dias serenos



O sol era quente e o cão ladrava.
Ela dizia baixinho, conta, outra vez… enquanto os dedos magros abriam cuidadosamente as vagens e retiravam uma a uma as redondas sementes. Em cada cinco trincavam uma sem ninguém ver, era essa a regra. Quebrada, era o amuo, a zanga, o fim do faz-de-conta, a face cerrada.
E contava outra e sempre desta vez era uma vez uma menina perdida tanta vez perdida e chovia muito e ela pingava de água e de frio. Bateu à porta de um castelo.
As pedras guardam o calor durante muitas horas e colam desenhos geométricos à pele das coxas.
Quem saberá de uma princesa friorenta num tempo de trevas, se eu esconder debaixo de mim uma ervilha não dormirei durante duas noites e à terceira delas, o cansaço e o sono levar-me-ão para um outro reino onde existe um deus chamado Morfeu, que cativa as crianças que acreditam que as portas se abrem quando os galos cantam.
O dedo polegar e o indicador acastanham-se, oxidam-se no cansaço da tarde e o cão continua a ladrar.
O segredo está em deitar no tacho meia colher de chá de açúcar branco e a doçura amacia-se em verde esperança, com um ramo de cheiros e coentros picados com uma tesoura.
Os dias acrescentam-se num engano de horas e julgam-se maiores ou mais belos, mas somos nós que lhes acrescentamos o sal e meia colher de chá de riso quando engolimos sem mastigar a vigésima quinta ervilha, aquela que pelas leis de Mendel determinou a cor dos nossos olhos e a largura da oxidação de um polegar.
Depois o rei ordenou que lhe dessem banho e lhe vestissem um vestido de veludo verde-água e a ensinassem a cantar.
Reencontrado o tempo dos risos, quente era voz que contava os contos e os barcos eram verdes como ervilhas a navegar.




"ervilhas" desenhos a pastel de mb




36 comentários:

AC disse...

Manuela,
Finalmente um tempinho para me deliciar com as suas palavras. Estão arrumadas de tal forma que viajar nelas implica perder a noção do tempo.

Beijo :)

António R. disse...

Não sei se as ervilhas navegam, mas tenho a certeza que uma colher de chá de riso é o melhor remédio do mundo.
No mar da internet este é um porto de atracagem obrigatório.

Eliete disse...

manuela seus escritos são verdadeiros bálsamos para minha alma e esta música , então, leva-me às alturas.
Deu-me vontade de tirar as sementes das ervilhas.beijos

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Quente era uma voz de ervilha
debaixo de uma princesa que sabia navegar


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Março de 2011

Eva Gonçalves disse...

Quando era menina, sentia sempre presença de ervilha debaixo de vários colchões... ou não fosse princesa do meu pai.. Foi também ele que me ensinou essa receita do sal e meia chávena de riso acrescentados aos dias... Simples como ervilhas... ou como diria a minha mãe, easypeasy :)) Beijinhos

Sopro Vida Sem Margens disse...

..Uma só palavra...

SUBLIME!


Um Beijinho
da
Assiria

. intemporal . disse...

.

.

. a des.construção de um momento em tensão é actividade intrínseca e in.equívoca do pensamento humano .

.

. somos o resultado límpido d.aquilo em que acreditamos . todos os dias . logo à nascença .

.

. e ao tecermos um sorriso rasgado por cada ervilha que des.bulhamos acrescentamos ao dia todos os segundos felizes cedidos dentro de um tempo certo .

.

. o tempo que temos . todos os dias .

.

. íssimo feliz .

.

.

Fézada disse...

Auf!

Auf!

Ervilhas!!! Auf!

Hamburgueres e croquetes sempre... Mas nunca vegetarianos!

Auf!

walter disse...

a vigésima quinta ervilha, era uma semente mágica, ilusória, fechada na campânula de umas mãos pequeninas, que abertas rente ao véu que cobre a noite, enganavam o dia...e por mais alguns momentos, subia então o sol no horizonte e descerrava as suas pálpebras para incendiar a imaginação de quem no olhar tem o sorriso e a serenidade dos dias, e duas mãos pequeninas, meigas, aveludadas como as ervilhas, para dizerem adeus aos barcos a navegarem no verde da esperança...

um beijo, querida amiga!

walter

Nilson Barcelli disse...

