QUIETUDE

-Já reparaste -disse o peixe -Estás aí há mais de uma hora e ainda não te mexeste. Julgas que apanhas alguma coisa com essa fina corda, onde nem um isco te deste ao trabalho de pôr?!
O homem pestanejou ligeiramente e olhou o peixe. Era pequeno, encarniçado e ágil. As barbatanas agitavam-se e a sua silhueta desenhava na água pequenos círculos, enquanto as bolhas de ar libertado pareciam pérolas na superfície espelhada. Belo e frágil, pensou.
-Não entendes a língua dos peixes? -insistiu -Muito gostaria eu de saber, o que encontras tu, homem, de tão interessante aqui à beira deste lago quieto, parado...
O homem sorriu e respondeu:
-Não encontro, procuro.
-Brincas comigo! Então, quem procura não encontra? -resmungou o peixe.
-Não necessariamente...e o meu objectivo não é apanhar peixes ou outra coisa qualquer, a corda é uma ligação ao lago, do lago ao rio e do rio ao mar e do mar ao céu e outra vez à terra.
Quando tudo está calmo, a corda flutua suavemente. Quando o vento sopra e as águas se agitam, a corda balança e eu sinto a inquietação dos seres dos oceanos e dos pássaros da terra e quando a tempestade estala, a corda puxa-me e eu enfrento a vertigem da queda e a tentação de mergulhar. É simples! - concluiu o homem.
-É simples para mim que sou peixe. Tu sendo um homem, deverias seguir o caminho dos outros homens, atarefares-te diariamente entre a casa e o trabalho, enfrentares as filas de trânsito, os sinais proibidos, as hipotecas da casa, o burburinho dos centros comerciais, as depressões...Deverias ser feliz com tudo isso que não tens...
O peixe e o homem calaram-se. O primeiro, assombrado com aquele homem que trocava ambições por ligações e que procurava, sem cuidar de encontrar. O segundo, agradecido por ter encontrado um peixe que sabia ouvir os homens.
E todos as tardes o peixe mordiscava a ponta da fina corda e os dois conversavam até deixarem de ver o lago, a corda, o rio e o mar.


-
Esta é uma página, onde se sussurra que depois da inquietação vem a quietude.
-
Manuela Baptista
Estoril, 4 de Novembro 2009

43 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MORDISCAR


Mordisco-te a corda que vai da quietude interior à inquietude que a todos nos sobressalta como pedrinha que se afunda no lago e sinto em ti as ondas da vibração universal em que nos espelhamos

Quando quase que adormeces mordisco-te outra vez para senti-la de novo e saber que estamos vivos

E mordisco-te outra e outra vez


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Novembro de 2009

manuela baptista disse...

Ao Jaime

quando se veste a pele de um peixe

sendo e não sendo

com vibração universal (mas que Zen!)

e muito espelho
é o que dá!

Se alguém quizer saber o que isto é, não faço a mínima ideia...

Manuela Baptista

Miriam * disse...

Quietudo na inquietaçºao ...

voltarei ...bjinho e se gostar de meu blog se torne meu seguidor..

Miriam*

O Profeta disse...

Frias pedras, negro basalto
Sentinelas do receio à tempestade
Testemunhas da viajem do tempo
Cobertas de sal, guardiãs da verdade

Mas, não há duas reais verdades
Não há rios que correm para o alto
Não há amor num coração que mente
Não há ternura sem viver o momento


Vem viver a minha cidade inventada


Doce beijo

manuela baptista disse...

Miriam

Obrigada por ter passado por aqui e felicidades para si e para o seu blog.

Um abraço

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

O Profeta

irrompe como uma seta
arrojado
impetuoso

viajando pelo tempo
em cidades inventadas

um abraço

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

À Lírica e à Gisele

que andaram por aqui e por ali a ler histórias

um abraço

Manuela Baptista

Brancamar disse...

Esta é uma página com muitos sussurros...
Poder-se-ia dizer que neste caso em vez de estarmos perante "O Sermão de Santo António aos Peixes" estamos perante um sermão de um peixe a um qualquer António, que procura... e que é tão diferente dos outros a quem Santo António se dirigia, os tais que trocavam as ligações pelas ambições!
Digamos que aqui num discurso ao contrário o objectivo e a conclusão é a mesma do Padre António Vieira, tantos anos depois.
Porque será que o Homem pouco muda?
Mas, enquanto houverem homens que procuram... e sonham, acredito que com eles toda a quietude é possível.

