Ao entardecer fez-se leão. Encontrou a coragem a vaguear
pelas ervas baixas, as pedras altas, uma ou outra ave de arribação. Não rugiu
como seria de esperar e os animais das tocas, mais afoitos, sentaram-se com
ele, as caudas enroladas à volta das patas dianteiras, o focinho espetado na
expectativa das queimadas, dos fogos a consumir o mato.
Pegou-lhe com cuidado e com uma unha afiada fez um lenho
no peito e colocou-a rente ao coração. O sangue era vermelho vivo e um pingo
caiu na unha do primeiro dedo da pata esquerda.
Ele lambeu-a. Era doce como antes.
Contou apenas três árvores e recontou-as com medo que a
morte o viesse buscar, mas não veio. Os outros leões rondaram-no, curiosos e
desconfiados. Elevaram as narinas a cheirar o ar que ele respirava, observaram
o pelo amarelo mascavado, a tranquilidade cor de oliveira dos olhos e
desconcertados, deixaram-no em paz.
Ao longe o vento do deserto mudou as dunas de lugar,
desenhou trilhos, destapou os panos escondidos pelas tempestades e um compasso
antigo de marear.
Na quietude da lua fez-se pequeno a acreditar num tempo
bom de feras mansas. E partiu em busca dos marinhos leões.