era a serra




Já tive muitos senhores.
Sei a cor das ervas mais finas, a frescura dos verdes, os cantos e os recantos onde a água corre e a sede escorre saciada.
Os blocos de granito são o meu tecto, as paredes da minha casa, a chaminé da minha cozinha, contraforte, corta-vento, nave onde rezo todas as noites e outras tantas escuto as vozes que me sossegam, rumores da minha própria voz.
As pedras marcam os caminhos, orientam-me, situam-me. Só de olhar a sombra que projectam e os líquenes que as habitam, reconheço o mês em que estamos e a hora do dia.
Sou magro, ágil, trepo aos penedos com as minhas cabras, desejo a altitude como as minhas ovelhas. Nem umas nem outras me pertencem, chamo-as minhas porque entendo a sua linguagem e sou eu que as conduzo aos abrigos e as protejo dos abismos.
A frugalidade aprendi-a cá em cima, o pão, o queijo, as batatas, uma única panela e a fogueira para cozinhar. Ainda há lobos na serra e todos pensam que não, porque este é um tempo que se foi e eu entendo a distância das estrelas.
Aqui dorme-se de pé, a capa de lã esconde-me da noite e o travesseiro é o cajado ou uma pedra, porque quando sopra o vento forte e a chuva é um animal enlouquecido, deitado seria a morte, pouca a sorte.
Há dias em que já estou velho, a boina cinzenta enfiada até às orelhas a eterna camisa de flanela aos quadrados pretos e brancos, a camisola mais quente e os meus olhos de piscar lonjuras.
Outros, sou uma criança ainda, tenho seis anos e os calções rotos, os joelhos esfolados das pedrinhas pequenas, uma esperteza de raposa e identifico ao longe o balir de cada ovelha. Entre os dois, está esta minha vida, linda!
Já me disseram que serei o último, dos pastores.
Haverá muitas outras formas de viver, muitos silêncios entre o ruído das cidades, ovelhas cativas de tantos senhores. Casas altas como esta serra também.
Dizem que fantasio e que é inútil o meu saber. Matar para comer, não está na natureza das rochas.
De tudo o mais, nada sei, continuo a confiar nas nuvens e nas trovoadas e se um dia me vir sozinho no penhasco mais alto e a esperança me deixar, saberei que por fim a minha almofada será da lã mais pura das ovelhas brancas que eu tanto gostei de criar.





comprovada a existência das estrelas, poderá ser este
o último dos pastores
disso nada sei

mas sei dos guardadores de contos e dos que me ensinam a viajar





desenhos a pastel de mb



29 comentários:

AC disse...

Cada texto é uma viagem, um bilhete para as memórias mais aconchegadas de nós. E eu, menino de tenra idade, fico espantado a ler, a saltitar por entre os granitos da serra. E é tão bom andar lá em cima, onde as coisas são o que são...!
Obrigado, Manuela!

Beijo :)

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Se sabes dos guardadores de contos, guardiã que deles também o és e dos que te levam a viajar como, pelo que contas, tão bem sabes dos pastores, então, tal como desenhas já sabes muito ...!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Fevereiro de 2011

MariaIvone disse...

A sabedoria de experiência feita, é a riquesa do pastor. Mas quando se entende a distância das estrelas viaja-se em sonhos contados em contos.

Beijo

Luís Coelho disse...

Nem sei o que dizer depois de me lambuzar nesta serra de letras onde apenas faltou a flauta para dobrar as horas juntas no rebanho dos sonhos.

Obrigado por poder caminhar por momentos sentido-me parte do rebanho

Graça Pereira disse...

