outra vez marulhar

















Levas-me, barco, uma canção de embalar, ao mais distante farol onde mora um faroleiro todo o dia a farolar. Para que não escureça a noite nem se quebre o arnês que nos prende em alto mar ou nos bata a onda forte que nos fará afogar.
Tenho pressa, disse o barco. Já virei a estibordo que é o lado direito do mar e a canção de que me falas, não a poderei guardar. Estas aves marinhas estão famintas de pausas, compassos e melodias e uma sereia de cabelos verdes que me jurou desviar e eu não a quero nem ver, quanto mais desencantar.
Navega então a bombordo que é o lado esquerdo do mar. O lado bom, onde bate o coração e eu sopro-te palavras de marear, ai sim, ai não, tanta espuma marinha e perdido anda o farol em busca da rosa dos ventos e de uma outra encarnada, para se enfeitar.

































Nada sei de canções de marinheiros todo o dia a marinhar, gritou o farol do outro lado do mar. Soltou-me da rocha dura, um peixe-pico e nada me prende agora, nem ilha, promontório ou a baixa-mar.
Aiô! Respondeu um farol pequenino, sem perceber muito bem do que se falava ali. Mas tinha bom ouvido e quando a noite chegou, era de muitas estrelas e plena a lua e o barco de uma vela só afastou-se cada vez mais, até ser apenas um traço ou dois ou três e uma ideia a vaguear.












































pescoço longo e esguio, corpo magro














Recorda-me os caniçais. Descreve-os milímetro a milímetro, o canivete afiado a esburacar o caule, o derrapar da lâmina na palma da mão, a dor aguda, o sangue vermelho a caminho da foz. Onde deixei o mar, não sei.

Era uma vez um mergulhão curioso. Pescoço longo, a plumagem da cabeça preta e branca e enquanto os outros mergulhões ruidosamente mergulhavam, ele erguia o bico em direção à copa das árvores, às nuvens, ao sol. Nadava longe das margens, com as correntes. Era um mergulhão silencioso.

Construíamos flautas de cana a espantar a tarde quente. Recorda-me as tardes quentes e o rio, se não te importares. Importa-te mesmo, quem não se importa já está meio morto. Morremos um pouco todos os dias não é de repente numa tarde quente.

O mergulhão calado tinha o corpo magro, por isso levantava voo de uma forma diferente, não lhe pesavam as penas e as barbatanas, nem a gordura acumulada. Fugia das lutas, mas se lhe mordiam bicava. Uma ave sente, pressente, era um mergulhão orgulhoso. 
E deixando para trás os insetos e os peixes, partia em busca dos lagos mais a ocidente onde o sol se põe e a luz projeta chamas à superfície da água e a quietude toma posse do entardecer.

Imagina três grandes lagos, profundidade variável, cores distintas, temperaturas inconstantes. No primeiro habitam os sonhos e é o maior, o mais límpido, um arrepio apenas quando se mergulha. No segundo moram os desejos e a água gelada para nos manter alerta, sempre a desejar. No terceiro e mais profundo de todos guardamos as memórias. Entramos devagar, inspiramos e quando perdemos o pé, libertamo-nos. Regressamos à superfície, não te esqueças, é imprescindível, por causa das flautas de cana, das tardes quentes e do divagar das aves.

Um dia, no mais distante dos lagos, o mergulhão encontrou outro mergulhão palrador que o fazia rir de tantas histórias que contava. E eram todas reais, a gralhar assobios, trinados e borrifos de água.














dente de leão não é não















































Regressamos aos ruídos da casa. A porta a bater, os passos na escada, o papel de carta a cair da mesa, o afiar do lápis, o soalho a estalar. Os lençóis de linho são mais frescos e faz calor, é junho, quem dorme em lençóis de linho, quem escreve em papel verde-água ou azul-marinho. Uma caneta fina e tinta preta da china ou de um país muito distante, sem nome ainda. Quem. Debaixo da escada as sandálias de couro e a bicicleta encarnada, o cão ladra como sempre ladrou.
E num fechar de olhos invadiam os campos e nós soprávamos. Porque me lembrei agora não sei, nem tão pouco são eles na imagem mas fica-lhes bem os ruídos e a casa.








Allium







sem ruído













Que silêncio gelado se instalou neste meu reino? perguntou o rei ajeitando a coroa de estevas que lhe enfeitava a cabeça. Pois não vos ordenei que me contassem histórias, uma para cada dia e acrescentassem outra ainda nas noites de lua cheia quando o tempo aquece e nos parece quase impossível adormecer? 
E continuou a fazer perguntas e da sua boca soltavam-se os pontos de interrogação e pousavam na mesa, no jarro da água, nos canteiros do jardim, nas telhas da casa e eram tantos que os habitantes do reino temeram que o sol se escondesse e foram em grande pressa procurar os contadores de histórias e não os encontrando voltaram a temer, desta feita, a ira do rei.
Para dizer a verdade o rei não era assustador. Media exatamente cento e cinquenta centímetros, pesava trinta quilos, tinha os cabelos cor de fogo presos numa fita preta e todas as manhãs colocava no bolso da camisa um malmequer amarelo com a corola de fora. Depois sentava-se na biblioteca e escolhia o livro onde queria reinar. Abria o primeiro capítulo e entrava. Era feliz assim.


Onde é que estás. Em cima da árvore, não me consegues ver. Não. Então cala-te, no meio do ruído é impossível medrarem os pêssegos rosa. Os de Colares. Sim, esses mesmos. Lembras-te do avô Joaquim todos os anos em agosto e mais dois ou três dias amadureciam. Não se soltavam do caroço. Pois não. Tinham a doçura certa como certo era o dia, a noite e a madrugada. E deus. Deus é incerto. Pois é. Porquê. Não sonha. Mas ainda é maio e o tempo parece-me tão estreito e longo como um corredor de fundo antes da partida.