Assobiei e eles vieram. Com um brilho nos olhos, as barbatanas a ondular saudades do mar. É breve o Verão, disse-lhes. Pois é, responderam. E fomos, eu de sapatilhas salgadas e eles no balde encarnado de quando eu tinha seis anos de idade e colecionava búzios e ouriços. Voltaremos com o equinócio.
















até já!









conto antigo da filha do rei







um
dois
três
quatro
cinco
seis


Sobre a calçada pisavam os pés descalços da filha do rei. Não vos corteis princesa nas agulhas dos pinheiros, não vos piqueis senhora nas formigas dos carreiros.
Se me cortar que importa, se me picar que faz, eu sou a filha de um rei. Falaram-lhe de uma outra, delicada como um junco, que acordada ficava toda a noite a juntar ervilhas debaixo do colchão. De manhã escalfava ovos e molhava pedacinhos de pão torrado na gema quase líquida e todos confirmavam, esta sim é uma princesa real.
E ria-se a filha do rei.
Ofereceram-lhe sapatos forrados a ouro e prata, bordados a linhas de seda, de salto, sem salto, com laços, sem laços e até de papel. Ela dobrava o riso e prendia nas orelhas uma flor azul.
De cada canto do reino enviaram-lhe brincos de pérolas e de diamantes e escreviam, princesa, aceite este destino que deus não lhe deu.
Por decreto ordenaram que as princesas de todos os reinos tinham este dever de se calçarem, de sorrirem em silêncio, de se abrilhantarem e de juntarem ervilhas verdes debaixo do colchão. Ela não.
E riu-se a filha do rei. 





















e estrelado era o céu e líquido era o mar






























canção sem pássaros








O ramo pertence-lhe. E o espaço abandonado entre o muro de pedra e o poço, e as ameixas amarelas por ora verdes e o alguidar antigo de zinco onde cai a água da chuva e é limpa e fresca e chegam aos pares enquanto é manhã e o gato dorme.
Não se fixa, não se prende. Num instante é mancha de fogo e o sol arde-lhe nos olhos, no outro, é canto silabado a assobiar atrevimentos para cativar insetos crocantes e minhocas viscosas. Gostaríamos de falar de sementes, mas não.
Num súbito arrufo solta o ramo da laranjeira e artimanha volteios a conquistar o ar, não fora tão belo e seria uma escrevedeira-rústica, rara mas feia, avistada pela ria de Alvor ou pelos arrozais.
Os dias de estio são breves, quentes, luminosos, com os olhos a brilhar. E ele estica as asas, depois dobra-as, esconde o bico, enrola-se, pia, aninha-se talvez. 
Que sabemos nós destes sinais.












plantou então um lódão-bastardo e a árvore cresceu









Era uma vez um homem que possuía uma casa pintada de branco num terreno húmido perto de um rio. A casa tinha duas portas, sete janelas, uma chaminé e uma latada feita com canas da índia e enroscadas cresciam as trepadeiras e um pé de vinha. Nas floreiras das janelas eram os trevos de três folhas, pois se os de quatro dão sorte, não serão trevos, porque possuem uma folha a mais.
Junto do rio coaxava a rã e o homem amava a casa, o pé de vinha, os trevos, as trepadeiras e os montes em volta e tanto era o verde que a cada fim de dia os seus olhos castanhos esverdeavam também.
O homem tinha seis filhos e todos haviam partido, cansados de verde, para outro lugar. No entanto as sete janelas permaneciam intactas. A primeira a contar da esquerda era a do seu quarto, onde ele dormia descansado porque nada temia e porque temeria? se era um homem bom. As seis janelas seguintes, uma de cada filho, e todas as semanas fazia-lhes as camas de lavado, enfeitava-lhes as jarras das cómodas com flores amarelas que ele colhia do lado sul da casa pintada de branco.
Um dia qualquer voltariam e caso não voltassem, longe onde estivessem sonhariam com a casa e o pai e o rio e a rã que coaxava e as flores nas jarras.
Foi assim que plantou de estaca um lódão-bastardo e ele cresceu. Fez-se grande a árvore, a copa arredondada e as raízes sólidas e fortes espalharam-se e agarraram-no à terra.  No ano seguinte plantou o segundo e depois o terceiro, até perfazer seis lódãos-bastardos, as copas redondas e fartas, o tronco firme e já não eram bastardos porque ele os amava como à casa e aos filhos que voltariam ou não.
Semelhantes eram os lódãos, mas a tonalidade de cada um permanecia singular. 

























Celtis australis