Se eu fosse encenador diria, em cena está apenas uma cadeira pintada de branco, não exatamente ao centro. Vinte centímetros à direita do centro do palco. O pano de fundo é preto, cobre o chão, os lados também. No teto um foco de luz que incide sobre a cadeira pintada de branco, antiga, vulgar. O primeiro personagem é um vendedor de balões, dá dois passos e um contrapasso, os balões puxam-no, ele observa a cadeira, finge limpar-lhe o pó, baixa-se, diz-lhe um segredo, ata às costas da cadeira o cordel que prende os balões e sai de cena. O segundo personagem é um rapaz distraído a puxar uma trela e uma coleira de cão sem cão. Dá três voltas à cadeira, o cão que não se vê puxa-o, o cão alça a perna, o rapaz sai a correr e larga a trela e a coleira onde não se vê o cão. A terceira personagem é uma rapariga de vestido preto e cabelos cor de fogo. Como o pano de fundo é preto, brilham os cabelos cor de fogo da rapariga. Traz pela mão uma criança imaginária. O cão que não se vê salta, a criança imaginária ri-se, a rapariga retira dois dos balões presos à cadeira, ata o cordel de um, ao pulso da criança e o cordel do outro à cauda do cão. A rapariga faz uma festa à cadeira e saem de cena.
O número de personagens pode ser infinito, têm em comum a
ausência de palavras e o facto de nunca se cruzarem. O diálogo corporal é com a
cadeira.
Esta permanece insonora e imóvel mas é o centro da ação
vinte centímetros à direita.
Neste instante, momento, mês, ano, dia, tempo, eu sou um
espaço cénico em profundo preto e desenhada a branco, resta-me apenas uma
cadeira. Por causa da
muralha, nem sempre se consegue ver a lua.
E se eu ainda possuísse um banco antigo, vulgar,
desenhado a branco.
não estou ausente, é apenas uma tardança, um vagar