És inultrapassável neste tipo de histórias. Nunca vi melhor nos blogs...
Parabéns pela criatividade e talento que revelas a cada post.
Querida amiga, bom resto de Domingo.
Beijos.

Drika disse...

Que linda história.... tão lindas as plavras que vc tão bem colocou, elegantemente! E realmente somos nós quem mudamos os dias, colocando tempero neles... adorei! Parabéns! E a imagem tbm está muito bonita!

Abraços no coração e boa semana!

Filomena disse...

e o verde é a cor do sonho neste conto.


Beijinhos de um final de domingo em que fez sol e choveu


Filomena

Beatriz disse...

Ah quanto tempo não passo por aqui Manuela!
Saudades das palavras perfeitas...

Uma ótima semana para você!!!

Bjs

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

O Profeta disse...

Calei a alma
Aprisionei o sentir deste estúpido coração
Mergulhei o corpo em agua dormente
E lembrei-me de uma esquecida oração

De quantas palavras se faz a melodia?
Para onde caminham os passos de uma criatura perdida?
O que será que pensa um homem caído?
Para que serve a verdade incontida?

Perdi a vela do meu barco de papel
Mil tempestades assolaram-me à alma
Abandonei o leme ao deus dará
E encontrei uma deusa em lágrimas, de perdida chama


Mágico beijo

Cildemer disse...

Lindo! Adorei!
Obrigada pela partilha do conto da ervilha;o)

Recebi do blog "O falção de Jade" o prémio "Kreative Blogger" e uma das regras é passá-lo para 10 blogues que eu considero como "criativos.
Ficaria grata, se o aceitasses e o viesses buscar aqui: Les pieds dans l'eau...la tête dans les étoiles.

***
Beijinhos e feliz semana****

BRANCAMAR disse...

São sempre quentas as vozes que contam os contos e estamos no tempo dos risos desbulhados e das canções.

Assim me ficaram na memória tantas histórias, ainda tão vivas, como se as ouvisse ainda hoje. Meus avós maternos eram contadores de histórias, orais, que passavam de boca em boca. Por isso admiro imenso os contadores de histórias, daquelas que encantam mesmo os meninos e que até podem ser reais, poo isso gosto sempre de voltar aqui, onde há sempre um conto que nos aquece.

Beijinhos, Manuela.
Branca

Virgínia do Carmo disse...

De uma sensibilidade e de uma beleza inclassificáveis.... obrigada.

Um grande beijinho

Graça Pires disse...

E eu gosto tanto que me contem histórias. Que texto maravilhoso!
Apeteceu-me estar a descascar ervilhas e a ouvir-te...
Um grande beijo.

Por toda minha Vida disse...

Depois de tudo apenas te digo.
encantador...

beijo Manu é ótima semana.

Graça Pereira disse...

Descascar ervilhas e por cada semente ouvir uma história, penso que ficaria toda a tarde a debulhá-las, ainda que o polegar e o indicador se acastanhassem e os dedos ficassam adormecidos. Aplicaria o segredo: deitaria no tacho meia colher de chá de açucar branco e os meus sonhos nessa noite, seriam verdes como a esperança!
Como sempre,Manela, um encanto!
Beijo e boa semana.
Graça

Em@ disse...

Manuela,
há acaso surpreendentes. sinceramente não sei como aqui vim parar. estava a responder aos comentários e ao clicar para responder ao seguinte, vim aqui parar. resolvi ficar. e gostei tanto, mas tanto, que prometo voltar. para não me esquecer pendurei-me num dos quadrados lá de baixo.
beijo

Dulce AC disse...

"Reencontrado o tempo dos risos, quente era voz que contava os contos e os barcos eram verdes como ervilhas a navegar."

E porque será que o verde...
esse...o verde também da ervilha
o verde também dos barcos...
é chamada a cor da esperança...

