Confio-te o meu livro de viagens por dois ou três dias,
talvez uma semana ou quem sabe, um mês. O tempo é relativo. Demasiado curto
quando nos sentimos bem, longo na inquietação, infindável na tristeza.
O rapaz falava devagar e as suas palavras pareciam vir de
uma outra pessoa que não ele. Estranhei-o assim tão sério, mas não disse nada.
Como devem estar recordados, o livro a que ele se referia
é secreto e invisível e apenas sabemos que está presente pela inclinação súbita
dos raios solares, pelo ladrar de um cão, pelo cheiro forte a pão acabado de
fazer.
Está bem, disse-lhe. Guardo-o, escondo-o para que ninguém
o veja. E estendi as duas mãos para o receber. O rapaz perdeu o ar composto e
gritou, que desajeitada, deixaste-o cair. E bateu os pés, morto de riso. Depois
baixou-se, apanhou-o e disse, lê o que eu escrevi sobre a minha terceira
viagem.
Sentámo-nos ali mesmo nos degraus da escada, a trovoada
ao longe e o ar quente carregado de humidade. O rapaz insistiu, desde quando é
que precisas de ver para ler. Não preciso, respondi. E lemos os dois.
Caiu a primeira gota de chuva, pesada, gorda e
seguiram-se as demais, espaçadas, quase mornas. Foi quando nasceu a filha de um
rei e era bom o rei e rejubilaram todos os habitantes daquele reino de árvores
de grande porte e muita chuva, porque quando nasce uma criança abre-se uma
porta e deita-se fora a chave e o futuro cumpre o seu destino.
Mais à noitinha, já as chaminés fumegavam e os velhos
dormiam, é que perceberam que a criança tinha sete dedos em cada mão, para que
gostassem dela as folhas das árvores de grande porte naquele reino de muita
chuva.
Um dia, atraídos pelas árvores e pelas folhas esguias, chegaram
a bicicleta azul e o rapaz molhado até aos ossos e receberam-no o rei e a filha
pequenina. Ficou por muitos dias e ensinou a filha do rei a andar de bicicleta e
ela com os sete dedos em cada mão, nunca caía.
Quando regressou, trouxe consigo algumas folhas e muitas gotas de chuva.