leo





Ao entardecer fez-se leão. Encontrou a coragem a vaguear pelas ervas baixas, as pedras altas, uma ou outra ave de arribação. Não rugiu como seria de esperar e os animais das tocas, mais afoitos, sentaram-se com ele, as caudas enroladas à volta das patas dianteiras, o focinho espetado na expectativa das queimadas, dos fogos a consumir o mato.
Pegou-lhe com cuidado e com uma unha afiada fez um lenho no peito e colocou-a rente ao coração. O sangue era vermelho vivo e um pingo caiu na unha do primeiro dedo da pata esquerda.  Ele lambeu-a. Era doce como antes.






Contou apenas três árvores e recontou-as com medo que a morte o viesse buscar, mas não veio. Os outros leões rondaram-no, curiosos e desconfiados. Elevaram as narinas a cheirar o ar que ele respirava, observaram o pelo amarelo mascavado, a tranquilidade cor de oliveira dos olhos e desconcertados, deixaram-no em paz.
Ao longe o vento do deserto mudou as dunas de lugar, desenhou trilhos, destapou os panos escondidos pelas tempestades e um compasso antigo de marear.









Na quietude da lua fez-se pequeno a acreditar num tempo bom de feras mansas. E partiu em busca dos marinhos leões.

eva




O ar estava carregado, numa recusa em entrar pelas narinas e circular, vaguear até aos pulmões, num prenúncio de tempestade seca, que magoa, faz doer.
Pior que o trovão, a hiena, mais assustador que o vento seco, o leopardo. Leão, o rei, convocou todos os animais e disse-lhes que era o mais bonito, o mais rápido corredor de curtas distâncias, o mais alto dos felinos, o que possuía os dentes mais afiados a rasgar a carne das presas, o que rugia em tons mais graves. Eva troçou dele, mais alta seria ela quando acabasse de crescer. Mas a sua voz mal se ouvia, assim era a sua natureza de girafa. Também lhe faltava um corno, aquele que deveria crescer no meio da testa. Ao nascer, caíra de uma altura de dois metros e batera com a cabeça numa pedra. Não deveria estar ali, a pedra. Mas estava. A mãe distraíra-se com as folhas tenras das acácias, naquela compulsão diária que obriga estes seres a mastigar, a ruminar quase tantas horas como aquelas que o dia tem. Chamara-lhe Eva, por ser única e primeira. O deserto avançava e trazia o que possuem de belo as noites profundas de calor, o crepitar irreal das estrelas.
Eva era independente e solitária. Sem o apetite devorador dos seus pares, afastava-se, curiosa e concentrada, o nariz para cima, o pescoço pouco flexível, as pernas dianteiras uns centímetros mais compridas do que as traseiras, os olhos imensos e pestanudos. Quando se sentia cansada, deitava-se e dormia, que é uma coisa que nenhuma girafa ousa fazer. Se um predador atacasse, a falta de agilidade ser-lhe-ia fatal e não teria tempo de se levantar.
No entanto o leão tinha bom ouvido e apesar do ribombar súbito da trovoada descobriu-a no meio dos felinos, enfureceu-se e rugiu incitando-os à caçada. Eva sentiu o perigo, desejou ser apenas olhos, mas foi pernas, ganhou velocidade, as girafas adultas alcançaram-na, rodearam-na e correram juntas mais um quilómetro. Depois pararam subitamente e entre as árvores foram troncos, mimeticamente semelhantes, os pescoços entrelaçados, os músculos tensos, as patas firmes na terra.
Os leões, os leopardos e as hienas deambularam humilhados durante dois dias.

ai quem lhe dera




O peixe escasseava. Saberiam alguns explicar porquê, ele não. Escolhia um ramo perto da água e permanecia imóvel, concentrado, os olhos atentos. Um voo a pique, o bico entreaberto e picava o peixe incauto distraído com os girinos e as crisófitas. Depois disparava um azul rasante, uma flecha à superfície líquida da água.
Martim-pescador, pica-peixe, espreita-marés. São muitos os nomes que lhe dão e que ele ignora.
Às vezes com o olho direito fixava a água do rio e com o olho esquerdo a lua no horizonte. E o bico que bicava o peixe incauto atirava-lhe, eu sou o guarda-rios, guardo-os comigo, ai quem me dera. A lua aluada minguava e crescia ai quem lhe dera ser água ou rio ou planeta alado a rasar constelações.
E ria o guarda-rios e um dia guardou-os tanto que os levou embora.






e as garças cinzentas os corvos marinhos e os alfaites no sapal





- Se eu voar.
- Tu voas.
- Não. Quero dizer, se abrir as asas mesmo parado, a quilha a cortar os mosquitos sobre a água, colocar a cabeça um pouco para trás, esvaziá-la. Apagar a memória de algas e crustáceos e este rio.
- Este rio. Trocarias este rio por outro qualquer.
- Qualquer, não. Um escolhido por mim, mais salgado.
- Não tens escolha.
O flamingo hesitou. Não sabendo o que responder limitou-se a erguer e a baixar o bico duas vezes. O flamingo cor de salmão encolheu a perna esquerda e lançou-lhe um olhar penetrante.
- Todos os dias duvido de deus.




















Um pequeno barco a motor cortou o silêncio e fez ondular ligeiramente a água. Uma tainha encontrou o caminho para o mar.
É uma dúvida sistemática, cansativa. Depois abranda, desaparece, deus queira. A fragilidade do branco manifestava-se em pinceladas de rosa pálido e a temperatura do ar caiu de repente. Nos terrenos alagadiços, nos sapais, o entardecer anuncia-se desta forma.
As outras aves, curiosas, foram-se aproximando, as narinas dilatadas pelo prazer, pata aqui, pata ali, os ossos das pernas eram talos flexíveis, altos, pernaltos na profundidade das águas.
Levantaram voo mal o rio foi estuário e foz. A largura das asas era tal que planava sombra entre as margens.