No tempo em que ainda existiam circos, eu era focinho de
cartaz.
Não percam, senhoras e senhores, meninos e meninas, Evita
a destemida e os seus cães dançarinos.
Os cães não eram meus. Manolito era o treinador, dava-me
uma bolacha se o número corresse bem, disfarçava um puxão de cauda se eu
fizesse asneira. Se lhe rosnava, privava-me do jantar. Manolito nem sequer se
chamava Manuel, era Júlio, mas gostava de imitar os palhaços ricos e falava um
castelhano arrevesado que nem o público entendia. Os cães mais pequenos vestiam
uma jaqueta às riscas com uma flor ao peito, dançavam nas patas traseiras,
davam cambalhotas e agradeciam os aplausos baixando a cabeça. De seguida fazia-se
um silêncio gelado, o tambor rufava baixinho e eu entrava em cena a correr, as
orelhas atiradas para trás, dava várias voltas à pista e o amável público
aplaudia. Manolito lançava arcos de vários tamanhos e eu atravessava-os sem
lhes tocar, uma vez, duas vezes, até ele se cansar. Em seguida prendia-os e
ateava-lhes fogo e eu atravessava-os três vezes, quatro vezes, até ele se
cansar.
Manolito era o meu dono, o dono de Manolito era o dono do
circo, o dono do circo possuía a ilusão de um mundo que já terminara.
Meu amigo verdadeiro, era o rapaz que engolia fogo. Tínhamos
isso em comum, o fogo. Ele não gostava de Manolito, achava-o cobarde. Dizia-lhe,
tu é que devias atravessar arcos a arder e dançar como um cãozinho humilhado,
sem ração, sem festas ao fim do dia.
Às vezes lutavam, e o rapaz que engolia fogo disfarçava o
negro dos olhos com o negro do querosene a arder. Depois do espetáculo e das
luzes desligadas, já Manolito ressonava, o rapaz que engolia fogo, escondido
nas sombras da noite, abria as gaiolas dos cães e deixava-os livres durante
umas horas. Eu sentava-me com ele na erva molhada e ele contava-me tantas
coisas que eu não sabia e tinha sonhos tão longe do circo e do fogo que lhe
corroía a língua, a garganta, a laringe e até o coração.
- Um dia, o meu coração vai arder, Evita. Como as tuas
orelhas e o pelo da tua cauda. Se temos de correr riscos, que sejam outros
longe daqui. Quando chegar a lua nova, talvez.
Ele falava na lua nova, porque é nela que os seres abandonados
se tornam ainda mais pequenos, quase invisíveis, impercetíveis. Depois dava uma
gargalhada para afastar o medo e partilhava comigo uma barra de chocolate de
leite. Afinal era apenas um rapaz.
Passaram-se muitas luas novas, crescentes, gibosas, cheias, balsâmicas,
minguantes, novas.
Uma noite, o coração do rapaz que engolia fogo, ardeu. Júlio,
mais conhecido por Manolito, fez troça. Os cães dançarinos que vestiam jaquetas às
riscas, recusaram as flores ao peito e eu doida de raiva, rosnei e mordi-lhe a mão
direita. Se tenho de correr riscos, que sejam outros longe daqui. Escapei-me, fugi,
corri, desapareci. Fiz-me sombra invisível em noite sem lua.
Agora escolhi um dono, não foi ele que me escolheu a mim.
retratos quase vadios
parte segunda: Evita