Levas-me, barco, uma canção de embalar, ao mais distante farol onde mora um faroleiro todo o dia a farolar. Para que não escureça a noite nem se quebre o arnês que nos prende em alto mar ou nos bata a onda forte que nos fará afogar.
Tenho pressa, disse o barco. Já virei a estibordo que é o lado direito do mar e a canção de que me falas, não a poderei guardar. Estas aves marinhas estão famintas de pausas, compassos e melodias e uma sereia de cabelos verdes que me jurou desviar e eu não a quero nem ver, quanto mais desencantar.
Navega então a bombordo que é o lado esquerdo do mar. O lado bom, onde bate o coração e eu sopro-te palavras de marear, ai sim, ai não, tanta espuma marinha e perdido anda o farol em busca da rosa dos ventos e de uma outra encarnada, para se enfeitar.
Nada sei de canções de marinheiros todo o dia a marinhar, gritou o farol do outro lado do mar. Soltou-me da rocha dura, um peixe-pico e nada me prende agora, nem ilha, promontório ou a baixa-mar.
Aiô! Respondeu um farol pequenino, sem perceber muito bem do que se falava ali. Mas tinha bom ouvido e quando a noite chegou, era de muitas estrelas e plena a lua e o barco de uma vela só afastou-se cada vez mais, até ser apenas um traço ou dois ou três e uma ideia a vaguear.