canção sem pássaros








O ramo pertence-lhe. E o espaço abandonado entre o muro de pedra e o poço, e as ameixas amarelas por ora verdes e o alguidar antigo de zinco onde cai a água da chuva e é limpa e fresca e chegam aos pares enquanto é manhã e o gato dorme.
Não se fixa, não se prende. Num instante é mancha de fogo e o sol arde-lhe nos olhos, no outro, é canto silabado a assobiar atrevimentos para cativar insetos crocantes e minhocas viscosas. Gostaríamos de falar de sementes, mas não.
Num súbito arrufo solta o ramo da laranjeira e artimanha volteios a conquistar o ar, não fora tão belo e seria uma escrevedeira-rústica, rara mas feia, avistada pela ria de Alvor ou pelos arrozais.
Os dias de estio são breves, quentes, luminosos, com os olhos a brilhar. E ele estica as asas, depois dobra-as, esconde o bico, enrola-se, pia, aninha-se talvez. 
Que sabemos nós destes sinais.












plantou então um lódão-bastardo e a árvore cresceu









Era uma vez um homem que possuía uma casa pintada de branco num terreno húmido perto de um rio. A casa tinha duas portas, sete janelas, uma chaminé e uma latada feita com canas da índia e enroscadas cresciam as trepadeiras e um pé de vinha. Nas floreiras das janelas eram os trevos de três folhas, pois se os de quatro dão sorte, não serão trevos, porque possuem uma folha a mais.
Junto do rio coaxava a rã e o homem amava a casa, o pé de vinha, os trevos, as trepadeiras e os montes em volta e tanto era o verde que a cada fim de dia os seus olhos castanhos esverdeavam também.
O homem tinha seis filhos e todos haviam partido, cansados de verde, para outro lugar. No entanto as sete janelas permaneciam intactas. A primeira a contar da esquerda era a do seu quarto, onde ele dormia descansado porque nada temia e porque temeria? se era um homem bom. As seis janelas seguintes, uma de cada filho, e todas as semanas fazia-lhes as camas de lavado, enfeitava-lhes as jarras das cómodas com flores amarelas que ele colhia do lado sul da casa pintada de branco.
Um dia qualquer voltariam e caso não voltassem, longe onde estivessem sonhariam com a casa e o pai e o rio e a rã que coaxava e as flores nas jarras.
Foi assim que plantou de estaca um lódão-bastardo e ele cresceu. Fez-se grande a árvore, a copa arredondada e as raízes sólidas e fortes espalharam-se e agarraram-no à terra.  No ano seguinte plantou o segundo e depois o terceiro, até perfazer seis lódãos-bastardos, as copas redondas e fartas, o tronco firme e já não eram bastardos porque ele os amava como à casa e aos filhos que voltariam ou não.
Semelhantes eram os lódãos, mas a tonalidade de cada um permanecia singular. 

























Celtis australis






aparentemente, a rã























Habitava o lago, a rã. Tinham-lhe inveja as cobras de água. Da água, das margens, do leito, dos seixos, dos piscos de peito ruivo que esvoaçavam em tontices por ali. E esta à tona, os olhos grandes, o corpo líquido e coaxava uma vez para que lhe respondesse aquela outra que vivia na superfície espelhada e era apenas o oposto de si. Troçavam-na os salgueiros e os nenúfares mais acostumados a sombras e reflexos. Como a luz a dissolver o verde da água e das folhas e dos insetos e dos pulmões e da pele da rã.
E nas noites quentes de junho partíamos à caça de sei lá o quê. Descalços, as lanternas nos bolsos, o riso quase a estalar. Picavam-nos os mosquitos e as melgas e o lago era a paisagem habitada pela lua cheia de verão.
Aparentemente a rã dormia.







ciclo verde lua






esta tristeza das coisas que se perdem ou ganham







Abri um livro esquecido. É assim que se altera o curso de um rio ou a sua memória. Entre as páginas, um trevo, uma rosa espalmada, uma borboleta morta, um bilhete de cinema e uma bailarina de papel a quem cortaram um pé.
Foi então que ele a convidou para dançar. A folha direita na cintura estreita, a folha esquerda na sua mão direita. A terceira folha, um coração a galopar.
Atrevo-me, disse a bailarina de papel e perderam-se nos campos verdes de junho onde ainda não habitam as cigarras. Um golpe de vento levou-os. 
Ficou-me um silêncio neste sem lugar.