O ar estava carregado, numa recusa em entrar pelas
narinas e circular, vaguear até aos pulmões, num prenúncio de tempestade seca,
que magoa, faz doer.
Pior que o trovão, a hiena, mais assustador que o vento
seco, o leopardo. Leão, o rei, convocou todos os animais e disse-lhes que era o
mais bonito, o mais rápido corredor de curtas distâncias, o mais alto dos
felinos, o que possuía os dentes mais afiados a rasgar a carne das presas, o
que rugia em tons mais graves. Eva troçou dele, mais alta seria ela quando
acabasse de crescer. Mas a sua voz mal se ouvia, assim era a sua natureza de
girafa. Também lhe faltava um corno, aquele que deveria crescer no meio da
testa. Ao nascer, caíra de uma altura de dois metros e batera com a cabeça numa
pedra. Não deveria estar ali, a pedra. Mas estava. A mãe distraíra-se com as
folhas tenras das acácias, naquela compulsão diária que obriga estes seres a
mastigar, a ruminar quase tantas horas como aquelas que o dia tem. Chamara-lhe
Eva, por ser única e primeira. O deserto avançava e trazia o que possuem de
belo as noites profundas de calor, o crepitar irreal das estrelas.
Eva era independente e solitária. Sem o apetite devorador
dos seus pares, afastava-se, curiosa e concentrada, o nariz para cima, o
pescoço pouco flexível, as pernas dianteiras uns centímetros mais compridas do que
as traseiras, os olhos imensos e pestanudos. Quando se sentia cansada,
deitava-se e dormia, que é uma coisa que nenhuma girafa ousa fazer. Se um
predador atacasse, a falta de agilidade ser-lhe-ia fatal e não teria tempo de
se levantar.
No entanto o leão tinha bom ouvido e apesar do ribombar
súbito da trovoada descobriu-a no meio dos felinos, enfureceu-se e rugiu incitando-os à caçada. Eva sentiu o perigo, desejou ser apenas olhos,
mas foi pernas, ganhou velocidade, as girafas adultas alcançaram-na,
rodearam-na e correram juntas mais um quilómetro. Depois pararam subitamente e
entre as árvores foram troncos, mimeticamente semelhantes, os pescoços
entrelaçados, os músculos tensos, as patas firmes na terra.
Os leões, os leopardos e as hienas deambularam humilhados
durante dois dias.