pintaram as casas de branco

uma risca azul a lembrar o mar











Vieram então todos os peixes. Os marinhos e os de água doce, os tropicais, os equatoriais, os atlânticos e sobretudo os pacíficos.
Despiram-se de escamas e de ruídos, leves, eólicos, cintilantes. O peixe pico picou o caminho marítimo dos corais, os outros seguiram-no.
As algas lembravam os arrozais se por um acaso o mar ainda fosse terra e as cigarras cantassem o magnífico verão.
























desejo-vos um verão feliz

até já!











olhos de peixe




Oscilamos, damos meia volta, as barbatanas dorsais são filamentos de emalhar.
Trocamos os pulmões por guelras, perdemos as pálpebras, dormir é um estado de vigília apenas alerta para os predadores, os que nos engolem num ai.
Minimizamo-nos no verão. Guardamos as palavras em sal, colocamo-las ao sol, para que perdurem em tempos de escassez. Como os figos lampos nos terraços do sotavento.



Quentes são as noites e as estrelas maiores vistas do fundo com olhos de peixe.







leo





Ao entardecer fez-se leão. Encontrou a coragem a vaguear pelas ervas baixas, as pedras altas, uma ou outra ave de arribação. Não rugiu como seria de esperar e os animais das tocas, mais afoitos, sentaram-se com ele, as caudas enroladas à volta das patas dianteiras, o focinho espetado na expectativa das queimadas, dos fogos a consumir o mato.
Pegou-lhe com cuidado e com uma unha afiada fez um lenho no peito e colocou-a rente ao coração. O sangue era vermelho vivo e um pingo caiu na unha do primeiro dedo da pata esquerda.  Ele lambeu-a. Era doce como antes.






Contou apenas três árvores e recontou-as com medo que a morte o viesse buscar, mas não veio. Os outros leões rondaram-no, curiosos e desconfiados. Elevaram as narinas a cheirar o ar que ele respirava, observaram o pelo amarelo mascavado, a tranquilidade cor de oliveira dos olhos e desconcertados, deixaram-no em paz.
Ao longe o vento do deserto mudou as dunas de lugar, desenhou trilhos, destapou os panos escondidos pelas tempestades e um compasso antigo de marear.









Na quietude da lua fez-se pequeno a acreditar num tempo bom de feras mansas. E partiu em busca dos marinhos leões.