frade, púcara, chapéu-de-sol










Os habitantes secretos do jardim têm mudado ao longo do tempo. O primeiro foi um pintor com saudades da Córsega. Colocava o cavalete entre os troncos das ameixoeiras, espalhava tintas, aguarelava telas, tinha insónias com o ladrar dos cães. Comia saladas com queijo à sombra das árvores, em silêncio. Depois vieram mais três, um gigante, um médio e um pequenino. Estendiam os sacos-cama na terra e contavam as estrelas. Sob o telhado da casa morava Rolando, o rato, e entre as paredes, o urso dos canos roncava quando se abriam as torneiras. Mudaram-se para um país mais quente, multiplicaram-se e nós subtraímo-nos. Deixaram-nos as estrelas e o rato e nunca mais soubemos do urso. Presumimos que esteja bem.
E por fim chegou o rapaz-dos-pássaros. E as sementes e o bebedouro feito de pedras e o comedouro feito de galhos e nós abençoámos a negligência do jardineiro que não corta os arbustos nem as trepadeiras, deixa ao deus dará as velhas ameixoeiras onde crescem os fungos que frutificam em cogumelos frade, púcara, chapéu-de-sol. Não tão amarelos, não, mas neste mundo dos contos as cores não correspondem exatamente à realidade. Nem a forma, nem a sombra, nem o conteúdo. O território foi demarcado por dois chapins de cabeça preta e dois piscos de peito ruivo. Sobram os melros e os gaios.
O rapaz-dos-pássaros escreve livros sobre pássaros e um dia um pássaro escreverá um livro sobre ele. Entre uma coisa e outra, as ameixoeiras ainda não floriram e quando o fizerem, já o aroma das frésias nos embriagou as noites. 












no cimo da árvore a rã e o tanque cá em baixo











No cimo de uma árvore crescia uma rã. Dos ramos mais altos ela avistava o rio, as colinas, uma ponte, um campo de trigo onde no verão despontariam as papoilas. Perto de si, uma casa baixa com duas portas e sete janelas, uma latada ainda sem rebentos, um tanque grande cheio de água e um homem, que não possuía a casa, a árvore, a latada e o tanque das regas. Tomara-os de empréstimo e era inquieto assim. Com o sol da manhã o homem abria as janelas e as portas e no pátio, sobre a mesa de pedra, colocava uma caneca de café quente e escrevinhava num caderno quadriculado, rabiscava, rasgava, voltava a escrever. Por um instante, um relâmpago de trama tomava forma, um enredar de palavras em busca de um sentido. Mas vagueava o voo de um mosquito, o cão a ladrar, o rapaz a vender queijos de cabra. Na página doze conseguiu guardar um sentimento de pertença e soltou-o duas folhas depois. Então tirou a roupa e nadou no tanque, até ficar exausto, os ouvidos a latejar.





A rã não era alheia a tudo isto. Observava o homem e balançava-se para cá e para lá ao sabor do vento. Umas vezes sabia a terra molhada, outras a muito calor e a pão quente. E preparou o salto, de uma para outra folha, mas calculou mal e quadriculou a aterragem no caderno do homem. Foi um susto menor, o homem gostava de rãs e a curiosidade desta era superior ao medo que pudesse sentir.
A rã foi ficando. Livrou-o dos mosquitos, colava-se-lhe ao visor do computador, nadava de bruços no tanque das regas. E o homem foi escrevendo: o efeito benéfico das rãs no comportamento da clorofila, o crescimento das folhas junto aos tanques de rega, a quadrícula do sabor do vento. Encheu um caderno de poemas e quando as papoilas despontarem no campo de trigo, serão duas as rãs e uma árvore onde cresce um homem.















a hora do chá












Era uma vez uma ilha de Ceilão, tão distante era essa ilha e tenros os rebentos primeiros e quem sabe, longa a viagem até cá. 
Preto sem açúcar ou um farrapo de leite quente, muito quente, como a terra do chá. Depois afastávamos a jarra das flores, estendíamos sobre a mesa os quatro jogos reunidos, discutíamos por qual começar e a avó perguntava, também posso jogar. Abria  a lata dos biscoitos de canela e fazia batota a nossa avó.
Desfiava então as histórias da terra do chá, do menino lobo e do outro menino com cabeça de elefante e nós, os meninos dela, atirávamos os dados e gostávamos tanto dela e de chá.














a persa e o pássaro











Era uma vez um pássaro da cidade. Não tinha poiso certo, ora rasava a cabeça das pessoas apressadas bicando migalhas aqui e ali, ora trincava insetos nos jardins, assustando os pombos inchados a arrulhar patetices. Era rápido e leve e se disséssemos, vai ali um pássaro, ninguém o veria. Cantava ao amanhecer, piava ao entardecer e os olhos brilhavam-lhe entre um momento e o outro. E assim descrito, é um pássaro igual a tantos outros. Não fora a cerejeira.
A cerejeira crescia num vaso fundo de uma varanda virada para o rio. Era ainda muito jovem, esguia e frágil. Na primavera deu quatro cerejas e o pássaro comeu-lhe três. A quarta caiu, rolou pelos ladrilhos e escondeu-se a um canto.
Nunca comi cerejas tão doces, disse o pássaro. A cerejeira observou o pássaro e achou-o bonito e num sinal de assentimento, agitou levemente um ramo. O pássaro poisou nele, saltitou, limpou o bico, alinhou as penas, deu cambalhotas para trás. Quando escureceu, ficou, um pé no ramo, o outro dobrado e adormeceu feliz. E assim contado, é apenas uma cerejeira a crescer numa varanda e um pequeno pássaro de barriga cheia a dormir num ramo. Não fora a persa.
A persa gostava de sair à noite, silenciosa, ondulante e já conhecia a cerejeira, mas desconhecia o pássaro. E com os seus olhos de gato descobriu a cereja redonda e vermelha escondida num canto, deu-lhe patadas, fê-la rolar, deitou-se de costas e largou-a. Quando olhou para cima viu o pássaro, cheirou-o de longe, soltou um miado, enroscou-se e adormeceu.
De manhã bem cedo o pássaro cantou e lançou-se sobre a cereja que faltava e era doce e carnuda e soube-lhe tão bem. Depois pousou na cabeça da persa e foi desta forma que ela conheceu o pássaro.
Passou o verão e o morno outono e dormiam os dois todas as noites aos pés da cerejeira, a persa e o pássaro. E quando o inverno gelado chegou e o frio e o vento e assim escrito dir-se-ia uma história banal de uma persa amiga de um pássaro, não fora o homem que me contou.
O homem amava os pássaros, os bichos, as árvores, as ruas, o rio, os barcos, o mar e não fora o ódio, todos os homens deveriam ser assim.