Beijinhos Manuela

Isabel Venâncio disse...

http://www.youtube.com/watch?v=olAOazHmn7I

Olá

Acho que fiz uma asneira, algures entre o seu e o meu blogue.
Pus-me com invenções para colocar o Zé Mário Branco a cantar aquela belíssima canção "Inquietação" e não sei o que deu...
Será que aparece por cima deste texto.
Ou aparece no meu blogue??
Logo veremos.
Um abraço
Isabel

manuela baptista disse...

Brancamar

sussurrando digo-lhe

que na sua essência, o homem corajoso muda, aquilo que tem de mudar.

Entretanto os peixes ultrapassam-nos e desatam a falar!

Ups! Agora só me saem versos...

Um beijo

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Isabel

entre-blogs o José Mário Branco desinquietou-a!

Estive quase, quase para pôr essa canção que conheço bem e é muito bonita, mas optei pela dança, que nos pergunta: "Quem passa por esta estrada?"

Esta história (?) dos links para mim também é uma confusão, por isso coloco o endereço.

Aqui é só copiar o endereço e colá-lo e a Inquietação do Zé aparece!

Obrigada Isabel por ter passado por esta estrada

e um grande abraço

Manuela Baptista

Cris Tarcia disse...

Ola!

Passei para deixar um abraço e uma linda noite

Canduxa disse...

Esta história do peixe bem que poderia ser real…tão real como uma que me contou um amigo, já lá vão alguns anos.
Dizia ele que sempre que ia pescar, o peixe depois de morder o anzol começava a falar….
e, eu sorria sempre quando ele afirmava que mal ouvia a sua voz retirava o anzol ,com cuidado, e devolvia o peixe ao mar... e assim se mantinha esta ligação afectiva entre os dois.
Parece-me que a necessidade de ouvir uma voz no silêncio, doce, credível e tranquilizante levava este meu amigo a falar com o seu amigo peixe. Eram ligações de alma que o tranquilizavam quando ia à procura de alguém que o escutasse em silêncio... afirmava que nunca mais conseguiu pescar um peixe desde que ouviu a sua voz.

Eu acreditava cegamente nesta história....sabia que a voz que ele escutava era a sua própria voz, aquela que morava bem dentro de si.
Tal como o peixe, queria ser livre e poder mergulhar sem medos no mundo em que vivia.

Obrigado Manuela, por este momento mágico... a sua criatividade é maravilhosa!

O meu abraço de sempre, com muita luz

Silvana Nunes .'. disse...

Navegando sem ruma com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes. No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura e enauqnto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam.
Se gostar da minha proposta, siga-me.
Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
Saudações Florestais !

Dulce AC disse...

O homem que encontrou um peixe que O ouvia. E este peixe que encontrou este homem, que o entendia.
E começaram a conversar...
E todos os dias se encontravam para conversarem.
E o fim de qualquer conversa, seria sempre o ponto de partida para uma outra.
Este homem e este peixe encontrar-se-ão sempre, naquele lago. Ou noutro.

Há ligações na vida que uma vez estabelecidas, qualquer que seja a sua natureza, sê-lo-ão para sempre.

Muito bonita esta história Manuela,
desculpe-me, por precisamente querer ler mais histórias com o mar ao fundo... escritas por Si. Com conversas, ou sem elas.
Mas sempre com afectos e com muita ternura. Histórias que nos encantam, como esta.
E nos fazem reflectir a vida.

Beijinhos,
Dulce.

. intemporal . disse...

. das ambições à preferência das ligações .

. da quietude .

. após .

. bel.íssimo, Manuela .

. o seu registo é-me o texto sobre o colo, o corpo sentado no sofá, o crepitar da lenha que arde, enquanto percorro a tarde .

. um beijo, nosso .

. paulo .

manuela baptista disse...

à Cris Tarcia

retribuo o abraço, este meu, dado ao entardecer

Manuela Baptista

Filomena disse...

O homem que não conseguia ser feliz com as banalidades e um peixe filósofo... tudo é possível quando a Manuela escreve


Um beijinho

manuela baptista disse...

Canduxa

sábio amigo o seu!

Eu gosto muito de pescadores que deixam a cana em casa e de caçadores que não sabem disparar.

