no cimo da árvore a rã e o tanque cá em baixo











No cimo de uma árvore crescia uma rã. Dos ramos mais altos ela avistava o rio, as colinas, uma ponte, um campo de trigo onde no verão despontariam as papoilas. Perto de si, uma casa baixa com duas portas e sete janelas, uma latada ainda sem rebentos, um tanque grande cheio de água e um homem, que não possuía a casa, a árvore, a latada e o tanque das regas. Tomara-os de empréstimo e era inquieto assim. Com o sol da manhã o homem abria as janelas e as portas e no pátio, sobre a mesa de pedra, colocava uma caneca de café quente e escrevinhava num caderno quadriculado, rabiscava, rasgava, voltava a escrever. Por um instante, um relâmpago de trama tomava forma, um enredar de palavras em busca de um sentido. Mas vagueava o voo de um mosquito, o cão a ladrar, o rapaz a vender queijos de cabra. Na página doze conseguiu guardar um sentimento de pertença e soltou-o duas folhas depois. Então tirou a roupa e nadou no tanque, até ficar exausto, os ouvidos a latejar.





A rã não era alheia a tudo isto. Observava o homem e balançava-se para cá e para lá ao sabor do vento. Umas vezes sabia a terra molhada, outras a muito calor e a pão quente. E preparou o salto, de uma para outra folha, mas calculou mal e quadriculou a aterragem no caderno do homem. Foi um susto menor, o homem gostava de rãs e a curiosidade desta era superior ao medo que pudesse sentir.
A rã foi ficando. Livrou-o dos mosquitos, colava-se-lhe ao visor do computador, nadava de bruços no tanque das regas. E o homem foi escrevendo: o efeito benéfico das rãs no comportamento da clorofila, o crescimento das folhas junto aos tanques de rega, a quadrícula do sabor do vento. Encheu um caderno de poemas e quando as papoilas despontarem no campo de trigo, serão duas as rãs e uma árvore onde cresce um homem.















a hora do chá












Era uma vez uma ilha de Ceilão, tão distante era essa ilha e tenros os rebentos primeiros e quem sabe, longa a viagem até cá. 
Preto sem açúcar ou um farrapo de leite quente, muito quente, como a terra do chá. Depois afastávamos a jarra das flores, estendíamos sobre a mesa os quatro jogos reunidos, discutíamos por qual começar e a avó perguntava, também posso jogar. Abria  a lata dos biscoitos de canela e fazia batota a nossa avó.
Desfiava então as histórias da terra do chá, do menino lobo e do outro menino com cabeça de elefante e nós, os meninos dela, atirávamos os dados e gostávamos tanto dela e de chá.














a persa e o pássaro











Era uma vez um pássaro da cidade. Não tinha poiso certo, ora rasava a cabeça das pessoas apressadas bicando migalhas aqui e ali, ora trincava insetos nos jardins, assustando os pombos inchados a arrulhar patetices. Era rápido e leve e se disséssemos, vai ali um pássaro, ninguém o veria. Cantava ao amanhecer, piava ao entardecer e os olhos brilhavam-lhe entre um momento e o outro. E assim descrito, é um pássaro igual a tantos outros. Não fora a cerejeira.
A cerejeira crescia num vaso fundo de uma varanda virada para o rio. Era ainda muito jovem, esguia e frágil. Na primavera deu quatro cerejas e o pássaro comeu-lhe três. A quarta caiu, rolou pelos ladrilhos e escondeu-se a um canto.
Nunca comi cerejas tão doces, disse o pássaro. A cerejeira observou o pássaro e achou-o bonito e num sinal de assentimento, agitou levemente um ramo. O pássaro poisou nele, saltitou, limpou o bico, alinhou as penas, deu cambalhotas para trás. Quando escureceu, ficou, um pé no ramo, o outro dobrado e adormeceu feliz. E assim contado, é apenas uma cerejeira a crescer numa varanda e um pequeno pássaro de barriga cheia a dormir num ramo. Não fora a persa.
A persa gostava de sair à noite, silenciosa, ondulante e já conhecia a cerejeira, mas desconhecia o pássaro. E com os seus olhos de gato descobriu a cereja redonda e vermelha escondida num canto, deu-lhe patadas, fê-la rolar, deitou-se de costas e largou-a. Quando olhou para cima viu o pássaro, cheirou-o de longe, soltou um miado, enroscou-se e adormeceu.
De manhã bem cedo o pássaro cantou e lançou-se sobre a cereja que faltava e era doce e carnuda e soube-lhe tão bem. Depois pousou na cabeça da persa e foi desta forma que ela conheceu o pássaro.
Passou o verão e o morno outono e dormiam os dois todas as noites aos pés da cerejeira, a persa e o pássaro. E quando o inverno gelado chegou e o frio e o vento e assim escrito dir-se-ia uma história banal de uma persa amiga de um pássaro, não fora o homem que me contou.
O homem amava os pássaros, os bichos, as árvores, as ruas, o rio, os barcos, o mar e não fora o ódio, todos os homens deveriam ser assim.













de seda, de arroz e a forma humana de certas coisas















Era uma vez uma rapariga que possuía uma tesoura. As irmãs diziam-lhe, tenho um vestido novo, tenho um pente de marfim, tenho um verniz vermelho, tenho uma carteira de couro. Ela respondia, eu tenho uma tesoura, de bicos finos e uma fitinha cor-de-rosa para a marcar.
As irmãs troçavam dela e cacarejavam pela casa, bico-de-tesoura, bico-de-tesoura, vê lá se és capaz de me cortar. E fugiam a rir e ela ficava com o silêncio que elas lhe deixavam e como aqueles eram os dias de dobrar o ano, ela escolhia os papéis de que mais gostava, dobrava-os em acordeão, recortava meninos de mão dada e colava-os nos vidros das janelas.
Nos momentos bons a rapariga era suave como a seda, macia como o papel de arroz. Nos momentos maus armava-se de pensamentos ruins e desejava cortar em pedaços o vestido e a carteira, entornar o verniz, riscar o marfim do pente, como se ferisse a pele das quatro irmãs de cabeça leve como as folhas no inverno e elas choravam a sangrar pela casa, bico de tesoura, bico de tesoura, foste capaz de me cortar.
A rapariga guardava a tesoura num saco de veludo preto e trazia-a sempre consigo. Na escola recortava os cadernos diários, nas salas de espera transformava as revistas em flores e pássaros, no autocarro usava os bilhetes para inventar nuvens. Mas era uma arte menor, não por ausência de beleza, mas por ser estática, muda, plasmada nos vidros apenas.
O ano terminou e outro começou e a rapariga cresceu tanto que ultrapassou as irmãs em altura e cada vez as ouvia mais longe, eu tenho, eu tenho, eu tenho, eu tenho. 
E foi espaçando os cortes e os recortes e pareciam-lhe tão infantis os meninos de mão dada, parada.
No entanto, um dia encontrou um papel especial. Era branco e não era branco, poderia ser preto, refletia a luz e simultâneamente tinha luz própria e quando encostava nele o ouvido, sentia-o murmurar. Comprou-o e nessa noite deixou-se ficar pela mesa grande da cozinha, baixou a intensidade das luzes e enquanto todos dormiam desenrolou-o, esticou-o e pegando na tesoura começou a recortar.
Os dedos acompanhavam a tesoura ou talvez fosse apenas o seu contrário e ganhou forma humana a menina de papel. E dançou. Sobre a chaminé, nas escadas do sótão, por cima das camas, no parapeito das janelas. Veio um vento e levou-a, pernas de tesoura e uma fitinha cor-de-rosa para a marcar.