Terá sido um acaso, uma mudança brusca no sentido do
vento, um batimento diferente do coração da mãe, mas o facto é que nascera
diferente. À medida que foi ganhando pelo e peso, tornou-se notório que os
pelos da cauda não formavam riscas horizontais, mas sim, verticais. Cresceu
ágil e trepador alheio à direção dos desenhos do seu corpo e aos comentários
hostis dos que possuíam a espécie que afinal não era a sua. A mãe defendia-o
com as unhas que tinha e um dia foi ele que se cansou de estar à defesa e
foi-se ao mundo. Encontrei-o ontem na praia, ao entardecer.
Para escrever, eu gosto do entardecer. Para chegar a casa
e atirar os sapatos para o lado, também. Para beber chá quente, para ouvir a
gritaria das aves, ainda mais. Para soltar o gato, abrir a janela, cheirar a
folhagem incipiente dos pessegueiros, as flores rosa forte no
vazio dos ramos.
Para entardecer, gosto do mar mesmo que chova. Às vezes
um pargo, um caranguejo, baleias nem tanto, por isso não me surpreendi de o ver
ali, embora peludo. Andava pela beira da água, as patas dianteiras esfregavam
as pedras à procura de qualquer coisa. Talvez seja um rato-lavadeiro a quem
pintaram a cauda de branco.
-Vê lá, não te cortes nos ouriços - disse-lhe eu, assim
como quem verdadeiramente diz – vê lá, pareces-me longe de casa.
E olhei em volta, não fossem os cães tardios como nós
ladrar-lhe às canelas. Ele saiu da água, sacudiu o pelo e sentou-se ao meu lado.
Eu tirei do bolso um punhado de amêndoas que ele comeu levando-as à boca com os
dedos.
Depois contou-me o que já vos contei e seguiu-me até
casa.