A primeira a chegar foi a grande ave cinzenta. Pesada, as
pernas altas submersas na água, concentrada no peixe, na rã, no rato, no
caracol, no lodo, no baixio. Levanta voo num bater de asas lento e o longo
pescoço retrai-se, encurta-se. Pousa num ilhéu de areia. E uma a uma, as outras
aves do sapal.
Os patos-marrecos e os brancos, os flamingos, os
maçaricos das rochas, as calhandrinhas e as pegas-rabudas e também aqueles de
quem esquecemos o nome por serem tantos e tão distintos e por ali se espalharam,
respondendo ao apelo da grande ave cinzenta que logo grasnou. Era rouca a voz e
desfiou uma lista de penas comuns sobre a organização hierárquica do sapal e
não via mais nada para além do baixio, do lodo, do caracol, do rato, do peixe e
da rã.
As aves ali presentes enfastiavam-se de tal grasnar, mas
temendo-lhe o bico aguçado, disseram que sim e repetiram, sim, sem entenderem a
razão daquela assembleia.
A pequena ave cinzenta foi a última a chegar. Alheada do
peixe, do baixio e sobretudo do rato, espantou-se com o burburinho dos visitantes
e o agitar ruidoso das patas. Ela gostava dos dias luminosos da primavera
quando regressavam as andorinhas. Levantava a cabeça, esticava o bico, crescia
um ou dois centímetros e ficava a olhá-las no seu rodopiar louco e, sem se cansar, observava-lhes o voo de asas bem abertas e lamentava a pouca
ambição dos da sua espécie, pescadores de superfície, sempre a olhar para
baixo.
- Nós devíamos voar como as andorinhas - disse em voz
alta a pequena ave cinzenta.
Fez-se um silêncio de lodo no sapal. A grande ave
cinzenta abriu e fechou o bico sentindo-se mais pesada e mais lenta. A
calhandrinha e a pega-rabuda piaram, os patos-marrecos esconderam a cabeça no dorso, as restantes debandaram.
A água arrefece sempre um pouco quando o sol se põe.