Apareceram à porta da entrada em cima do tapete. Ignorava-se quem os tinha ali deixado ou se tinham vindo pelo seu próprio pé. Não tocaram à campainha talvez por serem demasiado baixos. Eram os sapatos mais bonitos que eu alguma vez vira. Pretos opacos, uma fivela rosa velho para abotoar.
Nesta altura do ano as casas parecem sempre muito grandes e confusas, os cães debaixo das mesas a fugir às pisadelas e os continuados pedidos, faz-te útil, mas sobretudo não mexas aí. É o tempo das contradições.
Eu ainda tentei dizer, olha uns sapatos, mas ninguém me deu atenção. Tanto melhor. Peguei-lhes, avaliei-lhes o peso, cheirei a pele macia e num repente, levei-os comigo para o sótão. Fazia frio, os vidros da varanda embaciados e um silêncio de segredos antigos, nas caixas, nas prateleiras, dentro dos livros.
E calcei-os, aos sapatos. Dei três voltas para a esquerda, uma volta e meia, mais quatro rodopios para a direita. Parei. Eram perfeitos. Depois ganharam vida e levaram-me dali, pelas escadas, pelos corredores, obrigavam-me a bater o pé à menor contrariedade, a saltar para cima das cadeiras, a subir às árvores.
À meia-noite o meu pai convidou-me para dançar e os sapatos fizeram-me acertar nos passos e nos tempos e a cabeça a girar e era aquele um tempo contradito mas favorável aos planetas e às estrelas.



eram estes os sapatos que eu colocava na chaminé todos os natais
nunca me desiludiram, o meu pé é que ficou grande demais




Desejo-vos um Santo Natal e um Feliz Ano Novo







Às vezes nevisco, nevada a vida, cristais de estrelas, nevoento este tempo e esta forma cristalina dentro do meu peito.
O coração é um pássaro solitário em busca do sopro quente de deus feito menino e nós homens feitos e tão pequenos ainda.

três bagas de zimbro e um salto de coelho






Gosta do silêncio da floresta, dos atapetados carreiros de folhas, um verde seco a acastanhar-se em nervuras, pecíolos e limbos, do musgo a crescer na casca das árvores. Os raios de sol obliquam-se ao entardecer e ele ganha coragem, solta-se do bloco de notas onde plasmava quieto há já alguns dias à espera de cor. Tardava.
Estica as patas traseiras e num salto, sai pela janela aberta, ou pela porta, ou pelos buracos não identificados que todas as casas possuem sem o saberem e por onde deslizam os pensamentos noturnos, os suspiros e as interjeições.
Eu não dou por nada. A minha cabeça pousa no meu braço esquerdo e este na mesa e a mesa no chão e eu adormeço cansada a largar riscos de tinta e a desejar um conto que alguém me contasse que não eu, era uma vez um coelho muito pequeno e tão manso em busca de bagas vermelhas e de fios de seda.
Rapidamente ele decifra os códigos de linguagem dos outros seres de quatro patas, pelo macio e cauda curta, acostuma-se às tocas e aos trevos de quatro folhas, estica e encolhe as orelhas quatro vezes a escutar o vento e os peixes do rio a gorgolejar.
Pela madrugada esfria sempre um pouco e a minha mão direita cobre-se de frieiras e de um floco de neve. O coelho regressa pelo caminho secreto dos adventos, a boca e o nariz com um pingo de rosa e três bagas de zimbro ou azevinho ou pimenta do reino para aquecer. Atrás dele um outro coelho, ainda mais pequeno, dócil e é quase natal.


















por causa da muralha nem sempre se consegue ver a lua





Se eu fosse encenador diria, em cena está apenas uma cadeira pintada de branco, não exatamente ao centro. Vinte centímetros à direita do centro do palco. O pano de fundo é preto, cobre o chão, os lados também. No teto um foco de luz que incide sobre a cadeira pintada de branco, antiga, vulgar. O primeiro personagem é um vendedor de balões, dá dois passos e um contrapasso, os balões puxam-no, ele observa a cadeira, finge limpar-lhe o pó, baixa-se, diz-lhe um segredo, ata às costas da cadeira o cordel que prende os balões e sai de cena. O segundo personagem é um rapaz distraído a puxar uma trela e uma coleira de cão sem cão. Dá três voltas à cadeira, o cão que não se vê puxa-o, o cão alça a perna, o rapaz sai a correr e larga a trela e a coleira onde não se vê o cão. A terceira personagem é uma rapariga de vestido preto e cabelos cor de fogo. Como o pano de fundo é preto, brilham os cabelos cor de fogo da rapariga. Traz pela mão uma criança imaginária. O cão que não se vê salta, a criança imaginária ri-se, a rapariga retira dois dos balões presos à cadeira, ata o cordel de um, ao pulso da criança e o cordel do outro à cauda do cão. A rapariga faz uma festa à cadeira e saem de cena.
O número de personagens pode ser infinito, têm em comum a ausência de palavras e o facto de nunca se cruzarem. O diálogo corporal é com a cadeira.
Esta permanece insonora e imóvel mas é o centro da ação vinte centímetros à direita.
Neste instante, momento, mês, ano, dia, tempo, eu sou um espaço cénico em profundo preto e desenhada a branco, resta-me apenas uma cadeira. Por causa da muralha, nem sempre se consegue ver a lua.
E se eu ainda possuísse um banco antigo, vulgar, desenhado a branco.






não estou ausente, é apenas uma tardança, um vagar