Agora vou-me embora. Deixo-te a chave na lata das
sementes que coloquei no parapeito da janela e sobre a mesa da cozinha alguns
cachos de uva moscatel.
A lareira tem puxado bem e como as noites serão cada vez
mais longas e frescas arrumei a lenha no cesto de vime, aquele que ninguém é
capaz de deslocar. Um dia, o espaço esférico que ocupa sobre o tapete rompe-se,
o soalho cede e seremos invadidos por tribos de seres enfarruscados que nos
roubarão as pinhas e as acendalhas. É um sonho, não é um pesadelo.
Parece-me que não me irei já embora. Dou uma volta à
casa, abro as janelas que tinha fechado, ajeito as flores amarelas da jarra
sobre a mesa, abro o frigorífico meio vazio, corto aos cubos uma fatia de
melancia, trituro, coloco num copo cheio de gelo e combina, o sangue vivo da
fruta e o amarelo da jarra. Sento-me cá fora nas cadeiras de lona da varanda, a
bebericar, a acrescentar o tempo. As casas deviam ser como os ninhos flutuantes
de certas aves, meia dúzia de caniços, cordas entrelaçadas, plantas aquáticas e
partíamos e regressávamos, com as correntes.
Talvez no início estranhes a algazarra do lago, mas
depois habituas-te e se por um acaso sentires que o pescoço te cresceu, aceita
esse facto. A mim aconteceu-me o mesmo, é apenas uma questão de dar três voltas
ao cachecol.
Mais um pouco e os entardeceres serão da cor do fogo e as
folhas e os caniçais e sobre a água das represas os mosquitos zumbem e talvez
chuvisque e não há forma de explicar tudo isto a não ser pelo coração.
Levanto-me, alinho as cadeiras de lona, lavo o copo,
fecho as janelas e antes de sair estico o pescoço. Recoloco a chave na lata das
sementes.
Estremeço um segundo, mergulho e reapareço longe em um
outro lugar.