradas às outras:) também as recordações afloram ao nosso espírito sem dia ou hora marcados, e vão fluindo... Começamos nos esconderijos dos degraus das escadas e acabamos no baloiço vermelho de pés descalços...
Uma maravilha, este teu texto.

Um domingo feliz. Beijinhos

Linda Simões disse...

Manuela,

Do sótão não quero falar... Tenho medo do escuro!Ah,mas do banco no jardim,das flores, do balanço!...

Obrigada.


Beijos aos amigos

Malu disse...

Passando para desejar um excelente Dia das Mães!!
Que o domingo nasça em FLOR>>>
Abraços

Silenciosamente ouvindo... disse...

Pois começou a contar e agora
cada um que imagine...gostei.
Beijinho e bom domingo.

© Piedade Araújo Sol disse...

ao ler os textos da Manela, há sempre algo em mim que me transporta a um outro tempo.

as memórias que tenho para ali armazenadas no catinho do meu cerebro, reavivam e voltam sempre à tona.

engraçado como há sempre algo que me toca e se cola a mim mesma,

e a minha casa tambem tinha um sotão (que era o meu refúgio).

gostei tb dos desenhos.

bom domingo!

. intemporal . disse...

.

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. "Cobertor, piso ou passo" e re.passo e a.dentro.me e as.sento.me no tempo que sendo laje da memória é sustento e in.consistente unguento e invento sobre o colo do momento que me trouxe a maresia pelas asas do vento .

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.

.

. por.que o in.tento é a metáfora do tento .

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. íssimo feliz .

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joaquimdocarmo disse...

" (...) Há sempre uma loja da especialidade quando nos querem moldar a qualquer coisa. (...)" - está visto que, no máximo, só terão conseguido moldar-lhe os pés!...
Na arrumação das memórias, os espaços, quase todos - pelo menos uma excepção: o "sótão do qual não vou ainda falar" - entre-cruzam-se disputando (?!) o "seu" lugar no tempo... mas, na minha leitura, a "dobra" que o disfarça ainda vai durar muito, talvez mesmo até ao momento em que se dispuser a falar do "sótão"...!
Mesmo incompleto - o que acho ser uma "virtude" inestimável! - seu conto viverá para lá da "dobra do tempo"!
Beijinho

Nilson Barcelli disse...

Mais uma história muito bem contada. Como sempre...
Gostei imenso da sua narrativa.
Boa semana.
Beijos.

alegria de viver disse...

Olá querida amiga

Acredito que só estou lendo este texto porque sua memória está cheia de belas recordações.
Sim sua memória vai abrir esse coração e soltar todas as amarras, e quando isso acontecer, a liberdade será sentida.
Amiga, obrigada.

Com muito carinho BJS.

Fézada disse...

Auf!

A mim também me cheira a maresia, sempre que abres as janelas de par em par para sair o cheiro a fritos.

Ossos do ofício...

Auf!

Auf!

Mel de Carvalho disse...

Há magia em cada degrau que se sobe, preferencialmente de forma lenta, a sentir o chão contra a pele ou vice-versa. Há, desde logo, a magia dos números. Não sei se por acaso ou porque sim: 14 e depois de cinco em cinco - e porque cinco os sentidos, cinco os dedos de cada mão, os continentes, as pontas de uma estrela de David, e porque, por mais que os tentemos explicar existem lugares que são nossos, intimamente nossos, e também por isso, esta partilha é tão mágica.
Por vezes, querida Manuela, "entre o canteiro dos amores-perfeitos e o banco de pedra, (também) me oiço a disputar o baloiço, rústico, de madeira e cordas grossas, o assento pintado de vermelho suspenso do alto, a oscilação, as pernas e os braços esticados, a cabeça para trás, as pernas e os braços dobrados, a cabeça atira-se para a frente, a velocidade, a vertigem."...

só nunca o saberei dizer desta forma, tão sua, tão bela.

Beijo e a promessa de uma abraço a 14 :), no mês que é cinco, de cinco sentidos. De coração! O rio ao fundo. Sempre! O mar é logo ali...

Mel

Dulce AC disse...

"Sei tudo sobre eles, os que têm o bicho do caruncho que não se cala durante a noite, os que são bons para nos sentarmos a ler um livro, os que possuem um buraco secreto onde estão escondidas...."

na dobra das suas palavras, encontrei-me de novo, num tempo de vida que sempre reflectirá em mim o que sou e o que dou

é um tempo sem fim, e por isso é, na dobra do tempo, talvez...
o meu melhor tempo

beijinho grande e até breve, dia 14 próximo, encontrarmo-nos-emos, que bom..!:-)

dulce

Maria João disse...

De um lugar para outro,
a manta quente que guarda na dobra a memória, e no décimo quarto degrau, o brilho do encerado reflecte no rosto, o som aconchegante da subida de todas as escadas em caracol, esculpidas pelo tempo.

Aqui, Manuela
vou tantas vezes, na sua escrita, de um lugar para outro.

Hoje levo o baloiço comigo. Preciso dele, não se importa pois não?

Beijinho grande

AntónioR. disse...

"No banco de pedra mandei sentar todos os personagens das histórias que escreverei um dia e disse-lhes que estava farta deles, que me incomodavam, que eram ruído no silêncio da minha cabeça."
Depois das personagens descansarem, permita-me uma sugestão, chame-as uma a uma...talvez algumas já não tenham nada para dizer.

AFRICA EM POESIA disse...

O conto é magia


Vim matar saudades...

O rio corre sempre
Luta sempre
não baixa os braços

Um beijo

RIO


Olho a paisagem...
Vejo o rio...
O monte...
E vales...
Como és belo...
Como és grande...

É bom ver-te...
Rio límpido...
De águas puras...
De águas cristalinas...
A cair pelos montes...
E pelos vales...

Cair lentamente...
E ver como se corre...
Como se beija...
E como se dorme...

E tu Rio...
Lentamente...
Desces os montes...
Os vales...
E beijas...
E acaricias...
E corres...
Sem nunca parar!...

LILI LARANJO

manuela baptista disse...

António

obrigada pela sugestão! mas quando eu chamar as personagens

estarão mais vivas do que nunca!

um beijo

manuela

Virgínia do Carmo disse...

Manuela, são poucas as palavras que me sobram da comoção de lê-la. Obrigada.

Um beijinho

A.Tapadinhas disse...

Cheira a maresia, sabe a poesia...

Na dobra da minha memória ficará guardada a leitura deste texto com sabor a sal!

Beijo,
António

manuela baptista disse...

nesta passagem, agradeço-vos!

e muito especialmente à Ju e ao António

cujos comentários o blogger fez dsaparecer...

manuela

ju rigoni disse...

Belíssimas metáforas, Manuela, para chegar sem o revelar ao segredo guardado na dobra do tempo... Muito "viajei" ao ler esse seu belo conto.

Bjs, querida. E inté!

manuela baptista disse...

Ju, reaparecida!

obrigada

manuela

OutrosEncantos disse...

Manuela, ontem eu não te disse, mas este..., este foi o que remexeu tudo cá por dentro, até chegar aos olhos.

[aviso-te desde já que sou uma lapa e também fala-barato, aconselho-te a correr comigo o mais rápido possível, antes que me cole rss...]

Beijinho :)

manuela baptista disse...

ups!

:))