para entardecer gosto do mar mesmo que chova







Terá sido um acaso, uma mudança brusca no sentido do vento, um batimento diferente do coração da mãe, mas o facto é que nascera diferente. À medida que foi ganhando pelo e peso, tornou-se notório que os pelos da cauda não formavam riscas horizontais, mas sim, verticais. Cresceu ágil e trepador alheio à direção dos desenhos do seu corpo e aos comentários hostis dos que possuíam a espécie que afinal não era a sua. A mãe defendia-o com as unhas que tinha e um dia foi ele que se cansou de estar à defesa e foi-se ao mundo. Encontrei-o ontem na praia, ao entardecer.
Para escrever, eu gosto do entardecer. Para chegar a casa e atirar os sapatos para o lado, também. Para beber chá quente, para ouvir a gritaria das aves, ainda mais. Para soltar o gato, abrir a janela, cheirar a folhagem incipiente dos pessegueiros, as flores rosa forte no vazio dos ramos.
Para entardecer, gosto do mar mesmo que chova. Às vezes um pargo, um caranguejo, baleias nem tanto, por isso não me surpreendi de o ver ali, embora peludo. Andava pela beira da água, as patas dianteiras esfregavam as pedras à procura de qualquer coisa. Talvez seja um rato-lavadeiro a quem pintaram a cauda de branco.
-Vê lá, não te cortes nos ouriços - disse-lhe eu, assim como quem verdadeiramente diz – vê lá, pareces-me longe de casa.
E olhei em volta, não fossem os cães tardios como nós ladrar-lhe às canelas. Ele saiu da água, sacudiu o pelo e sentou-se ao meu lado. Eu tirei do bolso um punhado de amêndoas que ele comeu levando-as à boca com os dedos.
Depois contou-me o que já vos contei e seguiu-me até casa.














ervanço, gravanço, terriço, cruza-bico










Por ora a morrinha da chuva e um apanhar de nuvens.
De véspera, colocam-se os grãos em abundante água para que hidratem, tripliquem de tamanho, amaciem. Se a lua for visível, colhem-se os espinafres, quem diria ervas daninhas e as folhas comestíveis a saber a húmus.
Cozem-se os grãos e reduzem-se a puré, acrescentam-se as folhas dos espinafres, sal e um fiozinho de azeite puro de oliveira. Deixa-se apurar em lume brando. Come-se quente em frente da janela e não sei porquê, vêm-nos à cabeça os cruza-bicos a trincar pinhas.  




















azul













Era uma vez um peixe curioso. Fusiforme às segundas, quartas e sextas. Salgado às terças e quintas. Doce, aos sábados e aos domingos.
Não tem sentido, diziam as baleias e as orcas, imediatamente desmentidas pelas correntes ascendentes que as transportavam à tona das ondas.
O peixe alheio à monotonia das escamas trocava os volteios e adocicava-se nos dias de sol, salgava-se à chuva e perdia-se nas noites de luar.
Era azul.







































fevereiro










Podes vir comigo, disse a rã. E ela foi. Pelo caminho abraçaram as primeiras flores de pessegueiro, talvez, as margaridas do campo, brancas, amarelas, os lírios de uma outra natureza.
Não se entende o rugir das ondas, disse ela e a rã respondeu, pois não. E acrescentou, morreríamos de tédio e espuma caso fossemos lapas e burriés.
A rã deslizava pelas folhas verde-escuro a coaxar um canto de embalar girinos.
Tão calma a noite e a geometria das estrelas paralela ao mar.