Cresce do outro lado do muro, onde habita o senhor Ming e
o seu cão. Passeiam os dois de manhã e à tardinha e assemelham-se, o cão e o
senhor Ming. Têm o mesmo jeito de caminhar, as pernas ligeiramente arqueadas, o
nariz levantado a cheirar o ar. No instante em que chegam ao cruzamento a
simbiose altera-se, o senhor Ming quer continuar em frente, o cão teima em
virar à esquerda. O cão vence sempre. Para dizer a verdade quem se chama Ming é
o cão, mas ignorando o nome do dono, identifico-o pelo nome do cão. Vivem
outros cães na minha rua, chego à fala com eles e apenas mais tarde reconheço os
donos. É uma questão de confiança.
Ao Stern, chamei-lhe Spiegel durante dois anos e ele não
pareceu importar-se. É um cão viajante e regressou com a dona, a senhora Stern.
Despejam o lixo pelas oito da manhã e em seguida o Stern faz o reconhecimento olfativo
dos postes da luz e dos quintais abandonados. Tem uma vida independente e só
regressa a casa quando lhe apetece. Fica ali plantado em frente do portão horas
a fio. Às vezes pergunto-lhe, queres que eu toque à campainha? Ele abana a
cauda, os olhos enormes e vivaços e agradece com um latido ou dois.
Nem todos são simpáticos. No número três há um exemplar
dissimulado. Desço a rua pelo passeio do lado direito, um silêncio de inverno e
de repente, pendurado na vedação a rosnar e a babar-se de raiva, o cão cativo
de quem ninguém parece gostar. Imagino que sejam o senhor Malício e o seu cão.
E os solitários, como o Preto, sem o senhor Preto, caminha devagar, a
desconfiar de afagos.
Também moram por aqui os que já se foram embora e que não
esquecemos e ladram de noite a afastar pesadelos e bichos-do-mato.
E no entanto, eu desejava falar da árvore que cresce do
outro lado do muro. Largou-se de folhas e de ninhos e range com o vento. Como
se quebrasse ao latido de um cão.