II - a eternidade é um lugar


Quis dizer-lhe, perdoa-me, agora serei eu a tomar conta de ti. Mas a voz escondeu-se algures entre os pulmões e a laringe. Pegou-lhe com cuidado, colocou-o sobre o ombro direito e ele firmou as patas traseiras e equilibrou-se. Começaram a andar. Como um reflexo para afastar o medo, quase escondidos, colados aos muros. O guardião-inseto ainda não se habituara ao seu próprio corpo, mas à medida que avançavam percebeu que tudo mudara. A orelha do rapaz era enorme e o cabelo que lhe batia no pescoço, um matagal. Quando ganhou coragem e olhou para o chão, os pés do rapaz pareceram-lhe duas catapultas, para trás e para a frente a atirar ervas ao ar. Sentiu uma tontura e esticando as patas lançou-se num enorme salto aterrando dois metros mais à frente. Foi tão inesperado que desatou a rir e o rapaz, esquecida a angústia que até aí o habitara, foi contagiado e riram os dois durante aquilo que lhes pareceu uma eternidade. O guardião-inseto, quando era apenas guardião, nunca tinha sorrido sequer, quanto mais rido. Também não tinha sonhado, mas isso, ele ainda não podia saber.
Por precaução afastaram-se das grutas e das aranhas e em todo o caminho percorrido jamais o guardião perguntou ao rapaz, o que viste dentro da gruta daquele que eu servia e que se revelou tão cruel para mim? Já não lhe interessava e embora na aparência inseto, sentia-se agora mais humano do que antes.
Foi então que entraram numa terra estranha e já todos conheciam a sua história, que como todas as sagas, precede muitas vezes os acontecimentos que descrevemos. Construíram uma casa de madeira com sete janelas, duas chaminés, uma varanda toda à volta onde pousavam os pássaros e duas enormes portadas verde-esmeralda. Muitas outras casas foram sendo construídas e a deles era a terceira a contar do início da rua. O rapaz fez-se jardineiro e o inseto roía.
Passaram-se muitos anos e o rapaz cresceu e depois envelheceu, mas o guardião-inseto não. Tinha sempre aquele ar de jovem couraçado a quem ninguém ousa fazer mal e um dia ganhou asas e umas antenas de ouvir silêncios. E o rapaz que já era um homem muito velho, disse-lhe, vou-me embora, fazer as viagens que desejei. E acrescentou, não te esqueças de mim.
Como nem todas as coisas têm uma razão plausível, o guardião-inseto não se entristeceu, não se inquietou. E nessa noite sonhou que nascia, outra vez homem.








I - ainda agora anoiteceu




Há um primeiro voo de morcego. Entre o candeeiro de rua e o muro pintado de branco contam-se dez paralelepípedos e a lua não está visível. Este instante é lusco, desfoca os objetos, disforma-os, é um ser que perdeu um olho à procura da noite. As mães chamam os filhos distraídos a brincar pelos quintais e repetem três vezes, vem para casa, vem para casa, vem para casa. Como se fora uma reza, uma encomendação. Os animais de pelo macio deixam as tocas, levantam o focinho a cheirar o ar, pacíficos e curiosos. As crias saciadas de alimento e conforto, enroscam-se, talvez sonhem, ou talvez não. A ser este um território apenas humano, como explicaríamos a existência dos seres fantásticos que o povoam.
Era uma vez o guardião de uma gruta escondida na rocha, tapada por uma pedra gigante que jamais alguém fora capaz de deslocar. O seu senhor dissera-lhe, guardarás esta entrada de noite e de dia, com o frio ou o calor, como se lá dentro estivesse o teu bem mais precioso, que neste caso é o meu, e não farás perguntas nem tentarás sequer espreitar pela fresta mais fina ou por outro lugar. Ele disse, sim meu senhor.
Pacientemente guardava a pedra e a gruta e o bem mais precioso do seu senhor. Nos dias escaldantes suava e o suor penetrava na armadura e queimava-lhe a pele abrindo-lhe feridas que muito doíam, mas não se queixava o guardião. Nas noites estreladas olhava as estrelas e sabia de cor a posição de cada uma delas em relação a si, à pedra e à gruta. Foi então que apareceu um rapaz magro que parecia cansado e perdido e o guardião disse-lhe, bebe da minha água e descansa no meu cobertor.
Ele bebeu e dormiu trinta horas seguidas e ficaram amigos os dois.
A terceira casa a contar do início da rua parece abandonada. As enormes portadas de madeira envelhecida têm a tinta lascada e permanecem sempre abertas. A hera cresceu e multiplicou-se, sufocou as laranjeiras, apertou as figueiras e mal respiram os figos e as laranjas amargas. A caixa do correio permanece intacta e todas as quintas feiras o carteiro aí deposita um sobrescrito da mesma cor das portadas de madeira envelhecida.
No entanto, as aves fizeram ninhos nos ramos e o cheiro da magnólia persiste.

Uma noite, o rapaz não resistiu. Deslocou uma pedra saliente, outra e ainda mais uma e pelo buraco formado na gruta, espreitou. E deu um imenso grito.
O guardião tremeu e empalideceu e soltou uma lágrima redonda que rolou pelo chão. Mas o senhor, impiedoso e grosseiro, transformou-o num inseto sem asas.
A lua é plena no calendário lunar.



























ínfimo






Preciso apenas de alguns segundos para escrever este instante. Partícula e filamento.
A dourar setembros nos vinhedos e nas figueiras bravas, os muros de pedra solta, as lagartixas ao sol. Os frutos já se metamorfosearam em crisálidas doces, enfrascados, ébrios de fervura e pau de canela. No inverno a escassez apertará e o que é excessivo hoje, fará falta amanhã. Pelas ruas desliza o cheiro a mosto, a uva de mesa é moscatel e eu gosto dela com pão e manteiga.
As noites ainda são de estrelas e a minha irmã diz poemas na companhia dos grilos e das cigarras. Perdemo-nos de riso mas encontramo-nos logo a seguir.
No último dia de setembro juntamo-nos no pátio das traseiras e o meu pai pega na câmara Kodak e monta o tripé. As pernas inquietas e queimadas pelo sol, os dentes brilhantes a rir disparates e o cão aos saltos a lamber toda a gente. Estranha, a ausência final de som. 
Ao lado deste retrato a preto e branco, permanece um copo de vidro transparente. Vulgar, banal. E um fio de alfazema a secar.

quimera









O leopardo, ardo, ardo, uge-leopardo do fundo do mar

veio um peixe-tolo, tão tolo, tão peixe sem jeito para nadar

agitou a barbatana caudal, grotesca, cómica, improvável na geografia submarina ou até lunar e borbulhando oxigénio, marulhou:

eu vi uma menina pequenina, magrinha, o que faz ela aqui, tanto perigo nas rochas e o medo do leão que é cabra e dragão

ou fantasia
ilusão

E os peixes entoaram a nota lá, do lado de lá, embalaram os caranguejos e as anémonas, os navios e os faróis, as estrelas e os cavalos marinhos, as quimeras e os desejos de sal

que dá sabor às utopias









para a M. M. porque ainda é pequenina