por causa da muralha nem sempre se consegue ver a lua





Se eu fosse encenador diria, em cena está apenas uma cadeira pintada de branco, não exatamente ao centro. Vinte centímetros à direita do centro do palco. O pano de fundo é preto, cobre o chão, os lados também. No teto um foco de luz que incide sobre a cadeira pintada de branco, antiga, vulgar. O primeiro personagem é um vendedor de balões, dá dois passos e um contrapasso, os balões puxam-no, ele observa a cadeira, finge limpar-lhe o pó, baixa-se, diz-lhe um segredo, ata às costas da cadeira o cordel que prende os balões e sai de cena. O segundo personagem é um rapaz distraído a puxar uma trela e uma coleira de cão sem cão. Dá três voltas à cadeira, o cão que não se vê puxa-o, o cão alça a perna, o rapaz sai a correr e larga a trela e a coleira onde não se vê o cão. A terceira personagem é uma rapariga de vestido preto e cabelos cor de fogo. Como o pano de fundo é preto, brilham os cabelos cor de fogo da rapariga. Traz pela mão uma criança imaginária. O cão que não se vê salta, a criança imaginária ri-se, a rapariga retira dois dos balões presos à cadeira, ata o cordel de um, ao pulso da criança e o cordel do outro à cauda do cão. A rapariga faz uma festa à cadeira e saem de cena.
O número de personagens pode ser infinito, têm em comum a ausência de palavras e o facto de nunca se cruzarem. O diálogo corporal é com a cadeira.
Esta permanece insonora e imóvel mas é o centro da ação vinte centímetros à direita.
Neste instante, momento, mês, ano, dia, tempo, eu sou um espaço cénico em profundo preto e desenhada a branco, resta-me apenas uma cadeira. Por causa da muralha, nem sempre se consegue ver a lua.
E se eu ainda possuísse um banco antigo, vulgar, desenhado a branco.






não estou ausente, é apenas uma tardança, um vagar

memento






É tão pequeno. Maior a cauda achatada, os incisivos dentes. A inquietação líquida dos leitos, a toca que constrói bloqueando as correntes. Porquê ser assim um pé na terra e o outro no rio e as mãos de cinco dedos como se fora gente. A carregar troncos e a amassar pedras e lodo.
São os rapineiros que lhe arrancam a pele, mas ainda assim e porque sim, suspende o ar nos pulmões e vê o que apenas se entende lá em baixo na profundidade da água.
Imagino-o, gota arquitetada e quieta a sonhar represas como nós.




castor é mortal como nós

dez de novembro


Hoje não escrevo nada. À minha direita na caixa de chocolates, escondi as vogais e as consoantes. Para que se adocem. À esquerda, numa folha de papel branco deixei cair com uma pinça os pontos finais. A folha já não é branca, é preta. Como não faço interrogações ou exclamações, não fecho nem abro parênteses e sobretudo não utilizo aspas ou reticências, não preciso do copo de iogurte onde lavo os pincéis.
É assim uma espécie de temperança, de sobriedade desejada, de respigar, ser respigadora do que deixam para trás e eu apanho, como um direito reconhecido, não legislado, desde o início dos tempos. É um abandono do supérfluo.
As maçãs mais pequenas são as que soltam perfume nas fruteiras e no chão dos sótãos onde as alinhavam para que o ar circulasse e não apodrecessem. Quando podíamos ainda arrecadar.
A luz era uma quase penumbra, raios luminosos a entrar pelas claraboias e pelos intervalos das telhas e o pó a desenhar partículas de deus. Nestas pequenas coisas ele não nos desilude.
Quando me der para aí, agito a folha, sopro, e os pontos finais soltam-se como o perfume das maçãs a pairar. Uma e outros, retomarão a forma e a cor primitivas.
O jarro de barro com as folhas quase mortas não tem significado algum.

estivam os ursos, os esquilos as marmotas e os morcegos não

























Sentamo-nos no chão, abrimos o saco de pano onde a avó bordou a ponto cruz as letras do nosso nome e contamos quantas nozes, amêndoas e tangerinas doces.
Depois com uma faca velha e gasta, limpamos a lama dos sapatos e entramos em meias pela porta da cozinha. Nesse instante o avô Joaquim acena-nos um adeus junto do portão mas nenhum de nós o vê e nem é para ver, basta saber que cheirava a tabaco de cachimbo e usava camisas de algodão branco. As senhoras dos retratos parados nas cómodas e nas escrivaninhas esboçam um sorriso e ajeitam o cabelo e o fecho do brinco da orelha esquerda ou o anel, mas este caiu no naperon, que é uma palavra antiga como elas.
Neste dia fazemos um bolo de mel e nozes, porque aprendemos a ler em ponto cruz e a enumerar tangerinas.
Lá fora os ursos de sono leve mal cai novembro e hibernam nos ocos das árvores, os esquilos e os sacos de pano cru.