iridáceas








Abandonavam o sono tão cedo nesse dia. A remoer a madrugada, a abrir as janelas, a sacudir o pó das almofadas, a lavar cortinas, a encher de flores as jarras, as prímulas, os jacintos, os junquilhos, os narcisos e as túlipas. E as toalhas de mesa, sem um vinco de ferro, é tão feio o vinco e o ferro e tão linda a mesa, porque há sempre mais um lugar à mesa. Possuíam duas crenças, firmes, sólidas. A chegada das andorinhas e das amêndoas torradas. Nunca as desiludiram, as aves e o amargo-doce da torra e do açúcar.
Depois acordavam entre si, duas andorinhas dos beirais, as primeiras avistadas, para uma, a plantação de bolbos para a outra. As amêndoas, embrulhadas em cartuchos azuis e rosa escondiam-nas nos vasos do terraço e nos canteiros do jardim, por causa do coelho, invisível, mas presente. Eu diria serena, esta repartição de dons, sem bulhas e gritos pelos corredores da casa.
Era assim o meu olhar primeiro, inocente e ázimo. 






















litania para despertar o urso









Ainda não o grito das andorinhas. Ainda assim cantam os pássaros na madrugada. Por ora os jarros invasores e as azedas dos campos, as flores de pessegueiro, os rebentos das ameixoeiras e o cheiro a húmus e a terra molhada.
Sonha o urso e o seu coração pulsa a vaguear superfícies geladas. A compassar binários, a imaginar ursas maiores, enroscados um urso, dois ursos e o firmamento azul tão escuro.
Dizem os mitos que é o homem do gelo quando sai à caça e veste essa outra pele quente assente nas patas traseiras, mas dorme ainda o urso e assim cantam os pássaros.












sete pedras no bolso









Firme como uma rocha, para dizer das coisas sólidas, fiáveis, que permanecem ao nosso lado e no entanto não fica pedra sobre pedra se a terra tremer e magoa-nos o pé se caminharmos com uma pedra no sapato.
As avós aconselhavam pedra-pomes nos cotovelos e no dedo médio para amaciar, não fossem os calos aparecer de tantas cópias que fazíamos sobre a mesa de pedra da cozinha. E elas a afiarem as facas na pedra de amolar, antiga, gasta e aprendíamos a arte das facas afiadas na pele das batatas e na nossa pele também.
Lá fora a chuva de granizo que era de pedra e nós às mãos cheias a sentir o gelo e uma flor mais frágil a crescer no meio do branco e as violetas nos muros de pedra solta. Os putos da rua a brincar com as fisgas e um fio de sangue na testa, um dia.
Para lançar sobre o mar ou um lago, devem ser achatadas, seis por três centímetros, peso médio. Obtemos assim a conjugação perfeita de um toque na água e um voo, dois toques na água, dois voos e por aí fora, até a pedra desistir de ser ave.
De cada lugar amado trazemos uma pedra, que nos marca e não o contrário e espalhamo-las pela casa, sobre os guardanapos, as tampas das panelas, as contas do gás. A prender a toalha de mesa nos dias de festa, a segurá-la do vento que sempre se levanta nos dias de festa.
Para ser preciosa, compro um casaco de xadrez azul com muitos bolsos e neles guardo as que se formam na fissura de uma rocha, feitas de água, fogo, luz. E a cada hora solto uma, o universo, o fundo do mar, o ocaso, as estalactites de uma gruta, o olho da criação.







Opalas












e ainda Opalas








II - e o seu coração também galopava









Despontaram as morganheiras-das-praias e o feno-das-areias e junto aos muros cobertos de hera, as primeiras frésias de fevereiro. O unicórnio foi ficando uma noite e um dia e a lua cresceu, minguou e desapareceu e ele seguia o homem e o cão pela terra antiga e regressava com eles à casa da torre. O homem tinha colocado os cordões raros num cesto de vime junto à lareira para que o unicórnio os visse, pois acreditava que possuíam uma finalidade, um propósito, por ora ainda desconhecido. E o unicórnio abanava a cabeça para cima e para baixo, mas não dizia nada.
O homem imaginava o unicórnio possuidor do dom da fala, embora não o pudesse demonstrar. Por isso relatava-lhe todos os acontecimentos da aldeia, os passados e os atuais, como aquele cinzento que teimava em cobrir as fachadas, as pedras da calçada e o cabelo das pessoas.
Numa manhã de sol apareceu um rapaz magro no quintal da casa. O homem plantava amores-perfeitos nos canteiros, o cão dormia e o unicórnio volteava por ali a tasquinhar ervas daninhas. O rapaz foi-se aproximando timidamente, estendeu a mão direita, o unicórnio estacou à sua frente, resfolegou, sacudiu as crinas e por fim cheirou-lhe a mão. O rapaz deu uma gargalhada cheio de cócegas, pousou-lhe a mão no focinho, acariciou-o, observou o corno, tocou-lhe com a ponta dos dedos. Tirou do bolso das calças um cubo de açúcar mascavado e o unicórnio trincou-o.
O rapaz conhecia o homem que pintava e imaginava-o possuidor do dom dos prodígios. Fora ele que desenhara nas paredes do seu quarto um cavalo alado e desde então nunca mais tivera pesadelos. O rapaz não gostava da escola, preferia deambular pela praia, apanhar conchas, procurar cavalos-marinhos. Era um rapaz calado que gostava de cavalos e de prodígios e jamais vira um cavalo assim.
Só nos livros, nas estampas e nos sonhos, disse-lhe o homem adivinhando-lhe o pensamento. O rapaz fez que sim com a cabeça e sorriu. O homem entrou em casa, pegou no primeiro dos cordões que o unicórnio trouxera, colocou-o no pescoço do rapaz e pegando nele ao colo, sentou-o no dorso do animal. Galoparam os dois pelas dunas, pela areia da praia e pela aldeia dentro. Nos quintais estremeceram de espanto os pessegueiros em flor.
E todas as manhãs o rapaz aparecia, ajudava o homem, tratava do unicórnio e do cão. Um dia uma rapariga seguiu-o e depois mais duas crianças e ainda uma quinta, até que os cordões se acabaram no cesto de vime e eram muitas as crianças que ao entardecer subiam no dorso do unicórnio e galopavam pela praia e os seus risos semelhantes a um rio a correr. Lentamente os cabelos das pessoas foram ganhando cor e quando alguém acordava com o cabelo verde ou encarnado, isso era uma boa notícia.
O tempo foi passando, o rapaz cresceu e partiu. O cão também. Os cabelos das crianças voltaram a ser castanhos, louros ou pretos e os olhos das pessoas a brilhar, a refletir o sol na calçada. O homem envelhecera, o unicórnio não. No entanto faltava ainda um trabalho que o homem queria realizar. Comprou cem metros de tela branca, esticou-a nas traseiras da casa e começou a pintar uma floresta cerrada, virada a norte, cercada por campos de aveia, cevada e beterraba. Para que o unicórnio nunca passasse fome, para quando o unicórnio quisesse regressar a casa. E deu-a por terminada.
Uma noite em que o homem dormia e sonhava, o unicórnio retirou do seu pescoço o cordão antigo e colocou-o no pescoço do homem dizendo-lhe, esta é a minha casa. Num salto, galopou pelos campos de aveia, cevada e beterraba, embrenhou-se nas densas florestas do norte e o seu coração também galopava.
Esta é a história do homem que imaginava o unicórnio possuidor do dom da fala, embora não o pudesse demonstrar.









o unicórnio

I - na ourela do mar
II - e o seu coração também galopava