como nós










sem eles, o que haveria para contar?































Kika











Marinho








Bia

























Lóris







Rufus






Coelho




























Silvestre







Francisca




Ernesto







































Leo











o sapo, o rapaz e a andorinha














































Era uma vez um sapo verde. Habitava um lago calmo onde flutuavam nenúfares e o sapo gostava do lago e dos nenúfares e imaginava um mundo calmo, verde, redondo e repleto de nenúfares. Um dia chegou uma andorinha dos beirais e guinchou de alegria e executou seis voos rasantes sobre a água do lago, quase tocou a cabeça do sapo e este pode verificar que ela não era verde, nem redonda, nem calma. O sapo inquietou-se, temeu que a paz do lago se quebrasse, mas era tão veloz e elegante a andorinha que ele se deixou cativar. Os dias quentes de verão foram passando, o sapo a flutuar nas folhas de nenúfar e a andorinha em voos picados sem se preocupar com os beirais.





















Foi então que chegou o rapaz. Vestia umas jardineiras azuis, uma camisola às riscas e caminhava descalço. Sobre o ombro esquerdo, uma cana de pesca, no direito, um saco com isco e no bolso das calças, duas maçãs. O sapo escondeu-se, a andorinha silenciou-se e ambos confirmaram que o rapaz não era verde, nem redondo e assim à primeira impressão, parecia não ter asas. O rapaz sentou-se na beira do lago, os pés na água, preparou a cana e lançou-a. Num primeiro minuto os peixes não picaram. Nos quinze minutos seguintes, também não. O rapaz largou a cana, pegou numa maçã e começou lentamente a comê-la. O sapo foi-se aproximando e à tona de água surgiram cardumes de peixes. O rapaz trincava a maçã e lançava-lhes pequenos pedaços e passou à segunda e assim que terminou, despiu-se e mergulhou, assustando o sapo e a andorinha e fazendo fugir os peixes. Nadou durante muito tempo e ao entardecer pegou no sapo, meteu-o no bolso e regressou a casa. A andorinha seguiu-o, os peixes não. A andorinha construiu o ninho nos beirais da casa do rapaz e o sapo ensinou-o a dar saltos grandes e longos. O rapaz não o ensinou a pescar, porque verdadeiramente nenhum deles tinha necessidade disso.
Depois os dias foram ficando mais curtos e o tempo a arrefecer e a andorinha sobrevoou o rapaz e o sapo de uma forma diferente e eles perceberam que pela natureza das andorinhas tinha chegado a hora dela partir. Para que o sapo não entristecesse, o rapaz colocou à porta de casa um vaso redondo pintado de verde e o sapo regressava ao lago e logo voltava.
Passaram invernos e outros tantos verões e quando as jardineiras do rapaz encurtaram até aos joelhos e ele não mais as conseguiu vestir, despontou uma flor de nenúfar no beiral virado para sul. 











ainda este verão












































Os grilos são agora raros como os pirilampos. Excessivos, o ruído e a luz. Em tudo o mais nada mudou, talvez a hera a romper os muros a força que tem.
Os bancos do jardim, vamos pintá-los de verde como a hera. Fazem-me pena uns bancos assim, sólidos, pesados, perderem um grão de tinta a cada chuva miudinha e ao estalar do sol e a ausência de um livro aberto sobre a madeira gasta. Gastar é qualquer coisa que nos rói a pele e desenha na face os veios do tempo, mas vamos pintar as faces e os bancos ainda este verão.
Sobre o telhado cresceram as ervas do campo e um casal de pombos nidificou na chaminé da cozinha. Arrulham pasmados como sempre arrulharam e será preciso convencê-los a mudar o ninho para o cume das palmeiras mortas pelos escaravelhos. Ou talvez não. É um anseio dos homens e das aves nidificarem abrigados do vento, próximo dos terrenos alagados onde crescem os arrozais, virados para o azul do mar onde abundam os peixes. Por isso vamos subir ao telhado, substituir as telhas, contar os pombos e dar-lhes um nome, replantar as pequenas árvores e tudo isto antes das tempestades do equinócio ainda este verão.
Com galhos e cordel cinzento, preparamos o poleiro dos pássaros vadios e o comedouro das sementes e o alguidar de esmalte a transbordar de água e estou certa que ele vai regressar, o pássaro de muitas cores, e estilhaçar o ar da madrugada com o seu canto. E já que acordarei tão cedo nesse dia, serei eu, uma caneca de café e o último dos morcegos da noite ou o primeiro da antemanhã e a humidade em uma camada fina.
Não quero que me chamem. Tenho ainda de limpar os morangueiros, cortar-lhes os estolhos e certificar-me das marés e das fases da lua. Dar banho ao cão. Não fossem os estolhos e esta camada fina, ainda este verão.











































outra vez marulhar

















Levas-me, barco, uma canção de embalar, ao mais distante farol onde mora um faroleiro todo o dia a farolar. Para que não escureça a noite nem se quebre o arnês que nos prende em alto mar ou nos bata a onda forte que nos fará afogar.
Tenho pressa, disse o barco. Já virei a estibordo que é o lado direito do mar e a canção de que me falas, não a poderei guardar. Estas aves marinhas estão famintas de pausas, compassos e melodias e uma sereia de cabelos verdes que me jurou desviar e eu não a quero nem ver, quanto mais desencantar.
Navega então a bombordo que é o lado esquerdo do mar. O lado bom, onde bate o coração e eu sopro-te palavras de marear, ai sim, ai não, tanta espuma marinha e perdido anda o farol em busca da rosa dos ventos e de uma outra encarnada, para se enfeitar.

































Nada sei de canções de marinheiros todo o dia a marinhar, gritou o farol do outro lado do mar. Soltou-me da rocha dura, um peixe-pico e nada me prende agora, nem ilha, promontório ou a baixa-mar.
Aiô! Respondeu um farol pequenino, sem perceber muito bem do que se falava ali. Mas tinha bom ouvido e quando a noite chegou, era de muitas estrelas e plena a lua e o barco de uma vela só afastou-se cada vez mais, até ser apenas um traço ou dois ou três e uma ideia a vaguear.