ai quem lhe dera




O peixe escasseava. Saberiam alguns explicar porquê, ele não. Escolhia um ramo perto da água e permanecia imóvel, concentrado, os olhos atentos. Um voo a pique, o bico entreaberto e picava o peixe incauto distraído com os girinos e as crisófitas. Depois disparava um azul rasante, uma flecha à superfície líquida da água.
Martim-pescador, pica-peixe, espreita-marés. São muitos os nomes que lhe dão e que ele ignora.
Às vezes com o olho direito fixava a água do rio e com o olho esquerdo a lua no horizonte. E o bico que bicava o peixe incauto atirava-lhe, eu sou o guarda-rios, guardo-os comigo, ai quem me dera. A lua aluada minguava e crescia ai quem lhe dera ser água ou rio ou planeta alado a rasar constelações.
E ria o guarda-rios e um dia guardou-os tanto que os levou embora.






e as garças cinzentas os corvos marinhos e os alfaites no sapal





- Se eu voar.
- Tu voas.
- Não. Quero dizer, se abrir as asas mesmo parado, a quilha a cortar os mosquitos sobre a água, colocar a cabeça um pouco para trás, esvaziá-la. Apagar a memória de algas e crustáceos e este rio.
- Este rio. Trocarias este rio por outro qualquer.
- Qualquer, não. Um escolhido por mim, mais salgado.
- Não tens escolha.
O flamingo hesitou. Não sabendo o que responder limitou-se a erguer e a baixar o bico duas vezes. O flamingo cor de salmão encolheu a perna esquerda e lançou-lhe um olhar penetrante.
- Todos os dias duvido de deus.




















Um pequeno barco a motor cortou o silêncio e fez ondular ligeiramente a água. Uma tainha encontrou o caminho para o mar.
É uma dúvida sistemática, cansativa. Depois abranda, desaparece, deus queira. A fragilidade do branco manifestava-se em pinceladas de rosa pálido e a temperatura do ar caiu de repente. Nos terrenos alagadiços, nos sapais, o entardecer anuncia-se desta forma.
As outras aves, curiosas, foram-se aproximando, as narinas dilatadas pelo prazer, pata aqui, pata ali, os ossos das pernas eram talos flexíveis, altos, pernaltos na profundidade das águas.
Levantaram voo mal o rio foi estuário e foz. A largura das asas era tal que planava sombra entre as margens.













Não foi difícil fechar-se na concha. Encolheu um pé, o outro cresceu, o ventre deslizou sobre a rocha. À tona de água as gaivotas guincharam risos de troça mas o homem-búzio fez burriés de mercador e disse, esta é a minha casa. Levou algumas horas a adaptar os olhos ao sal da água, piscou, pestanejou, fechou e abriu as pálpebras. À tardinha era o sol laranja a espelhar azul quando chegou o barco. Pequeno como as pulgas-do-mar, casco acastanhado e a vela recolhida por falta de vento.
O homem-barco gostava de abismos e de tempestades, mareava na calmaria, bocejava em mar chão. E ficou ali parado e deitando a mão à água apanhou o búzio, olhou-o, revirou-o e perguntou, está aí alguém? Estou eu, respondeu o homem-búzio - e mergulha-me se fazes favor, porque a ausência de impulsão faz-me doer as costas. O homem-barco deitou-se de bruços e atirou o búzio à água. Ficaram os dois a olhar um para o outro e a noite chegou e levantou-se uma brisa e o búzio deixou escapar uma enorme bolha de ar e disse, perdão.



Então o homem-barco soltou o velame azul-marinho e dir-se-ia azul-escuro na noite ainda sem estrelas. Os panos estalaram um ruído seco e compassado e largaram rumo ao mar alto. As ondas faziam subir a proa e logo baixava quase a afundar. Os olhos do homem brilhavam como dois faróis, o coração era o leme e os braços os remos. À ré, desfiava o que o atormentava e as partículas de dor pousavam e prateavam a marca de água como se fora rede de emalhar.





Os búzios da maré vaza ecoaram a rota do homem-barco e esperaram por ele nos recifes de coral onde a água é rasa e os peixes-frade nadam aos pares a rezar as matinas pela madrugada.
O homem-barco ancorou os pés na areia e enrolou ao pescoço uma alga marinha. Um instante apenas para descansar.

























o peixe tem saudades do mar


Eu nunca vi o mar. A minha mãe nasceu na montanha, o meu pai na planície. Eu nasci entre os quatro. A minha mãe, o meu pai, a montanha e a planície. Vestiam-me da cor da neve no inverno, das papoilas vermelhas na primavera, das castanhas no outono, das amoras no verão. Quando eles se foram, eu continuei a vestir-me exatamente das mesmas cores para que não se esquecessem de mim.
Se chegavam viajantes vindos de muito longe e eu suspeitava pelo tisnado da pele ou pelo cheiro das roupas, a sua relação, ainda que ínfima, com as praias, não os largava com perguntas e anotava todas as respostas neste caderno, o mesmo a que arranquei duas folhas para te escrever esta carta.
Não me alongarei. Para contar aos outros o maior dos nossos desejos, são quase inúteis as palavras. No momento em que desdobraste o tecido azul e disseste azul-marinho, eu senti a cara cheia de salpicos e eram salgados como os cristais que acrescentamos à sopa, à massa do pão a levedar, ao estufado de cordeiro pela páscoa. Formaram-se ondas à superfície e depois aquele peixe longo a rasar o campo e a pousar no ramo mais alto daquela árvore e eu a pensar que não conheço nada, pois se nunca vi o mar.
Todas as noites trepo à árvore e fico-me ali no alto a ouvi-lo e diz-me que tem fome de plâncton e de espuma e que partirá em breve e eu sei que apenas espera por mim.
Peço-te que me emprestes um pedaço grande do teu pano azul-marinho para que dele faça uma vela para um barco e um vestido dessa cor que eu ainda não vesti. Deixo-te ficar o Loris, toma conta dele como se fosse teu. Ele é manso, tímido, afetuoso e muito inteligente, não te irá jamais desiludir. Cabe no bolso da tua camisa e gosta de escutar o bater do coração. Quando eu voltar não terei dificuldade em vos encontrar, mas por ora é esta a minha demanda e tudo isto é tão fácil de explicar como de entender.


o peixe-voador










o peixe-frade
que não faz a menor ideia do que está a fazer aqui