Os grilos são agora raros como os pirilampos. Excessivos,
o ruído e a luz. Em tudo o mais nada mudou, talvez a hera a romper os muros a
força que tem.
Os bancos do jardim, vamos pintá-los de verde como a
hera. Fazem-me pena uns bancos assim, sólidos, pesados, perderem um grão de
tinta a cada chuva miudinha e ao estalar do sol e a ausência de um livro aberto
sobre a madeira gasta. Gastar é qualquer coisa que nos rói a pele e desenha na
face os veios do tempo, mas vamos pintar as faces e os bancos ainda este verão.
Sobre o telhado cresceram as ervas do campo e um casal de
pombos nidificou na chaminé da cozinha. Arrulham pasmados como sempre
arrulharam e será preciso convencê-los a mudar o ninho para o cume das
palmeiras mortas pelos escaravelhos. Ou talvez não. É um anseio dos homens e
das aves nidificarem abrigados do vento, próximo dos terrenos alagados onde
crescem os arrozais, virados para o azul do mar onde abundam os peixes. Por
isso vamos subir ao telhado, substituir as telhas, contar os pombos e dar-lhes
um nome, replantar as pequenas árvores e tudo isto antes das tempestades do
equinócio ainda este verão.
Com galhos e cordel cinzento, preparamos o poleiro dos
pássaros vadios e o comedouro das sementes e o alguidar de esmalte a transbordar
de água e estou certa que ele vai regressar, o pássaro de muitas cores, e estilhaçar
o ar da madrugada com o seu canto. E já que acordarei tão cedo nesse dia, serei
eu, uma caneca de café e o último dos morcegos da noite ou o primeiro da antemanhã
e a humidade em uma camada fina.
Não quero que me chamem. Tenho ainda de limpar os
morangueiros, cortar-lhes os estolhos e certificar-me das marés e das fases da
lua. Dar banho ao cão. Não fossem os estolhos e esta camada fina, ainda este verão.