Recorda-me os caniçais. Descreve-os milímetro a milímetro, o canivete afiado a esburacar o caule, o derrapar da lâmina na palma da mão, a dor aguda, o sangue vermelho a caminho da foz. Onde deixei o mar, não sei.
Era uma vez um mergulhão curioso. Pescoço longo, a plumagem
da cabeça preta e branca e enquanto os outros mergulhões ruidosamente
mergulhavam, ele erguia o bico em direção à copa das árvores, às nuvens, ao sol.
Nadava longe das margens, com as correntes. Era um mergulhão silencioso.
Construíamos flautas de cana a espantar a tarde quente. Recorda-me
as tardes quentes e o rio, se não te importares. Importa-te mesmo, quem não se
importa já está meio morto. Morremos um pouco todos os dias não é de repente
numa tarde quente.
O mergulhão calado tinha o corpo magro, por isso
levantava voo de uma forma diferente, não lhe pesavam as penas e as barbatanas,
nem a gordura acumulada. Fugia das lutas, mas se lhe mordiam bicava. Uma ave
sente, pressente, era um mergulhão orgulhoso.
E deixando para trás os insetos e os peixes, partia em busca dos lagos mais a ocidente onde o sol se põe e a luz projeta chamas à superfície da água e a quietude toma posse do entardecer.
E deixando para trás os insetos e os peixes, partia em busca dos lagos mais a ocidente onde o sol se põe e a luz projeta chamas à superfície da água e a quietude toma posse do entardecer.
Imagina três grandes lagos, profundidade variável, cores
distintas, temperaturas inconstantes. No primeiro habitam os sonhos e é o
maior, o mais límpido, um arrepio apenas quando se mergulha. No segundo moram
os desejos e a água gelada para nos manter alerta, sempre a desejar. No
terceiro e mais profundo de todos guardamos as memórias. Entramos devagar,
inspiramos e quando perdemos o pé, libertamo-nos. Regressamos à superfície, não
te esqueças, é imprescindível, por causa das flautas de cana, das tardes
quentes e do divagar das aves.
Um dia, no mais distante dos lagos, o mergulhão encontrou
outro mergulhão palrador que o fazia rir de tantas histórias que contava. E
eram todas reais, a gralhar assobios, trinados e borrifos de água.