as represas, os açudes e trémulos ondulam os caniçais











Agora vou-me embora. Deixo-te a chave na lata das sementes que coloquei no parapeito da janela e sobre a mesa da cozinha alguns cachos de uva moscatel.
A lareira tem puxado bem e como as noites serão cada vez mais longas e frescas arrumei a lenha no cesto de vime, aquele que ninguém é capaz de deslocar. Um dia, o espaço esférico que ocupa sobre o tapete rompe-se, o soalho cede e seremos invadidos por tribos de seres enfarruscados que nos roubarão as pinhas e as acendalhas. É um sonho, não é um pesadelo.
Parece-me que não me irei já embora. Dou uma volta à casa, abro as janelas que tinha fechado, ajeito as flores amarelas da jarra sobre a mesa, abro o frigorífico meio vazio, corto aos cubos uma fatia de melancia, trituro, coloco num copo cheio de gelo e combina, o sangue vivo da fruta e o amarelo da jarra. Sento-me cá fora nas cadeiras de lona da varanda, a bebericar, a acrescentar o tempo. As casas deviam ser como os ninhos flutuantes de certas aves, meia dúzia de caniços, cordas entrelaçadas, plantas aquáticas e partíamos e regressávamos, com as correntes.
Talvez no início estranhes a algazarra do lago, mas depois habituas-te e se por um acaso sentires que o pescoço te cresceu, aceita esse facto. A mim aconteceu-me o mesmo, é apenas uma questão de dar três voltas ao cachecol.
Mais um pouco e os entardeceres serão da cor do fogo e as folhas e os caniçais e sobre a água das represas os mosquitos zumbem e talvez chuvisque e não há forma de explicar tudo isto a não ser pelo coração.
Levanto-me, alinho as cadeiras de lona, lavo o copo, fecho as janelas e antes de sair estico o pescoço. Recoloco a chave na lata das sementes.
Estremeço um segundo, mergulho e reapareço longe em um outro lugar.































nas algas são verde rio
madrepérola ao anoitecer


quem ousará quebrar o galopar suspenso de um fio de mar

eu não, eu sim










































Assobiei e eles vieram. Com um brilho nos olhos, as barbatanas a ondular saudades do mar. É breve o Verão, disse-lhes. Pois é, responderam. E fomos, eu de sapatilhas salgadas e eles no balde encarnado de quando eu tinha seis anos de idade e colecionava búzios e ouriços. Voltaremos com o equinócio.
















até já!









conto antigo da filha do rei







um
dois
três
quatro
cinco
seis


Sobre a calçada pisavam os pés descalços da filha do rei. Não vos corteis princesa nas agulhas dos pinheiros, não vos piqueis senhora nas formigas dos carreiros.
Se me cortar que importa, se me picar que faz, eu sou a filha de um rei. Falaram-lhe de uma outra, delicada como um junco, que acordada ficava toda a noite a juntar ervilhas debaixo do colchão. De manhã escalfava ovos e molhava pedacinhos de pão torrado na gema quase líquida e todos confirmavam, esta sim é uma princesa real.
E ria-se a filha do rei.
Ofereceram-lhe sapatos forrados a ouro e prata, bordados a linhas de seda, de salto, sem salto, com laços, sem laços e até de papel. Ela dobrava o riso e prendia nas orelhas uma flor azul.
De cada canto do reino enviaram-lhe brincos de pérolas e de diamantes e escreviam, princesa, aceite este destino que deus não lhe deu.
Por decreto ordenaram que as princesas de todos os reinos tinham este dever de se calçarem, de sorrirem em silêncio, de se abrilhantarem e de juntarem ervilhas verdes debaixo do colchão. Ela não.
E riu-se a filha do rei. 





















e estrelado era o céu e líquido era o mar