A imagem do pastor é riquissima! "Eu sou o Bom Pastor"... Ele trata por tu cada pedrinha da serra e o ramo mais frágil de um novo rebento.
Mantém a ordem no mundo. Não deixa dispersar o seu rebanho e afasta-o dos lobos ferozes...
As estrelas são o seu caminho e por elas se guia. Tudo lhe pertence e nada é seu...
Há tambem os pastores das palavras...apanham-nas aqui e acolá e depois quando há vento, um vento forte...soltam-nas sobre o monte e caiem em todos os terrenos...outras, em caminhos de muita gente como se fossem mensagens...ainda outras, parecem perdidas.Mas, tal como o bom pastor,
voltamos atrás para as procurar e que nada nos impeça de acreditar que aquilo que perdemos continua a ser nosso enquanto o procurarmos.
Beijo encantado...a uma pastora!
Graça

walter disse...

ai Manuela Manuela Manuela... que não há como ela para nos encantar assim! :)

o seu conto é mais que um conto,
é um testemunho vivo de uma tradição quase perdida e que contado na primeira pessoa, lhe confere uma autenticidade que nos deixa de olhos humedecidos...

bonita e sensível homenagem ao João Direito, guardador de ovelhas e de sonhos...

um abraço ao sábio e pastor

um beijo à Manuela

Walter

Nilson Barcelli disse...

Magnífico, querida amiga.
Deves ter sido criada na aldeia... ou até mesmo pastora em criança, porque a tua visão da serra parece a de um pastor.
Boa semana.
Beijos.

. intemporal . disse...

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. sob os olhos de piscar lonjuras des.enrolam.se novelos de cardados velos e que são apelos às palavras que manifestam o excerto do tempo .

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. porque mais não somos do que estátuas de vento . que deixam marcas de alento . de talento . de um tributo ávido atento e sedento .

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. a complexidade da simplicidade re.conta.se nos primeiros passos . e nos passos seguintes e em outros ainda .

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. e quanto mais os acrescentamos lassos mais escassos serão os que teremos ainda para acrescentar .

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. porque em vez de iludirmos a vida iludimos a própria ilusão e elevamos a simplicidade que não é composta à in.eficácia da exaustão .

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. resta.nos acreditar numa jangada de pedra . que nos veda rumo à margem onde queremos chegar . dali a qualquer outro lugar é e será sempre onde quereremos ser e estar .

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. des.crever.mo.nos é por ora o princípio e o meio e a morte o ventre e o seio por onde iremos passar . d.aqui para um outro lugar . onde permaneceremos para sempre a per.noitar como costume sob sete.sóis de mil luas .

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. e eu ? sobre as palavras Suas .

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. vestidas . e nunca nuas . sortidas nas vielas . nas travessas e ruas . e.ternas mas ternas . a.penas uma . e já são duas .

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. um .

.

. dois .

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. três .

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. íssimos felizes .

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Drika disse...

Muito bonito seu jeito de escrever...é história mas parece poesia, que pode até virar música =) e os desenhos são lindos, de bom gosto... parabéns!

Abraço no coração!

Graça Pires disse...

Reconhecer a linguagem da serra: das plantas, dos animais, e das pedras. Recorrer aos sonhos para voltar à infância e a outros lugares.
Sempre muito belos os teus textos, amiga.
Um grande beijo.

Mel de Carvalho disse...

Sabe, Manuela, são em momentos como este que dou por ganha a minha viagem na blogoesfera; são em leituras como esta que me sinto mínima e imensamente grata.

"Haverá muitas outras formas de viver, muitos silêncios entre o ruído das cidades, ovelhas cativas de tantos senhores. Casas altas como esta serra também.", diz, e eu sublinho, na mensagem que nos deixa. O êxodo rural deixou "tantas ovelhas cativas" que, acima de tudo o mais, se perderam de si, na solidão das grandes cidades. Papalagui tão bem fala desta solidão. E eu questiono-me se, porventura, não estaremos a viver a última geração dos reais afectos...

Minha amiga, obrigada.
Beijo da Mel

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto muito rico na sua maneira de escrever, que leva os seus leitores a sonhar com todas as vivencias (imaginarias ou não) que aqui nos dá a partilhar.

beij

nacasadorau disse...

Li e reli, como previa ...

O meu espanto fica preso num sorriso doce que enfeita agora o meu rosto.
O prazer de a ler é um dos maiores que encontro desde que me conheço.

Quem dera que alguns de nós continuem a saber ser e a reconhecer os bons pastores.

Obrigada pelo momento mágico e parabéns pelos lindos desenhos a pastel.

