Quando abril chegou já ele tinha atingido trinta e cinco
centímetros de comprimento e um peso razoável para a sua espécie. Vivia numa
comunidade fechada, avessa a mudanças, em que os comportamentos esperados eram
procriar, escavar tocas labirínticas, fugir dos predadores durante o dia e
procurar alimento quando o sol se escondia. Congratulavam-se com o crescimento
das ervas, no entanto se estas escasseavam, contentavam-se com grãos de centeio
ou aveia e tornavam a procriar, a escavar e a ziguezaguear pelos campos.
Por esta altura o coelho chamava-se apenas coelho e era o
quinto filho da vigésima ninhada de um casal de coelhos exatamente iguais a
todos os outros coelhos e assim passou despercebido até começar a chegar cedo a
casa. Os pais e os irmãos regressavam noite escura e ele, pelas nove da manhã. Deixava-se
ficar para trás, atravessava as matas, descobria quintais e hortas onde
cresciam as cenouras e os rabanetes e foi numa destas incursões que conheceu o
ouriço. O coelho caminhava aos saltos e o ouriço, que tinha acabado de hibernar,
sentindo-se ameaçado, enrolou-se. O coelho cheirou-o, empurrou-o com o focinho,
o ouriço soltou seis mil espinhos aguçados e o coelho riu-se. O ouriço percebeu
que o coelho era apenas curioso e continuou a sua busca de bagas de framboesa.
O coelho seguiu-o e foi deste modo que chegaram à beira da estrada. Àquela hora
noturna o movimento de veículos era diminuto, mas as luzes ao longe, o rio, as
casas, as pontes, foram de tal forma impressivas que o coelho piscou os olhos e
abriu a boca de espanto. Foi este o primeiro dos dias em que chegou cedo a
casa.
Entre as aves de rapina e os mamíferos carnívoros,
circulava a informação sobre um coelho temerário que, ao não se confinar às trevas,
expunha-se a garras, dentes e bicos e entre os coelhos mais velhos crescia a
estranheza de alguém desigual no seu seio.
Um dia disse, pai, vou atravessar a estrada. O pai coelho
não se lembrava de ter dado a paternidade a semelhante ser, mas enfim, eram
tantos e tão iguais que ele replicou contrariado, não podes, se atravessares a
estrada deixas de ser coelho. E isso é mau, perguntou o coelho. É o que é,
respondeu o pai irritado, porque de facto ignorava a existência das estradas e
do que havia para lá delas. E acrescentou, vê se procrias, escavas as nossas
tocas, escapas aos predadores, engordas e saltas.
E todas as noites o coelho e o ouriço encontravam-se ao crepúsculo,
descobriam caminhos e invariavelmente atingiam a beira da estrada. O coelho imaginava
o mundo do outro lado e não lhe interessava que as luzes fossem enganadoras e
os rios molhados e as pontes quebradiças, mas excitava-o aquele anseio de
alargar o salto e atravessar.
Faz-te forte, disse o ouriço. Enrola-te como eu,
concentra-te, fecha os olhos, ouve o teu coração bater, depois solta-te e ziguezagueia
o vento.
E o ouriço, tímido e crepuscular, ficou e o coelho atravessou.
Nessa manhã de abril o ouriço deu-lhe um nome e com os espinhos aguçados
escreveu-o seis mil vezes sobre a rocha.