Que silêncio gelado se instalou neste meu reino? perguntou
o rei ajeitando a coroa de estevas que lhe enfeitava a cabeça. Pois não vos
ordenei que me contassem histórias, uma para cada dia e acrescentassem outra
ainda nas noites de lua cheia quando o tempo aquece e nos parece quase
impossível adormecer?
E continuou a fazer perguntas e da sua boca soltavam-se os pontos de interrogação e pousavam na mesa, no jarro da água, nos canteiros do jardim, nas telhas da casa e eram tantos que os habitantes do reino temeram que o sol se escondesse e foram em grande pressa procurar os contadores de histórias e não os encontrando voltaram a temer, desta feita, a ira do rei.
E continuou a fazer perguntas e da sua boca soltavam-se os pontos de interrogação e pousavam na mesa, no jarro da água, nos canteiros do jardim, nas telhas da casa e eram tantos que os habitantes do reino temeram que o sol se escondesse e foram em grande pressa procurar os contadores de histórias e não os encontrando voltaram a temer, desta feita, a ira do rei.
Para dizer a verdade o rei não era assustador. Media
exatamente cento e cinquenta centímetros, pesava trinta quilos, tinha os
cabelos cor de fogo presos numa fita preta e todas as manhãs colocava no bolso
da camisa um malmequer amarelo com a corola de fora. Depois sentava-se na
biblioteca e escolhia o livro onde queria reinar. Abria o primeiro capítulo e
entrava. Era feliz assim.
Onde é que estás. Em cima da árvore, não me consegues
ver. Não. Então cala-te, no meio do ruído é impossível medrarem os pêssegos
rosa. Os de Colares. Sim, esses mesmos. Lembras-te do avô Joaquim todos os anos
em agosto e mais dois ou três dias amadureciam. Não se soltavam do caroço. Pois
não. Tinham a doçura certa como certo era o dia, a noite e a madrugada. E deus.
Deus é incerto. Pois é. Porquê. Não sonha. Mas ainda é maio e o tempo parece-me
tão estreito e longo como um corredor de fundo antes da partida.