Abro todas as janelas da casa, as portas, as gavetas, a tampa do açucareiro, os frascos de doce de abóbora amarela e os cadernos
onde pincelo nadas.
Numa indefinida linha, era uma vez, inventa qualquer
coisa, um reino pacífico, um bordado, quem tem vocação para bordar agora sem
campos de linho ou arte tão pouco, paciência, a transpor motivos pelo buraco de
uma agulha. E apago, deito fora o que escrevi.
Chega a estontear o adocicado das flores da laranjeira e
os morcegos são os pássaros da noite a ecoar rotas seguras. Apago mais uma vez.
Faz-me falta a menina dos fósforos, a andorinha do
príncipe, a Justine, de Alexandria. O Grande Hotel da Praia, em Balbec. Tão
poucos afinal os que me provocam um frio no estômago, um desejo de eternidade.
E lê-los, relê-los, até os saber de cor, até os saber perfeitos. Tudo o mais é
vaidade, desabafo, suspiro, entretenimento, repetição, consolação, confidência,
sublimação de sentimentos, querer dar o talento que não se possui. E não apago.
Crescem espontâneos, por todos os recantos haja luz e
terra. Na ausência de uma razão maior, vingam-se quando colhidos, mancham as
toalhas dos dias de domingo e os dedos e as unhas e os livros mais do que
perfeitos. Se levarmos as mãos à boca nauseamos, asfixiamos sem conseguir
respirar.
E por fim falo-te dos jarros, ou nem isso.