No cimo de uma árvore crescia uma rã. Dos ramos mais
altos ela avistava o rio, as colinas, uma ponte, um campo de trigo onde no
verão despontariam as papoilas. Perto de si, uma casa baixa com duas portas e
sete janelas, uma latada ainda sem rebentos, um tanque grande cheio de água e um
homem, que não possuía a casa, a árvore, a latada e o tanque das regas. Tomara-os
de empréstimo e era inquieto assim. Com o sol da manhã o homem abria as janelas
e as portas e no pátio, sobre a mesa de pedra, colocava uma caneca de café
quente e escrevinhava num caderno quadriculado, rabiscava, rasgava, voltava a
escrever. Por um instante, um relâmpago de trama tomava forma, um enredar de
palavras em busca de um sentido. Mas vagueava o voo de um mosquito, o cão a
ladrar, o rapaz a vender queijos de cabra. Na página doze conseguiu guardar um
sentimento de pertença e soltou-o duas folhas depois. Então tirou a roupa e
nadou no tanque, até ficar exausto, os ouvidos a latejar.

A rã não era alheia a tudo isto. Observava o homem e
balançava-se para cá e para lá ao sabor do vento. Umas vezes sabia a terra molhada,
outras a muito calor e a pão quente. E preparou o salto, de uma para outra
folha, mas calculou mal e quadriculou a aterragem no caderno do homem. Foi um
susto menor, o homem gostava de rãs e a curiosidade desta era superior ao medo
que pudesse sentir.
A rã foi ficando. Livrou-o dos mosquitos, colava-se-lhe
ao visor do computador, nadava de bruços no tanque das regas. E o homem foi
escrevendo: o efeito benéfico das rãs no comportamento da clorofila, o
crescimento das folhas junto aos tanques de rega, a quadrícula do sabor do
vento. Encheu um caderno de poemas e quando as papoilas despontarem no campo de
trigo, serão duas as rãs e uma árvore onde cresce um homem.