não tarda













E porque ainda tardava, pegou o anjo em três pedaços de arame, dois vidros, um ramo de pinheiro manso e fez um brinco para oferecer ao menino quando Ele nascesse.
A mulher disse, obrigada meu anjo e esgravatou o lume para que espevitasse. Sentaram-se no chão e comeram uma canja de galinha quente com um cheiro de hortelã. Era chegado o inverno.










boa noite












Está frio, faz frio, chegou o frio e nós quietos para não perturbar os galhos e as tocas dos coelhos, era assim neste tempo frio em que faz frio que o musgo cobria as pedras do pinhal e esperávamos a eternidade num minuto ou dois e eles surgiam.
E não tardava a lua plena.






















A madrugada é o tempo à espera da luz, um instante de solidão, uma passagem estreita, um bosque denso, um rio escuro, um espinho abismado, uma ausência de flores encarnadas, um reflexo, um eco, um ângulo obtuso.
É uma travessia que fazemos adormecidos, por isso a suportamos e refazemos a cada dia. Mas hoje não, às vinte e quatro horas não, esta noite não, agora não.
Porque sim, há outros tempos e espaços de claridade no centro da escuridão.









ao blog INTEMPORAL e ao seu autor







Simonetto










Não parecia um rato, mas o pai e a mãe eram-no e o avô e por aí atrás até ao seu tetravô tinham nascido e morrido ratos, daí a convicção firme dos pais, de que rato também seria. Chamaram-lhe Simonetto em memória dos seus antepassados e por ser seu pai, um apreciador apaixonado de ópera e de queijo gorgonzola.
Simonetto passou a infância numa zona residencial livre de gatos, em que as casas se alinhavam à beira dos passeios e as traseiras possuíam jardins igualmente alinhados onde os cães corriam a desalinhar os canteiros de rosa-chá e tulipas aveludadas. As famílias de ratos ocupavam as caves e as condutas de ar condicionado e assim durante a noite, acediam aos frigoríficos e às despensas enquanto as famílias de humanos dormiam. Era o equilíbrio possível entre espécies.
Nos momentos em que o pai, na sua voz de tenor, entoava as árias preferidas, Simonetto comparava a vida regrada e previsível do seu clã, com a daquelas personagens que ele tomava por verdadeiras. Os ódios, os amores, as vinganças, os disfarces, os assassinatos, os heroísmos, a beleza levada ao seu limite e a voz do pai, distinta daquele ser que era o seu pai. Um dia chamaram-no ao Conselho Superior dos Ratos e ordenaram-lhe que se calasse, que não cantasse mais, que as notas agudas alertariam os humanos para a presença de ratos, que o seu desvario musical colocaria em perigo aquela comunidade farta e rica. Simonetto assistia escondido a toda esta farsa e saiu em sua defesa, gritou que estavam todos enganados, que cantar era humano e que o canto denunciaria a presença de homens e nunca de ratos. Os conselheiros não gostavam de ser contrariados e ao olharem Simonetto, acrescentaram a pena infligida, pois para além de barulhento cantor, o rato pai tinha gerado um coelho e não um rato.
E o pai não lutou, entristeceu-se, calou-se. Simonetto subiu as escadas a correr e ignorando que ainda não era noite, entrou num dos quartos, abriu o roupeiro e olhou-se ao espelho, fez uma careta, mexeu a orelha esquerda, depois a direita. O espelho restituiu-lhe a imagem e o outro rato mexeu a orelha direita, depois a esquerda. Simonetto saltou, o outro saltou também. Simonetto rebolou-se no tapete a rir e riu tanto que não saberia dizer se o rato do lado de lá se ria ou não. Quando se aquietou, imaginou que para além das caves sombrias deveriam existir sótãos de onde se avistassem as estrelas.
Sobre o bairro das casas alinhadas à beira dos passeios e desalinhados canteiros de rosa-chá e tulipas aveludadas, caiu um silêncio de ratos.
E Simonetto partiu. Em busca do prazer, da dor, do ódio, do amor, da vida, da morte, da beleza limite que dá sentido às vozes, mesmo as de rato. Aprendeu a procurar alimento, a construir abrigos, a arreganhar os dentes e por vezes cantava a pensar no pai. E jamais sentiu saudades de um frigorífico repleto de parmesão e gorgonzola.