O peixe escasseava. Saberiam alguns explicar porquê, ele
não. Escolhia um ramo perto da água e permanecia imóvel, concentrado, os
olhos atentos. Um voo a pique, o bico entreaberto e picava o peixe incauto distraído
com os girinos e as crisófitas. Depois disparava um azul rasante, uma flecha à
superfície líquida da água.
Martim-pescador, pica-peixe, espreita-marés. São muitos
os nomes que lhe dão e que ele ignora.
Às vezes com o olho direito fixava a água do rio e com o
olho esquerdo a lua no horizonte. E o bico que bicava o peixe incauto atirava-lhe,
eu sou o guarda-rios, guardo-os comigo, ai quem me dera. A lua aluada minguava
e crescia ai quem lhe dera ser água ou rio ou planeta alado a rasar
constelações.
E ria o guarda-rios e um dia guardou-os tanto que os
levou embora.