Apareceram à porta da entrada em cima do tapete.
Ignorava-se quem os tinha ali deixado ou se tinham vindo pelo seu próprio pé.
Não tocaram à campainha talvez por serem demasiado baixos. Eram os sapatos mais
bonitos que eu alguma vez vira. Pretos opacos, uma fivela rosa velho para
abotoar.
Nesta altura do ano as casas parecem sempre muito grandes
e confusas, os cães debaixo das mesas a fugir às pisadelas e os continuados pedidos,
faz-te útil, mas sobretudo não mexas aí. É o tempo das contradições.
Eu ainda tentei dizer, olha uns sapatos, mas ninguém me
deu atenção. Tanto melhor. Peguei-lhes, avaliei-lhes o peso, cheirei a pele
macia e num repente, levei-os comigo para o sótão. Fazia frio, os vidros da
varanda embaciados e um silêncio de segredos antigos, nas caixas, nas
prateleiras, dentro dos livros.
E calcei-os, aos sapatos. Dei três voltas para a
esquerda, uma volta e meia, mais quatro rodopios para a direita. Parei. Eram perfeitos.
Depois ganharam vida e levaram-me dali, pelas escadas, pelos corredores,
obrigavam-me a bater o pé à menor contrariedade, a saltar para cima das cadeiras,
a subir às árvores.
À meia-noite o meu pai convidou-me para dançar e os
sapatos fizeram-me acertar nos passos e nos tempos e a cabeça a girar e era
aquele um tempo contradito mas favorável aos planetas e às estrelas.
eram estes os sapatos que eu colocava na chaminé todos os natais
nunca me desiludiram, o meu pé é que ficou grande demais
Desejo-vos um Santo Natal e um Feliz Ano Novo