Os habitantes secretos do jardim têm mudado ao
longo do tempo. O primeiro foi um pintor com saudades da Córsega. Colocava o
cavalete entre os troncos das ameixoeiras, espalhava tintas, aguarelava telas, tinha
insónias com o ladrar dos cães. Comia saladas com queijo à sombra das árvores,
em silêncio. Depois vieram mais três, um gigante, um médio e um pequenino.
Estendiam os sacos-cama na terra e contavam as estrelas. Sob o telhado da casa
morava Rolando, o rato, e entre as paredes, o urso dos canos roncava quando se
abriam as torneiras. Mudaram-se para um país mais quente, multiplicaram-se e
nós subtraímo-nos. Deixaram-nos as estrelas e o rato e nunca mais soubemos do
urso. Presumimos que esteja bem.
E por fim chegou o rapaz-dos-pássaros. E as sementes e o
bebedouro feito de pedras e o comedouro feito de galhos e nós abençoámos a
negligência do jardineiro que não corta os arbustos nem as trepadeiras, deixa
ao deus dará as velhas ameixoeiras onde crescem os fungos que frutificam em
cogumelos frade, púcara, chapéu-de-sol. Não tão amarelos, não, mas neste mundo
dos contos as cores não correspondem exatamente à realidade. Nem a forma, nem a
sombra, nem o conteúdo. O território foi demarcado por dois chapins de cabeça
preta e dois piscos de peito ruivo. Sobram os melros e os gaios.
O rapaz-dos-pássaros escreve livros sobre pássaros e um
dia um pássaro escreverá um livro sobre ele. Entre uma coisa e outra, as
ameixoeiras ainda não floriram e quando o fizerem, já o aroma das frésias nos
embriagou as noites.