poderiam ser lírios do mar ou penas de pássaro não fora a memória trazer-nos à tona









Inevitavelmente o rapaz cresceu. Guardou as pedras das praias, as conchas, os pedaços de metal dos barcos naufragados, duas ou três escamas de peixe e muitos cadernos de marear. Os dedos dos pés tinham-se ligado por uma membrana e ele, distraído, não sabia identificar a sua causa. Dava-lhe jeito quando nadava de bruços e aquela marca era motivo de troça, mas ele não ouvia os comentários de ninguém pois nada havia a comentar.
E deixou marinar os atóis e as tartarugas, o peixe de coração azul e as medusas e os quatro pontos cardeais.
Às vezes vinha-lhe à memória uma estrela e a seis mil metros de profundidade dançava ainda e não era planta, nem escama, nem peixe, nem lírio do mar.












escama última de "o peixe, a medusa e a estrela"

red feather starfish de seu nome







ele chamou-lhe aurélia porque não tinha outro nome para lhe dar









Vinte e nove dias antes do solstício, o rapaz começou a construir uma jangada. Cuidadosamente escolheu as madeiras, as cordas, os nós. Entre a casa e a praia passava os dias e o seu corpo acastanhava-se à medida que a embarcação ganhava forma e não se esqueceu do mastro, dos remos e do suporte da vela. O pano, forte e maleável para navegar contra o vento e enfolar, recortou-o em triângulo, ligou-o ao mastro e por fim desenhou um sol e pintou-o de amarelo.
Quando a escola terminou e as hortênsias ganharam flor, a mãe preparou-lhe quatro fatias de pão com queijo da serra, duas garrafas de água, três maçãs, um chocolate, um frasco com sal e outro com azeite. Meteu tudo num saco térmico e juntou um canivete. Coseu-lhe na camisola de lã uma medalha da senhora da boa viagem e disse-lhe, se tens de ir, vai, pequeno será sempre o homem que não sai do mesmo lugar e não alcança mais nada do que a cobiça e a inveja.
E o rapaz partiu naquele desejo secreto de encontrar os golfinhos e as baleias, as ilhas desertas e os atóis que lhe enchiam a imaginação e os sonhos. Na noite mais curta do ano descansou ao largo de um mar calmo de estrelas, a lua a minguar no céu e ele deitado, a cabeça pousada nos braços cruzados, as pernas e os pés mergulhados na água.
Ela deslocava-se por ali, silenciosa, etérea, volátil. Observou a jangada a balancear, os pés descalços do rapaz adormecido. Num impulso tocou a pele do rapaz, epiderme contra derme, mas resistiu à tentação de ejetar um espinho venenoso, de o marcar. O rapaz acordou, recolheu as pernas que tinham crescido cinco centímetros e deitando-se de barriga para baixo, colou o nariz à água e abriu os olhos assombrado. A medusa volteava, o véu a dançar, os tentáculos a dançar também. E muitas medusas se juntaram à primeira e ele não sabia dizer se eram da lua ou se para elas seria justo inventar um nome mais leve ainda. 
A jangada, o rapaz e as medusas seguiram para sul, esse lugar onde habitam as tartarugas. Há viagens que empreendemos sozinhos, outras não.
























conto segundo de "o peixe, a medusa e a estrela"







nesse espaço onde bate o coração de um peixe








Era uma vez um peixe tímido. Gostava de permanecer sozinho na superfície da água, os raios de sol a brincarem-lhe nos olhos, a boca aberta a sorver oxigénio. As escamas azul-forte-turquesa-branco-amarelo-torrado ganhavam vida e as barbatanas ventrais-anais-caudais e dorsais eram unicamente peitorais. Nesse espaço, onde batia o coração azul do peixe.
Não te exponhas assim, bica-te alguma gaivota esfomeada, avisavam os outros peixes. Ele fingia que não ouvia e quando se fazia escuro no céu e o fundo do mar fervilhava dos seres que brilham, ele escondia-se entre duas rochas, os olhos abertos e vigiando dormitava a desejar a manhã.
Um dia apareceu o rapaz. Os pés descalços, uma cana de pesca e um balde de isco. Cantava e assobiava, ou seja, primeiro cantava e depois assobiava. Preparou a cana, lançou-a e continuava a cantar e a assobiar sentado na beira da rocha. Com o ruído os peixes fugiam, mas ele parecia não dar por isso. Depois cansou-se, pousou a cana, levantou-se, despiu a camisola e com um salto encarpado mergulhou na água. Sentiu o frio a refrescar-lhe a pele e em duas braçadas atingiu a areia do fundo e ficou ali a controlar a expiração, os olhos bem abertos a olhar para cima, as bolhas de ar a soltarem-se e um fio de luz levava-as dali para um outro lugar. Nesse instante o peixe tímido atravessou a superfície da água e o rapaz surpreendeu-se com a beleza daquele ventre de escamas e a dança das barbatanas ao sabor da corrente. Atrapalhou-se, esbracejou e na subida acelerada chocou com o peixe e o peixe calado porque os peixes não gritam, mas cuidou ser uma gaivota esfaimada que o ia comer e nunca mais os raios de sol a brincarem-lhe nos olhos. Não era. 
Eu sou um rapaz, não te assustes, tenho uma cana de pesca mas não sei pescar, dizia o rapaz e o seu coração batia com mais força no peito sem barbatanas e sentia uma escama presa na garganta.
Então o rapaz nadou devagar à roda do peixe e este rodopiou à tona de água e serenaram os dois. 
Foi assim que o rapaz e o peixe ficaram amigos.







conto primeiro de "o peixe, a medusa e a estrela" 








o deserto e o rio











É um tempo antigo, simples de entender. De um lado o deserto aparentemente solitário e sopra o vento quente e seco e as paisagens mudam hora a hora e aquietam-se no fresco da noite quando os grãos de areia se transfiguram e os olhos pasmam com a multiplicação das estrelas e o brilho do luar. Do outro lado o rio e os ventos alísios e a humidade inconstante e volúvel.




este é o deserto, o rio continua aqui


















fotografias de Fernando Pedrosa