do pinheiro



Agarra cuidadosamente a ponta do fio e enrola-o três vezes à volta do dedo indicador da mão esquerda, depois, com a mão direita continua num movimento alternado, até se formar uma pequena bola. Concentra-se, a cabeça de lado, escuta-lhe a voz, solta os dedos presos e o novelo pode agora crescer.
Olha a meada bem presa em cada mão, os braços fazendo um ângulo recto, a meiguice do gesto, o oscilar que a faz bocejar, ela ri-se, tens sono, ainda falta muito, pergunta. Não falta.
É cor de sangue a lã e cheira a carneiro, a bicho feliz no meio dos pastos, a balidos que acordam os pássaros adormecidos, é pura a lã.
Quando era muito pequenina, apenas segurava a meada e aguentava até os braços lhe doerem, até os picos da dormência tornarem insuportável aquela posição, sem um queixume. Agora enovela-se, na intriga dos fios em tantas as pontas da lã, como as agulhas, compridas, brilhantes, encarnadas, azuis, douradas, prateadas as mais antigas.
E as de fazer meias e sapatinhos de bebé, são cinco como os dedos da mão e vão rodando como as estrelas no céu e parecem sempre as mesmas, mas não são. São mágicas e nas noites de lua cheia quem começar a tricotar uma meia não conseguirá parar, crescerá imensa e se por um acaso o universo tivesse frio nos pés, roubaria a meia e a tecedeira e guardava-as no fundo do mar.
Ela abre os olhos deslumbrada com os contos dos fios, de meia, de liga, com a voz da mãe sempre a trabalhar, um dia faço-te uma camisola da cor do céu para passear.
Se fosse gato desfazia tudo, se fosse sapo escondia-se nos bolsos, três malhas e um torcido, volta-se atrás para as apanhar.
Quando estiver cansada, recorta os bonecos de papel, a língua de fora, no esforço de manejar a tesoura, veste-lhes camisolinhas de lã e dá-lhes a fala dos meninos tristes.
Lá fora as agulhas do pinheiro estremecem.

novelos aluados de mb



22 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Do pinheiro
como pinha
novelo de lã
carapinha
e cada vez que se aninha
é mais um conto
adivinha


Como sempre, belíssimo!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Janeiro de 2011

Luís Coelho disse...

Diria que o novelo é uma linha que se dobre e se enrola, mas as mãos desfazem e constroem outras coisas.
Meias, camisolas e com as agulhas é só imaginar a linha com que se cose.

Mar Arável disse...

A ternura na complexidade

de um novelo com vida


Muito belo

Linda Simões disse...

Belíssimo !


...


Beijão,

Linda Simões

Mel de Carvalho disse...

Manuela, repentinamente fui levada para lá atrás, há quase um milhar de anos, quando, de braços erguidos, era a espera da volta da meada - depois haveria de haver, na ponta da agulha, a laça a liga, o favo de mel, o ponto areia ...
o casaco que a avó tecia e que eu, menina ainda, vestia (tão) orgulhosa ...

a minha gratidão, Manuela, por me devolver a infância na beleza deste canto.

beijo
Mel

Dulce AC disse...

"Olha a meada bem presa em cada mão, os braços fazendo um ângulo recto, a meiguice do gesto, o oscilar que a faz bocejar, ela ri-se, tens sono, ainda falta muito, pergunta. Não falta."

Olhamos a Vida por aqui, o melhor dos sentimentos que guardamos em nós. Sempre pelas suas palavras Manuela...
Maravilhoso..!!

Obrigado num gesto que dou e lhe entrego num simples abraço amigo...


Dulce

walter disse...

e eu vejo novelos de ternura, no olhar de quem nas mãos segura, as pontas das linhas com que se cose a vida!

de uma ternura sem fim, Manuela!

um beijo

Walter

António R. disse...

Há tanta gente sem camisolas da cor do mar por causa dos novelos da vida.
Bjs.

BRANCAMAR disse...

Sempre as histórias belas de gestos que já não se fazem. Segurar nas meadas, dobar e tricotar, crescer assistindo à construção e aprendendo a construir, já não se faz, já não se aprende no canto da sala ou nos serões à lareira, enquanto se brinca com os bonecos de papel e se aprende a ser gente crescida, na ternura do silêncio e do olhar.

