Era uma vez um homem que possuía um campo por cultivar.
Todos os anos pelo solstício de verão o homem dizia, vou mondar esta terra,
cavá-la, semeá-la de cenouras, nabos, rabanetes e salsa. Plantar batatas,
pimentos e tomates e em toda a sua quadratura, crescerão as begónias, as
calêndulas, as gipsófilas e os goivos. Já será tarde para o feijão-verde e para
a apanha das cerejas e das nêsperas, o que nem vem ao caso, porque não possuo
cerejeiras ou nespereiras.
E o homem contemplava aquele campo e achava-o belo,
coberto de papoilas, entregue ao vento quente e ao silêncio e adiava a
decisão.
Um dia levantou-se cedo, bebeu uma caneca de café
forte, comeu duas fatias de pão de centeio com queijo de cabra, vestiu umas
calças velhas, uma camisola branca e calçou as botas caneleiras. Pegou numa
enxada e saiu.
O cão seguiu-o a abanar a cauda, corria cinco metros,
voltava para trás dois metros e assim caminharam o homem e o cão até ao terreno
que tinham por cultivar. Aí chegados, o homem pousou a enxada, sentou-se numa
pedra e lentamente, enrolou um cigarro, afagou a cabeça do cão e disse-lhe,
vamos esperar um pouco, meu cão. Ouviu o rio ali em baixo, a cascata que
formava uma pequena lagoa e o calor a apertar. As amoras silvestres cresciam ao
deus-dará e como umas vezes deus dá e outras tira, o homem mergulhou na lagoa,
nadou, brincou com o cão e comeu amoras até se saciar. Depois apanhou braçadas
de papoilas e começou a trabalhar. Nesse dia e nos que se seguiram, mondou,
cavou, semeou, plantou. As papoilas murcharam-lhe nas jarras e o rio continuou
a correr.
O campo por cultivar era agora uma folha verde alface
com umas pinceladas de beringela e amores-perfeitos a enquadrar. A colheita não
foi abundante e o homem já se perguntava se teria valido a pena alterar o ciclo
de vida das papoilas e obrigar o vento a voltear entre os carreiros e as
levadas.
E sem que o homem esperasse, desejasse ou sequer
imaginasse, elas quebraram o silêncio e cantaram.