Obrigada pelas palavras, Canduxa

e um grande abraço

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Silvana Nunes

fique, se gostar

não se preocupe em cansar os olhos, é bem melhor poder ver o azul do céu e a cor da terra do que olhar para blogs!

Quanto às saudações florestais, não percebi, mas como gosto de árvores...

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Dulce, Paulo e Filomena

vocês para mim são especiais!

Não se vão embora que eu volto já...

MB

manuela baptista disse...

Voltei

apesar de todas as tecnologias, o jantar é coisa que não aparece feito! E só fui lá dentro partir um ovo e ligar o botão do forno...

Tenho de confessar, que às vezes me cansa responder aos comentários um por um.

Não, que as pessoas não mereçam toda a minha consideração e amizade mas parece-me que estou aqui a falar sozinha e eu gosto de conversar

e

meti

a Dulce
o Paulo
e a Filomena

aos três no mesmo saco!

Mas o saco é lindo, bordado a sete cores e com folhas de lúcia-lima para bem cheirar.

E rio-me

porque eu acho que os três são tão diferentes e cada um por si, tão bonitos!

E nunca os vi!

à Filomena

conheço-lhe a voz e as fotos e gosto de tagarelar com ela ao telefone e se ela falta à chamada penso que está triste ou doente.

o Paulo

conheço-lhe as palavras e aperçebo-lhe as inquietações.
Se não aparece, fico triste.

a Dulce

chegou à pouco
e gosta de pensar
e é bom pensar com ela

aos três diferentes e únicos envio um beijo

porque tiveram a sorte ou o azar, de eu ter de fazer o jantar!

Manuela Baptista

A todos os outros

não se zanguem comigo porque já sabem que gosto de contar histórias...

Graça Pereira disse...

Manela:
Uma das histórias mais bonitas que já escreveste...
"Não encontro...procuro". Quantos saberão procurar?
"A corda é uma ligação..." Quantos esqueceram as ligações?
"O homem que trocava ambições por ligações"..Quantos abandonam as suas ambições por afectos?
"Que procurava sem cuidar de encontrar"....
Como tu...procuraste por mim no meu blog..
Hoje, olho o céu e procuro uma estrela para lhe dar os parabens...
Um beijo muito amigo
Graça

Filomena disse...

Manuela,

Agradeço-lhe os cuidados, mas é principalmente o trabalho em demasia que me põe fora destas lides.
Ainda não recuperei as aulas daquelas três semanas. Está a ser um pouco difícil


Beijinhos e um bom fim-de-semana

Dulce AC disse...

Manuela,olá. Bom dia!
Obrigada pelas Suas palavras.
Estou há pouco tempo aqui e já gosto tanto!
É reciproco, sem dúvida que o é.

Beijinhos grandes
e, claro, desejo-lhe um bom descanso neste fim de semana que se aproxima,
Dulce

J. Ferreira disse...

Manuela,
Mais um conto.
Li, e tal como os precedentes, gostei.

Concordo com a chatice, quase imperativa que é ter de de responder, por esta via, a todos os diferentes comentários que se vão produzindo.

Torna-se, por vezes uma rotina compulsiva, obrigatória em termos de reciprocidade afectiva.

Quanto aos seus contos, se me permite a sugestão,(caso ainda não o tenha feito) acho que os deve ir compilando, por exemplo num ficheiro Word, para mais tarde editar em livro, ou, quem sabe, recordar, contando-os de viva voz.

Finalmente, não se sinta obrigada a responder.

Eu também agradeço.
Bom fim-de-semana,


ps. Consta que o Coppola e o Cronemberg vão andar por aí no Estoril!

manuela baptista disse...

Graça

este blog sem ti
não tem Graça!

Ontem o céu estava nublado, mas de repente, a Lua conseguiu furar aquele bloqueio espesso e deixou-se contemplar.
Como não havia estrelas,foi ela que me deu o teu recado...

Um beijinho

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Ó Filomena eu sei!

Recupere pois, porque os meninos valem a pena.

Beijinhos

Manuela Baptista

...mas, gostou de estar no saco???

manuela baptista disse...

Olá, Dulce!

bom fim de semana para si também!

Beijinhos

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Zé Ferreira

Agradeço as suas palavras!

Ao contrário do Jaime, que escreve directamente no blog, eu tenho a mania de escrever primeiro no Word.
Gosto de imprimir os textos e de os ilustrar com desenhos meus.

