baldio ainda




















Quando anoiteceu abriu os dedos, desfez os nós e deixou-as ir, uma a uma, duas a duas.
Pela madrugada os anjos perderam o pé e vestiram-se de asas.



















baldia











Foi a primeira. Entre o muro velho e o baldio. O caule afina-se, alinha-se, magro, a dançar um vento fresco.

Com precisão, entra pelo fundo da agulha de aço e dá um nó cego para não se perder. 

Não sei que deuses lhe fizeram o vestido e a levaram a passear.






























e por fim falo-te dos jarros ou nem isso











Abro todas as janelas da casa, as portas, as gavetas, a tampa do açucareiro, os frascos de doce de abóbora amarela e os cadernos onde pincelo nadas.
Numa indefinida linha, era uma vez, inventa qualquer coisa, um reino pacífico, um bordado, quem tem vocação para bordar agora sem campos de linho ou arte tão pouco, paciência, a transpor motivos pelo buraco de uma agulha. E apago, deito fora o que escrevi.
Chega a estontear o adocicado das flores da laranjeira e os morcegos são os pássaros da noite a ecoar rotas seguras. Apago mais uma vez.
Faz-me falta a menina dos fósforos, a andorinha do príncipe, a Justine, de Alexandria. O Grande Hotel da Praia, em Balbec. Tão poucos afinal os que me provocam um frio no estômago, um desejo de eternidade. E lê-los, relê-los, até os saber de cor, até os saber perfeitos. Tudo o mais é vaidade, desabafo, suspiro, entretenimento, repetição, consolação, confidência, sublimação de sentimentos, querer dar o talento que não se possui. E não apago.
Crescem espontâneos, por todos os recantos haja luz e terra. Na ausência de uma razão maior, vingam-se quando colhidos, mancham as toalhas dos dias de domingo e os dedos e as unhas e os livros mais do que perfeitos. Se levarmos as mãos à boca nauseamos, asfixiamos sem conseguir respirar.
E por fim falo-te dos jarros, ou nem isso.


























violeta








Morava numa casa de pedra coberta de hera e antiga era a casa e velhos os avós e os bisavós e ela tão pequena ainda. Ouviam-na mal. Ela dizia, bom dia e eles respondiam, parou de chover minha filha. Esqueciam-se de tudo, das horas, da sopa no fogão, das idas ao dentista, de fechar as janelas, de chamar o cão. Perdiam-lhe as meias e os casacos de lã e trocavam-lhe o nome. Maria, Ana, Carlota, Luísa, Margarida. Raramente acertavam e quando o faziam, já ela ia longe.
Liam-lhe os livros das estantes, ensinavam-lhe provérbios, advérbios e as palavras esdrúxulas acentuadas e as outras esquisitas, estranhas como ela. Falavam-lhe da raridade das flores de pessegueiro numa terra prenhe de pedras e escassa em húmus e em vida.
Ela amava os avós e estes gostavam tanto dela.
Às vezes perguntava:
-Onde estão as outras crianças?
 E os avós dormiam.







No espelho do quarto escondia-se uma rapariga como ela, mas feia, antipática, agressiva. Invejava-lhe a voz e o brilho dos olhos e se ela dizia, olá! a outra baixava a cabeça, cerrava os punhos como se quisesse bater-lhe e respondia-lhe o silêncio das superfícies desertas. Um dia fartou-se, tapou o espelho com um papel branco e desenhou uma árvore despida. Num impulso, desceu as escadas a correr e gritou aos avós:
- Vou buscar as flores de pessegueiro e encontrar as crianças perdidas.
- Parou de chover minha filha.
Lá fora a hera dos muros crescia reptante e os pássaros debicavam-lhe os frutos, ávidos de alimento e cantoria.