Beijo

AnaMar (pseudónimo) disse...

e são por olhos que piscam lonjuras e por mãos de bricar à cabra-cega que o desenho das palvars tem a forma de poema.
em sol maior notas soltas de encantamento e magia.

sempre aqui em cores de infãncia que recuperamos em soluços de risos.

nacasadorau disse...

Fiz um link para o seu Blog e para o pastor.
Levo também duas das suas pinturas.
Darei todos os créditos, como sempre o faço.
Espero que não se incomode.

Beijinhos

manuela baptista disse...

querida Ná!

incomodar-me-ia, porquê?

não há história
que não goste de viajar

obrigada pelo seu gesto!

um beijo

manuela

Isa disse...

Lindo Texto.
Adorável partilha!
Estás de Parabéns!
Beijo.
isa.

Fézada disse...

Auf!

"Então" era pastor, guardava ovelhas!

Auf!

Auf!

nacasadorau disse...

Obrigada amiga por conjugar os mesmo verbos:

Partilhar
Valorizar
Reconhecer
Amar os outros mais do que a nós próprios...

Beijo

Dulce AC disse...

Que bom que é têmo-la a si Querida Manuela como nossa "Pastora", pelas palavras que tão depressa voam, como se aninham...seja onde for que a imaginação nos leve, mas que sempre permanecem profundas em nós. Palavras que são sempre Vida.

Uma homenagem sentida a uma pessoa simples e bonita.

E os seus desenhos são tão interpelativos, lindos.

Um abraço amigo, enormíssimo, pleno de ternura.
dulce

Janita disse...

Querida Ná.
Lindo texto que não escreveste, mas dás a conhecer e partilhas com quem ama a leitura e através dela aprende e cresce.
Minha amiga, um livro é o melhor amigo que podemos ter. Está sempre o nosso dispor e permanece inalterável.
Obrigada por todas as belas mensagens que nos transmites.
Beijos da amiga.
Janita

Eliete disse...

Manuela que coisa linda! Seu pastor me fez sentir saudades de algo que não vivi mas que sempre desejei.bjs

Andradarte disse...

História de um bom...verdadeiro pastor..
bonito texto
Beijo

Maria João disse...

E sabe o pastor, que do alto da serra, entre as batatas e as estrelas, apenas o vento é seu confidente. Agarra-se ao cajado e pensa em todas as ovelhas que se perderam para lá do horizonte, as de outras senhorias, e lamenta não as ter amado também. O uivo dos lobos, anuncia-lhe a cautela. Esconde a alma na lã pura e quente das suas protegidas e no balido delas, encontra o sentido mais elevado de se saber, apenas, partícula de toda a natureza.


Este texto é a mais bela homenagem que só a Manuela poderia fazer, a João Direito.

Um beijinho

Mariazita disse...

Guardadores de rebanhos ou pastores, cujo dia a dia se encontra tão bem descrito neste magnífico texto, uma espécie em vias de extinção!

Vim do blog da Ná, e ainda bem que vim pois gostei imenso do teu espaço.
Vou fazer-me tua seguidora, se me deres licença :)

Voltarei, sempre que possível.

Uma boa semana. Beijinhos

Por toda minha Vida disse...

Manu.

Tem musica para amigos lá no blog, gostosa de ouvir e boa pra dançar...

Beijo

alegria de viver disse...

Olá querida

O conto nos transporta com tanta sabedoria para um tempo, onde tudo era moralmente perfeito.

Com muito carinho BJS.

BRANCAMAR disse...

Adorei Manuela, e fixei-me na expressão final: "mas sei dos guardadores de contos e dos que me ensinam a viajar".
Diz-me muito esta frase porque também eu adoro ouvir os guardadores de contos e muito jovem estabelecia fortes amizades com pessoas de muita idade, que me encantavam pelo que tinham para me dizer.
Um beijo por esta bela história, também li a notícia no link e gostei de conhecer o Sr. João Direito, conheço alguns por ali perto, não já pastores, mas guardadores de outros gados e cavaleiros, que também dormem por vezes nos pastos, mas em terras mais suaves de planalto, ali para os lados de Sabugal, onde existe o famoso castelo das cinco quinas.

Beijinhos
Branca

manuela baptista disse...

agradeço

aos que comigo
habitaram esta serra

manuela