a árvore no inverno









Cresce do outro lado do muro, onde habita o senhor Ming e o seu cão. Passeiam os dois de manhã e à tardinha e assemelham-se, o cão e o senhor Ming. Têm o mesmo jeito de caminhar, as pernas ligeiramente arqueadas, o nariz levantado a cheirar o ar. No instante em que chegam ao cruzamento a simbiose altera-se, o senhor Ming quer continuar em frente, o cão teima em virar à esquerda. O cão vence sempre. Para dizer a verdade quem se chama Ming é o cão, mas ignorando o nome do dono, identifico-o pelo nome do cão. Vivem outros cães na minha rua, chego à fala com eles e apenas mais tarde reconheço os donos. É uma questão de confiança.
Ao Stern, chamei-lhe Spiegel durante dois anos e ele não pareceu importar-se. É um cão viajante e regressou com a dona, a senhora Stern. Despejam o lixo pelas oito da manhã e em seguida o Stern faz o reconhecimento olfativo dos postes da luz e dos quintais abandonados. Tem uma vida independente e só regressa a casa quando lhe apetece. Fica ali plantado em frente do portão horas a fio. Às vezes pergunto-lhe, queres que eu toque à campainha? Ele abana a cauda, os olhos enormes e vivaços e agradece com um latido ou dois.
Nem todos são simpáticos. No número três há um exemplar dissimulado. Desço a rua pelo passeio do lado direito, um silêncio de inverno e de repente, pendurado na vedação a rosnar e a babar-se de raiva, o cão cativo de quem ninguém parece gostar. Imagino que sejam o senhor Malício e o seu cão. E os solitários, como o Preto, sem o senhor Preto, caminha devagar, a desconfiar de afagos.
Também moram por aqui os que já se foram embora e que não esquecemos e ladram de noite a afastar pesadelos e bichos-do-mato.
E no entanto, eu desejava falar da árvore que cresce do outro lado do muro. Largou-se de folhas e de ninhos e range com o vento. Como se quebrasse ao latido de um cão. 











apenas aquela pena à beira do caminho







Regresso a casa. Não vás, fica. O meu saco pesa, de um quase nada que contém, dois ou três rebentos de azevinho, uma pétala de rosa, um bom pensamento, um desejo incumprido. Foi mau este ano. Pois foi. Poderá ser sempre pior. Poderá. O inverno ainda mal chegou, a neve não cai, apenas aquela pena à beira do caminho. De um pássaro. Sabe-se lá. Tens uma lanterna. Tenho. Acende-a na montanha mais alta, porque nem sempre se consegue ver a lua. Somos cegos. Muitas vezes. Somos surdos. Outras tantas. Porque me repetes. Para que me ouças. Será melhor. O quê. Onde está o rapaz que chorava promessas na noite fria. Nas esquinas. A vida é mortal. Pois é. Com um punhado de gravetos faz uma fogueira, não tão forte, não tão quente e depois podes ir, com o teu pinheiro, o saco e o casaco, as botas de feltro e a lanterna. Adeus. 







































Feliz Ano de 2016







natividade











Veio uma estrela e rasou a asa de um pássaro. Tão brilhante a estrela, tão leve a asa e o pássaro.
Acreditas em prodígios, perguntou a estrela. A ave regressou ao ninho de folhas, barro e paus e não lhe respondeu. O voo não é uma questão de fé, mas de penas e quilha.
Foi nesse instante que o menino gritou. Ouviram-no ao longe os pastores e chamaram os cães e os rebanhos e da lã macia das ovelhas fizeram-lhe um casaquinho com uma prega nas costas.
Em seguida pegaram nos cajados e puseram-se a caminho. Quando o encontraram, viram que era um menino como os outros, talvez mais franzino e chorão. E para que sorrisse e a mãe dormisse e o pai quebrasse a lenha para a fogueira, cantaram-lhe um canto de embalar.































Feliz Natal!






anunciação








São sete horas e vinte minutos, não tarda o amanhecer. Uma ou duas janelas iluminadas, a rua vazia, os cães calados, sombrias as paredes. A casa da torre é habitada por um ser alado, não sei se é homem, se é ave. Ele esconde as asas quando vai de manhã bem cedo ao pão, gosta de pão quente com manteiga e café forte. Esconde-as, dizia eu, para não ser alvo de troça da rapariga da caixa, que lhe pergunta, como te chamas e ele responde num fio de voz, Gabriel. E acrescenta, serias capaz de sentir o bater do meu coração, rapariga da loja onde eu compro o pão. A rapariga ri-se mas não o ouve, lá fora os carros, os depósitos de gasolina, o ar, o óleo, cá dentro o jornal, o tabaco, a revista, a água engarrafada. Gabriel regressa à casa da torre quando eu desço a escada e aceno-lhe com a mão direita e ele com o saco de papel debaixo do braço e mais um pouco, o cheiro a café forte a subir pela rua vazia de cães.
Gabriel tem um pássaro raro numa gaiola de vime e todos os dias abre-lhe a portinhola e umas vezes o pássaro foge, outras não. Quando sim, eu lanço uma mão cheia de sementes para cima do muro e o pássaro debica-as apressadamente.
Amanhã o sol nascerá um minuto mais tarde e depois dois e três, até ao solstício. Se nevar, se a rapariga da loja ouvir, se o pássaro regressar à gaiola de vime, se a luz brilhar em todas as janelas, se eu cobrir os muros de sementes, Gabriel, sem medo do escárnio, despirá o casaco e soltará as presas asas.