Às vezes dava-lhe para ali, sentava-se e cruzava os
braços. Eu admirava-lhe a destreza e o equilíbrio e ele atirava, provocador,
vais ficar aqui, o verão todo, a criar limo? Depois ria-se fazendo
estalar as ventosas, e de repente descruzava os braços espadanando água e algas
por todos os lados.
Não sei como é que eu entendia a sua linguagem e ele a
minha. Ele sabia dos náufragos e das grutas, dos argonautas, dos chocos e das
lulas vampiras, que afinal não são vampiras. Eu sabia apenas do cheiro da água
do mar à noite na maré vaza e de quanto é difícil regressar a casa.
Muito antes do equinócio a praia enche-se de conchas e de
búzios numa premonição de orelhas coladas, ouves o oceano, o marulhar, sim ou não.
E ele calçava as luvas de concha e sapateava rochas fora,
a música na cabeça das ondas, a desafiar caranguejos e mexilhões.