antes do equinócio







Às vezes dava-lhe para ali, sentava-se e cruzava os braços. Eu admirava-lhe a destreza e o equilíbrio e ele atirava, provocador, vais ficar aqui, o verão todo, a criar limo? Depois ria-se fazendo estalar as ventosas, e de repente descruzava os braços espadanando água e algas por todos os lados.
Não sei como é que eu entendia a sua linguagem e ele a minha. Ele sabia dos náufragos e das grutas, dos argonautas, dos chocos e das lulas vampiras, que afinal não são vampiras. Eu sabia apenas do cheiro da água do mar à noite na maré vaza e de quanto é difícil regressar a casa.
Muito antes do equinócio a praia enche-se de conchas e de búzios numa premonição de orelhas coladas, ouves o oceano, o marulhar, sim ou não.
E ele calçava as luvas de concha e sapateava rochas fora, a música na cabeça das ondas, a desafiar caranguejos e mexilhões.

































pintaram as casas de branco

uma risca azul a lembrar o mar











Vieram então todos os peixes. Os marinhos e os de água doce, os tropicais, os equatoriais, os atlânticos e sobretudo os pacíficos.
Despiram-se de escamas e de ruídos, leves, eólicos, cintilantes. O peixe pico picou o caminho marítimo dos corais, os outros seguiram-no.
As algas lembravam os arrozais se por um acaso o mar ainda fosse terra e as cigarras cantassem o magnífico verão.
























desejo-vos um verão feliz

até já!











olhos de peixe




Oscilamos, damos meia volta, as barbatanas dorsais são filamentos de emalhar.
Trocamos os pulmões por guelras, perdemos as pálpebras, dormir é um estado de vigília apenas alerta para os predadores, os que nos engolem num ai.
Minimizamo-nos no verão. Guardamos as palavras em sal, colocamo-las ao sol, para que perdurem em tempos de escassez. Como os figos lampos nos terraços do sotavento.



Quentes são as noites e as estrelas maiores vistas do fundo com olhos de peixe.