coração de inseto







Do sol, da lua-cheia, do vento suão. 
Dos grilos, da terra regada, do mel, da noite estrelada. 


























Das ameixas maduras, das uvas, dos gafanhotos em saltos de emboscada.














Dos besouros no vidro da janela. 
Dos figos lampos, das crianças escondidas no fresco da casa. 






Dos vestidos azuis, das saias rodadas. 
Dos mergulhos na imensidão. Não é curto o verão.







à sombra








Escrevo-te duas linhas apenas, entre um livro e o feijão de debulhar. Sentávamo-nos no chão sobre uma manta às riscas e jogávamos à bisca e ao loto. As apostas eram feitas a feijão manteiga, catarino e encarnado, porque é feio apostar. Aposto que chego primeiro, aposto que te dou uma amona, aposto que vais cair, aposto que vamos ganhar. Inocente e amistoso este tempo de julho. O gelo a derreter nos copos de limonada e os cubos de melancia na taça de barro e os dedos a escorrer o vermelho vivo do sumo. O mundo parava e nem os pés cresciam nas sandálias. Basta uma linha, duas são demais.




magnólia vulcano






olhos grandes, cabelo verde








Era uma vez um homem que possuía um campo por cultivar. Todos os anos pelo solstício de verão o homem dizia, vou mondar esta terra, cavá-la, semeá-la de cenouras, nabos, rabanetes e salsa. Plantar batatas, pimentos e tomates e em toda a sua quadratura, crescerão as begónias, as calêndulas, as gipsófilas e os goivos. Já será tarde para o feijão-verde e para a apanha das cerejas e das nêsperas, o que nem vem ao caso, porque não possuo cerejeiras ou nespereiras.
E o homem contemplava aquele campo e achava-o belo, coberto de papoilas, entregue ao vento quente e ao silêncio e adiava a decisão. 
Um dia levantou-se cedo, bebeu uma caneca de café forte, comeu duas fatias de pão de centeio com queijo de cabra, vestiu umas calças velhas, uma camisola branca e calçou as botas caneleiras. Pegou numa enxada e saiu.
O cão seguiu-o a abanar a cauda, corria cinco metros, voltava para trás dois metros e assim caminharam o homem e o cão até ao terreno que tinham por cultivar. Aí chegados, o homem pousou a enxada, sentou-se numa pedra e lentamente, enrolou um cigarro, afagou a cabeça do cão e disse-lhe, vamos esperar um pouco, meu cão. Ouviu o rio ali em baixo, a cascata que formava uma pequena lagoa e o calor a apertar. As amoras silvestres cresciam ao deus-dará e como umas vezes deus dá e outras tira, o homem mergulhou na lagoa, nadou, brincou com o cão e comeu amoras até se saciar. Depois apanhou braçadas de papoilas e começou a trabalhar. Nesse dia e nos que se seguiram, mondou, cavou, semeou, plantou. As papoilas murcharam-lhe nas jarras e o rio continuou a correr.
O campo por cultivar era agora uma folha verde alface com umas pinceladas de beringela e amores-perfeitos a enquadrar. A colheita não foi abundante e o homem já se perguntava se teria valido a pena alterar o ciclo de vida das papoilas e obrigar o vento a voltear entre os carreiros e as levadas.
E sem que o homem esperasse, desejasse ou sequer imaginasse, elas quebraram o silêncio e cantaram.









variações








Um dia a minha avó disse, não vejo o mar da minha janela. A mimosa crescia a cada primavera e nós gostávamos daquelas flores amarelas que nos faziam espirrar. A avó dizia, santinha. Para que o nosso espírito não nos saísse pela boca e nos livrasse de todo o mal, amém. Era muito simples a minha avó. Havia o bem e o mal e os chocolates na primeira gaveta da mesinha de cabeceira. Mesinha, dizem os mouros. Banquinha, os nortenhos. Depois havia a mesa da cozinha, grande, de pedra mármore para fazer rebolar a massa dos rissóis e a tenra, que a fritar abria e se abrisse, era porque estava boa e soltava um pouco de recheio para o óleo quente. No canto oposto ao estender das massas, abríamos os cadernos de duas linhas e fazíamos as cópias e os ditados e o jogo da Glória, uma espécie de espirro glorificado. Até ao dia em que a avó disse não ver o mar da sua janela. Construímos-lhe então um pavilhão de ripas de madeira cruzadas, com teto, uma porta e uma janela. A hera cresceu e na sombra formada surgiu o mar que se via tão bem daquela janela.
Caramanchão é um lugar esquisso coberto de hera, dois ou três vasos de malmequeres silvestres onde dorme o gato no morno da terra.