VOZES I - verde em fundo seco

Às vezes perco-me e gosto de me perder. De manhã bem cedo ainda a casa dorme e os sonhos repousam quietos no tapete, a gola da camisola aconchega-me a garganta arranhada, emaranhada na loucura dos dias, a garrafa de água baloiça contente dentro do saco, sequiosa de outras sedes que não as minhas, saio lançado na frescura nova da quase madrugada, os olhos felizes de um outro olhar. Não espero nada e aquilo que possa encontrar cabe inteiro nas minhas mãos, nos meus bolsos e nos meus ouvidos. Uma pedra redonda da praia, uma folha seca de plátano, o chilreio de um bando de andorinhas.
Como uma criança sequiosa de aventura, aperto com força o guiador da minha velha bicicleta, as minha botas de montanha pedalam sozinhas com o ritmo e a cadência certas, cheguemos nós onde chegar, porque o que eu mais desejo é que esse chegar, tarde sempre e ainda! Os caminhos, não os escolho, estão por aí espalhados e quietos e na claridade que se começa a formar, vislumbro já enormes tufos de malmequeres amarelos e sei que as papoilas não andam por aqui tão perto do mar.
Latente é o meu desejo de a reencontrar, no meio de outros caminhos, desvios e curvas, conjunto de pontos que me darão a sua imagem, revelação fotográfica de uma floresta de carvalhos reconstituída até à exaustão na minha memória. Não foi um acaso, perdi-me e gostei de me perder. A humidade invadia todas as coisas e na quietude imensa de uma imensa sombra, o encantamento daquele lugar tomou conta de mim e senti o respeito centenário de cada ramo, sagração de uma Primavera perfeita. A mais bela das árvores tinha mais de quinze metros de altura e o diâmetro do seu tronco era enorme assim como o da sua copa onde rebentavam centenas de flores. Não respirei, porque não conseguia respirar, sufocado em espanto e admiração pousei no chão a bicicleta, libertei-me de sacos e presilhas, encostei-me ao seu tronco e deslizei até ficar sentado no chão.
Na minha cabeça latejante, latejava a seiva que a percorria e ouvi-a em histórias e contos, percorri as cidades medievais que ela edificou, os barcos que construiu, as camas que adormeceram os sonos das princesas, as mesas torneadas onde se negociaram as mortes e as vidas.
Sei que me disse "eu sou como tu! gosto de baixas altitudes, de oceânicas paisagens, não tolero frios intensos e para mim a água é o que me mantém à tona" e eu só pensava "como é que eu, assim tão pequeno e frágil, oiço o coração do mais belo dos carvalhos desta floresta?".
Depois não sei. Escureceu, tive frio e sede e o caminho de volta não o identifiquei nunca mais. Procuro-o com uma leveza no peito, pois ainda não sei tudo o que quero saber.
São tantas as vezes que me perco e gosto de me perder.

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e se tivéssemos a beleza de um verde em fundo seco?
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(fotos de fernando pedrosa)
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Manuela Baptista
Estoril, 27 de Abril 2010

38 comentários:

Manuela disse...

Amiga vim convidar para participar nos meus anos de casamento.
Bj e Obrigada por ser minha amiga.
Boa semana para si.
Bj
Manuela

Jaime Latino Ferreira disse...

CAMINHO


Eu perco-me
no caminho
em que persisto
pese embora
saber
que não sabendo
não sei
se sei
onde me leva

E se me perco
na certeza
em que persisto
sei
que nunca sei
onde me leva

Sei
se sei
que vou contigo
e não me cega


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Abril de 2010

Filomena disse...

Por vezes, nos passeios da vida deparamo-nos com árvores de sombras frescas e histórias maravilhosas por contar.


Beijinhos

Anónimo disse...

Olá!

Procuro o caminho de volta ao mar, alguém me sabe dizer? É que a beleza é tanta por aqui, que até uma pobre gaivota perde o norte!

Gaivota

Duarte disse...

Esse mar que nos une...


Entre canas silva o vento.
Até gosto!
Deixo-me cair tendo
duna como guarida.
Durmo...
embalado ao som da maré.
Caminhos intermináveis!
Guiado…
pelo ronco adormecido
desse mar sem fim.
Onde me leva?
Se pudesse caminhar por ele!
Iria mar adentro... até ao fim.

Desde amigos de Portugal abraços de vida

Brancamar disse...

"São tantas as vezes que me perco e gosto de me perder"...se gosto Manuela e como me perdi por aqui...neste deslumbrante caminho que me fez percorrer pela paisagem e por dentro do sentir, do seu e o do fotógrafo!

Perco-me tantas vezes!

