
A loja era no rés-do-chão, a nossa casa no primeiro andar
e o senhor Pires não morava ali. Nas traseiras havia um poço, um baloiço, três
pés de vinha e um canteiro de ervas de cheiro. Todos os dias às oito e trinta
da manhã o senhor Pires chegava, abria as portadas, varria o passeio junto da
entrada e com um pano amarelo de flanela encerava os balcões com cera de
abelha, dava-lhes lustro até que brilhassem. Em seguida alinhava as peças de
tecido, separava os algodões, os linhos e as sedas e cada uma delas, pelas
cores, tons e meios-tons. Passava às caixas de fita de nastro, de gorgorão, aos
botões, às molas, aos colchetes e aos fechos-éclaires. Por fim, o metro de
madeira suspenso por baixo do balcão e a tesoura pendurada no cinto, com os bicos protegidos para
ninguém se cortar. Eu esgueirava-me pelo quintal, rodeava o poço, enrolava e
soltava a corda do baloiço, esborrachava uma folha de hortelã entre o polegar e
o indicador da mão direita e entrava na loja pela porta de trás. Por esta
altura, e na ausência de clientes, o senhor Pires já estaria sentado num banco
castanho com um buraco no tampo, uma caneca de café a fumegar na mão. Eu
inspirava a vida secreta das abelhas, o cheiro dos tecidos, a quietude das
caixas de cartão às riscas, às estrelas, às bolinhas e o odor do café. Sentava-me
numa cadeira baixa e esperava. O senhor Pires, dizia, bom dia. Eu não dizia
nada. Então o que vai ser hoje? Insistia. Eu acomodava os olhos à penumbra da
loja, ao ritmo lento dos fitilhos e do tafetá e finalmente respondia, bom dia
senhor Pires, foi a minha avó que me mandou cá. Não fora, e ambos sabíamos disso
mas fingíamos que não. O senhor Pires pousava a caneca no balcão, levantava-se
e ia buscar uma caixa nova de fios de ouro e prata ou qualquer outra
passamanaria que o faria dizer-me, parece-me o apropriado para a tua avó e
contava-me a história longa daquele fio de fio, como o cabelo fino da minha avó.
Depois fazia um embrulho em papel de seda e registava num livro comprido todos
as fitas e nastros que me vendia fiado e eu ia pagando, consoante o lastro que
largava pelo mês fora em chupas e livros da coleção azul.
Uma manhã chegou o Silvestre. Entrou sorrateiro pela
porta da loja, roçou-se nas pernas do senhor Pires e deu-lhe uma turra na palma
da mão. O senhor Pires não gostava de gatos, mas este era tão tranquilo e
parecia saber exatamente o que estava ali a fazer. A partir desse dia, eu
entrava pela porta das traseiras e o gato pela porta da frente. Eu sentava-me
na cadeira baixa, o gato saltava para o balcão e brincava com os novelos de lã.
O senhor Pires foi-se afeiçoando ao gato e o gato ao homem e quando à tarde fechava
a loja e regressava à casa que não era ali, o gato seguia-o como se fosse um
cão. Pelo Natal deu-lhe o nome de Silvestre e uma tigela para ele comer.
No início do novo ano os livros da coleção azul foram
ficando muito pequenos para mim e nós dissemos adeus ao primeiro andar, ao
gato, ao poço, ao baloiço, ao canteiro de hortelã, aos três pés de vinha. O
senhor Pires, trouxe-o comigo escondido numa caixa de cartão às riscas juntamente com as
fitas de seda e o tafetá. E eu acomodo os olhos à penumbra do tempo e penso que sim, talvez seja aqui a sua casa.