Gosto de lápis pastel, de óleo, aguarela. Também tenho tintas a óleo, mas o cheirete dos diluentes faz-me espirrar.
Não tenho técnicas nenhumas é tudo espontâneo, logo bastante naïf.

Agora tenho andado dispersa com isto do blog, mas adoro sentar-me e desenhar.
Ainda não temos uma máquina fotográfica digital porque eu tiro fotografias e depois inspiro-me...
Já andei pelo seu blog das artes.

Hoje é noite de Juliete Binoche!
Já consultei o programa e quero ver alguns filmes, mas sabe o que é chato neste festivais?
É serem festivais! Há muita conversa, muito salamaleque, muita palma...

Bom fim de semana e um abraço

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Edson Carmo

e

Vieira Calado

agradeço a vossa presença!

Manuela Baptista

Graça Pereira disse...

Manela:
Fui á procura de estrelas... que não haviam! Mas o céu, entendeu-me e a lua fêz uma janela para receber o meu recado,na mesma altura em que te deu outro a ti.. Sintonias??
Acendi a lareira e adoro a dança do fogo... Acreditas que me sinto menos só?? Queres uma chávena de chá? Maçã com canela e tem um perfume delicioso.
Um beijo e uma noite quentinha.
Graça

Linda Simões disse...

...Estão com saudade de mim?


Olha que já estou terminando minha arrumação e venho aqui!

rsrs


Beijinhos aos dois e bom final de semana!


Linda Simões

Jaime Latino Ferreira disse...

LINDA SIMÕES


Querida,

Se estamos com saudades Suas?

Mas isso é pergunta que se faça!?

Vá, arrume lá os Seus tarecos e venha daí com as Suas sempre agradáveis observações!

Oh Linda que escreve de Olinda
o que escreves é bem vinda
alegria que não finda

Beijinhos repenicadinhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Novembro de 2009

manuela baptista disse...

Claro que estamos com saudades suas Linda,

o resto é provocação!

um beijo

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Graça

Bom domingo

Beijinhos

Manuela Baptista

Linda Simões disse...

..."Quando tudo está calmo, a corda flutua suavemente"...



É bem assim...


Já estou aqui,lendo,gostando e querendo mais!

Beijocas de Olinda até aí,com muito carinho,aos dois.

Graça Pires disse...

A sabedoria de um peixe.Um homem a procurar o sossego onde ele realmente existe. Um belo texto.
Um beijo.

manuela baptista disse...

Graça Pires

obrigada!

Um beijo para si também

Manuela Baptista

Graça Pereira disse...

Manela:
Parece-me que é a primeira vez que te digo: Bom- dia! Apesar de um cinzento amarelado (mas não chove...)pode e deve ser realmente um Bom dia! Guardei a caminhada e o cafézinho para depois de almoço...
Ontem, fui a uma grande superfície comercial e...lembrei-me de ti!
Metade do espaço... recebia um Natal antecipadissimo. Mas a verdade é que era o sector onde as pessoas se aglomeravam e saíam com carrinhos superlotados...Fui espreitar e é na realidade um mundo de magia a que os adultos não ficam indiferentes. E espanto dos espantos, a preços muito acessíveis!!! Tomei apontamento de algumas coisas e no final deste mês irei vasculhar se ainda estão por lá...Na minha casa, a tradição ainda é o que era! Começo a decorar a minha casa no dia 1 de Dezembro e, lentamente, vou saboreando o espírito do Natal.
Logo a seguir aos Reis...tiro tudo.
Só somos os dois, como sabes mas faço tudo como quando estávamos todos juntos.
Um beijo amigo...por me aturares.
Graçaquelimane

Fabiana disse...

Gosto muito de ler vc, moça!
Saudade.
grande beijo, com muito carinho!

manuela baptista disse...

Graça

como já não apanhei o teu dia, resta-me desjar boa noite!

Nós cá em casa também decoramos tudo a preceito, mas com umas pinceladas de loucura.

A árvore de Natal tanto pode ser feita de uma velha dobadora, como com galhos secos.

O menino Jesus é obrigado a equilibrar-se sobre uma manjedoura futurista, mas as figurinhas são antigas e patéticas.

Nestas festas é mesmo bom o tempo antes.

Gosto de ir à missa do galo, mas nos últimos anos não temos conseguido. Os mais velhos adormecem e os mais novos também...

Beijinhos

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Bia

que saudades!

E o trabalho já terminou?

Beijinhos

Manuela Baptista