Sagitariana, que sobe à lua e desce à terra uma dúzia ou mais de momentos durante o dia e cá para mim ,este fotógrafo, muito bom, mesmo, também se perde muito pela paisagem e pelo mar...

Se a Manuela quiser rever como ele tem andado perdido, repasse lá pelo meu sítio, está belíssimo o que acrescentei, exceptuando os rabiscos simples de uma aluada, que hoje ainda não desceu à terra, :)).

Beijinhos sonhadores
Branca

b ú z i o disse...

Manuela, és do Estoril? então somos quase vizinhas :) sou um búzio de Carcavelos. adorei a foto. já te leio. bj

manuela baptista disse...

Ups!

não é todos os dias que nos convidam para um aniversário de casamento!

Obrigada, Manuela!

um abraço

Manuela :)

manuela baptista disse...

Jaime

inspirado, nas vertentes de um caminho!

Manuela

manuela baptista disse...

Filomena

e espero ter ainda muitas por contar!

às vezes penso que já disse tudo, mas depois roubo aqui e ali

subtilmente claro...

beijinhos

Manuela

manuela baptista disse...

Gaivota desnorteada

o caminho para esse mar, conheço eu de olhos fechados!

e que inveja, com este calor aluado que está esta noite...

mas não era preciso esconderes-te atrás das penas!

um beijo

Manuela

manuela baptista disse...

Duarte, das rosas!

não sabia que também versejava...

daqui, de Portugal com amigos

um abraço

Manuela

manuela baptista disse...

Aluada e querida Branca

já andei no seu barco e em Sesimbra, também eu tenho um pedaçinho de mim, para além de um amigo, claro!

com a lua cheia, que está ali gorda, no céu

não sei se vai conseguir aterrar...

beijinhos

Manuela

manuela baptista disse...

búzio

e eu sou um peixe do Estoril!

beijos

Manuela

direitinho disse...

Viajei nesta madrugada. Segui contigo e não levei nada.
Não tive tempo.
Quis ir, e acabei encostado nessa árvore enorme e tão misteriosa.
Parece-me que voltaria novamente e escondido na sombra desses ramos haveria de ouvir o resto das histórias. Árvores dessas tem muitas coisas para nos contar.
É só sentar-se bem junto do seu tronco e deixar o sonho navegar por entre os ramos.
Saudades

Duarte disse...

Quanto mais seco mais verde... claro: à sombra e com humidade mais verde... escuro.

Um texto rico em matizes que me fez passar um bom momento na reflexão. Bom, mesmo bom. Assim como as fotografias...

Abrazos

alegria de viver disse...

Olá querida
Belo passeio, com direito a aventuras. Histórias para contar de uma mente fertil, e um coração bondoso.

Obrigada pela visita.
Com muito carinho BJS.

manuela baptista disse...

Luís

que esta voz que invento,
não seja apenas a minha

mas que cada um de vós
se sinta perto da sua árvore!

um abraço

Manuela

manuela baptista disse...

Duarte

estas fotografias não foram tiradas por mim.

Eu ainda ando às voltas com as rosas do quintal...

obrigada pelas palavras

um abraço

Manuela

manuela baptista disse...

Rufina

obrigada e beijinhos

Manuela

*Lisa_B* disse...

Linda Manuela,

olá:-)
Cá estamos a ler mais um belíssimo texto entre o sorriso e sonho...

A minha mãe já chegou:-) andamos a repor tudo em ordem e a vida do Bruno a normalizar como estava antes. Foi um grande stress estes dias intensivos de afazeres.
O meu tio continua internado nos cuidados intensivos e os exames de diagnostico etc continuam...acho que o apanharam lá como cobaia.
Voltaremos ao convívio em breve...até lá ficam beijinhos e abracinhos para a Manuela e Jaime e com permissão para : Linda, Dulce, Branca,Graça, Paulo,José,Canduxa e para todos os amigos que cá passam.
Com o nosso carinho e até jazinho!

Canduxa disse...

Quando partimos sem expectativas, de coração aberto e prontos a admirar a beleza que a natureza nos oferece, perdemo-nos sempre.
E, nesses caminhos que percorremos sem saber onde nos conduzem vivemos histórias maravilhosas tal como esta que aqui nos conta.
Continue a perder-se Manuela,
procure saber o que ainda deseja saber e partilhe connosco.

A fotografia de Fernando Pedrosa está fabulosa….o milagre do verde !

Um grande beijinho

Graça Pereira disse...

Manela
Tambem gosto de me perder...para me encontrar... e as velhas árvores sabem tanto, contam histórias antigas de quando elas era meninas e moças... sim, que elas tambem já foram jovens e tiveram sonhos...cantávamos canções...agora, nem tanto! Ficamos caladas, eu,deixando a gratidão e elas com um adeus nos olhos...
Beijo amigo
Graça

manuela baptista disse...