Beijos, Manuela
Branca

Maria João disse...

Haviam sempre duas pontas a fazer nó, laço e abraço de um mesmo tear. Uma que enrolava como quem sabe a direcção do fio que haveria de aquecer, tecido, o coração de alguém. Outra que deixava balançar os braços, ao ritmo de quem vê desembaraçados todos os nós cegos sem resposta.
Foram tantos os novelos e as mantas tecidas, que hoje até as agulhas dos pinheiros sabem dos pontos com que se tecem as ausências.

Sabe Manuela, a sua escrita é uma ponta quentinha de ternura que aquece a alma.

Um beijinho de enorme gratidão.

Graça Pereira disse...

Fiz uma meada com fios prateados da lua cheia que hoje passeia pelo céu..
Fiquei com os braços dormentes porque a lua está muito longe...e muito longe também está a filha com os braços esticados ouvindo a voz da mãe: agora abaixa o braço direito, agora o esquerdo e quando via a camisola feita, pensava: tantos fios de cansaço!
Mais uma história que nos abre as portas à imaginação e ao passado.
Há uma frescura e perfume nela que me tráz laços em cada uma das suas palavras.
Beijo
Graça

MariaIvone disse...

Manuela, cada vez gosto da sua escrita: linda, doce, calma, tranquila, rítmica, expressiva, inebriante, ...
Voltei aos tempos de menina, entrei no balanço do corpo ao sabor das voltas da meada. Senti a magia do tricotar a cinco agulhas e dos torcidos de três malhas. Nãqo fora o estremecimento das agulhas dos pinheiro e o encanto mantinha-se.


Beijo

AC disse...

Começa-se a enovelar o fio, com a ternura atenta, sempre por perto, e as pontas, qual entrada do labirinto mágico, poderão ser encontradas em qualquer lugar que a imaginação permita...
Lá fora, sempre presentes, os elementos naturais apenas contribuem para dar mais sabor aos emaranhados destinos dos fios...
A sua escrita merece muitos beijinhos, Manuela!

. intemporal . disse...

.

.

. lá fora gelam por ora as almas que não são de dentro .

.

. cá dentro aquecem.se agora os meninos nunca tristes .

.

. porque há um coração que pulsa ao ritmo de uma alma ar.dente . de gente vivente e nunca morrente .

.

. de gente diferente e nunca in.diferente .

.

. de gente pin.gente e nunca pun.gente .

.

. eloquente .

.

. que ama e que sente .

.

. seguindo o conselho de Oscar Wilde, há muito que fiz a minha escolha e então escolha .

.

. um .

.

. dois .

.

. três .

.

. íssimos de lã .

.

.

Fézada disse...

Auf!

Auf! Auf!

Ainda bem que a Tita se foi embora daqui...

Agora já posso entrar! Sem ferir susceptibilidades!

Auf!

Manuela Freitas disse...

Olá Manuela, pela tua prosa sempre tão transbordante de afectos, encontrei uma miúda a que chamavam Nélinha, um pouco irrequieta que não tinha muita paciência para ficar de braços estendidos, mas gostava de ver as meias a crescer e fazia uns improvisos de roupas para as bonecas!
Beijinhos,
Manuela

alegria de viver disse...

Amiga linda

Amei os desenhos, todos feitos de um belo novelo, com belas agulhas concedidas pelo empréstimo dos pinheiros.
Só uma bela escritora para ter esta ideia, agulhas do pinheiro.

Com muito carinho BJS.

Linda Simões disse...

Manuela,

Na certeza do carinho recíproco,

Abraço-te.

E digo OBRIGADA.

Com saudade,

Linda Simões

Nilson Barcelli disse...

Ainda tenho uma ideia das meadas e dos novelos, apesar de não dominar a terminologia e a técnica da arte de fiar, de tecer e de tricotar.

O texto é fabuloso.
Gostei imenso dos novelinhos da tua narrativa.

Querida amiga, boa semana.
Beijos.

manuela baptista disse...

agradeço a todos

o pé
e a meia

e este dançar

abraço-vos!

manuela

Glorinha L de Lion disse...

Que lindo! Quanta delicadeza essas tuas recordações me trazem. Transbordas poesia em teus escritos e pinturas, beijos,

manuela baptista disse...

obrigada, Glorinha!

um beijo

manuela