Deixei-me ali ficar...
E sorri...Porque sim..!

Que maravilha Manuela, lindo.
Beijinhos verdes, muitos..:-)

dulce

Dulce AC disse...

E hoje Manuela...
levei tudo...a música maravilhosa que tão bem enuncia as suas palavras...é um encantamento perfeitíssimo.
obrigada.
beijinho grande...e verde claro...:-)

dulce

Glorinha L de Lion disse...

Adoro ouvir tuas estórias a por sal e açúcar na minha vida que anda tão sem graça...viajo contigo dentro de ervilhas-barcos a procurar esse reino onde possa ser feliz....beijos,

nacasadorau disse...

Debulhar ervilhas enfadada, ouvindo o cão que ladra e sonhar com um rei que a manda vestir de veludo verde água.
Quem reencontrou o tempo do sorriso amplo... quase riso fui eu, amiga Manuela.

Obrigada.

Beijinho

Maria João disse...

Vem-me à memória o prazer de trincar ervilhar, tanto quanto de ouvir histórias e ver barcos verdes a navegar carregados de amuos e esperança.

É sempre assim quando a leio, Manuela, um voo no tempo com os bolsos cheios de sementes.

Um beijinho

alegria de viver disse...

Olá querida amiga

Dias serenos.
Dizer mais uma vez quanto seu conto é maravilhoso, acho que estou me tornando repetitiva.
A verdade é que não conheço outra palavra para descrever.
Portanto, maravilhoso conto.
As ervilhas são um xou, amo ervilhas.

Com muito carinho BJS.

Ana Martins disse...

Manuela,
uma história dentro de outra história, lindo, viajei no tempo a recordar as história que me contavam quando menina.

Beijinho,
Ana Martins

Manuela Freitas disse...

Afinal eu não sabia nada de ervilhas...e também em criança me entusiasmava com as histórias que ouvia enquanto se cortava a ranhura e se colocava aquelas bolinhas verdes para uma tigela!
Manuela sempre me levas lá para trás, para o tempo da simplicidade e da descoberta da vida!
Beijinhos e como sempre um belo texto.
Manuela

E.A. disse...

Manuela,
O tempo não tem sido muito num semestre que se adivinha bastante trabalhoso, mas vou lendo, embora nem sempre comente.
Vou lendo, porque toda a realidade necessita de intervalos de luz.
Reitero a admiração,
Elisabete

© Piedade Araújo Sol disse...

um sensibilidade nata em escolher as palavras sempre certas para cada poste, sem querer naveguei na minha infancia e lembrei que gostava de comer ervilhas cruas.

as imagens como sempre belissimas.

um beij

ju rigoni disse...

Manuela,

sempre um grande prazer navegar esse mar. Levo, dessa história que é histórias, o doce encanto de uma receita.

Bjs, querida, e inté!

Mel de Carvalho disse...

A viajar na nostalgia saudável de um tempo de partilha em que o tempo se dilatava muito além da demarcação dos ponteiros de qualquer relógio de água ou de areia e apenas os bagos debulhados na pele dos olhos contavam de mensagens que, sem se saberem ainda metáforas, eram saberes inultrapassáveis.

Manuela, os seus contos são-me, creia, preciosos. A semana foi atribulada mas não poderia vir deixar de agradecer cada minutos de paz que aqui colho.

Beijo, bom fds. Estarei a dois passos, literalmente, de si :)
Mel

Fézada disse...

Auf!

Das duas duas: ou estás de greve ou na cozinha, a fritar croquetes.

Auf!

Auf!

manuela baptista disse...

Fézada

no Japão, três semanas após o tsunami,

um ser corajoso da tua espécie

foi salvo em alto mar, onde navegava no telhado da casa que era ainda a sua, qual jangada de esperança!

comparado com isto, o que são uns ovos com ervilhas?

assim

respondo-te, que tenho estado entretida a partir candeeiros e a fritar croquetes

que te oferecerei, em homenagem a todos os da tua raça

uma grande festa!

manuela

manuela baptista disse...

agradeço a vossa companhia
nestes dias serenos

um abraço a todos!

manuela