Lisa B

e o até jázinho que venha depressa, com saúde pelo meio e com a presença da mãe e avó, que fazem sempre tanta falta!

e Bruno

já viste a concertina que está aqui mais abaixo (dia 20)?

Esta é do Jaime, não sei se é parecida com a tua...

beijos e a.m.

Manuela

manuela baptista disse...

Canduxa

é, as fotos são mesmo muito bonitas! Perdemo-nos nelas...

beijinhos

Manuela

manuela baptista disse...

Graça Pereira

os carvalhos podem ter mais de 500 anos e 20 metros de altura!

Imagina que deixavam de cantar com a tua idade...nem pensar!
é só imitá-los.

beijos

Manuela

casos e acasos da vida disse...

Olá Manuela,
Os seus textos fazem-me divagar e perco-me neles até concluir a leitura. São sempre divagações de sonho e encantamento.
E porque gosto muito de música, ouvi e gostei, não conhecia. Interessante a dança e o cenário, que continuou o sonho.
Qual é o seu planeta? Ou será um asteróide? não é o B612?
Beijinhos.

Dulce AC disse...

Sim...também eu Lhe pergunto Manuela...qual é o seu planeta..?!

"Não espero nada e aquilo que possa encontrar cabe inteiro nas minhas mãos, nos meus bolsos e nos meus ouvidos"

Maravilhoso. Inteiro. Absoluto. Completamente implicado num sentir de tantos dias...
E que Bom que é sentirmo-nos perder nestes caminhos em muitos dos nossos dias...

Uma história que já guardei cá dentro, por também a sentir um pouco minha em tantos dos dias em que me perco...e sei ser sempre bom pelo que trago...

Muitos beijinhos de malmequeres amarelos e de papoilas ao vento.

. intemporal . disse...

.

. um precioso texto entre.murmúrios .

. onde o caminho é amparado pelas margens do meio.termo .

.

. o equilíbrio,,, entre a proa e a ré .

.

. promotor da igual.dade .

.

. levito . e repito,,, bel.íssimo, manuela .

.

. um beijo total .

.

. entre.musgos de agora .

.

. paulo .

.

Graça Pires disse...

Há caminhos que valem a nossa perdição. A natureza é prodigiosa e a nossa sensibilidade adere-lhe com a força dos abraços.
"Tantas vezes me perdi dentro de mim. Tantas vezes me encontrei sem me esperar"...
Um beijo e obrigada por este texto maravilhoso.

manuela baptista disse...

Marisa

...ou realidade!

por aqui é mais o asteróide
B 612

não encontrou a raposa à porta?

beijinhos

Manuela

manuela baptista disse...

Dulce

apenas o meu planeta

tem essas belas plantas verdes em fundo seco!

Está a ver que também recoleta tesouros, quando se perde?!

beijinhos

Manuela

manuela baptista disse...

Paulo

quando aqui entra

o que eu sinto é um desiquilíbrio entre a proa e a ré

ligeiro, tão ligeiro
como os murmúrios do tempo

e que dá impulso ao barco
e ao musgo
e às margens do pensamento!

são bonitas as suas palavras!

um beijo total

Manuela

manuela baptista disse...

Graça Pires

"perdi-me dentro de mim
porque eu era labirinto" (Mário de Sá Carneiro)

beijos

Manuela

Dulce AC disse...

Ups...!!
Olá de novo Manuela...

faltaram-me palavras nos tantos beijinhos que queria chegassem à Lisa e ao Bruno, à Linda e ao José, ao Jaime e ao padre Nuno Miguel e, a Si, um abracinho grande de tanto ter gostado da música e das fotos..!

dulce

manuela baptista disse...

Dulce

tantooooooooooooooooooos

beijinhos!!

Manuela

O Rasteirinho disse...

A senhora Manuela diz que resulta
Atapetar o rosto com pó de arroz
A mim parece-me da Face Oculta
Como tantos outros que Deus no mundo pôs

E assim airosa vai para a rua
Com o seu carrapito esbelto todo arqueado
Leva um vestido leve como uma falua
E assim sai para todo o lado

Venho desejar um bom fim de semana
Eu que sou todo verde e bem bonito
E também sou muito bacana
E ao dizer é porque está dito

Um beijinho de quem? de quem?

D`O Rasteirinho, pois claro.

manuela baptista disse...

Croc

da face desoculta, sim!

Quer dizer, assim assim, pois escondo-me atrás de um lápis e de uma mão, mas ninguém é perfeito, pois não?

bom fim de semana para ti Rasteirinho

verde
bonito
e bacana!

uma festinha

Manuela