Não foi difícil fechar-se na concha. Encolheu um pé, o
outro cresceu, o ventre deslizou sobre a rocha. À tona de água as gaivotas
guincharam risos de troça mas o homem-búzio fez burriés de mercador e disse,
esta é a minha casa. Levou algumas horas a adaptar os olhos ao sal da água,
piscou, pestanejou, fechou e abriu as pálpebras. À tardinha era o sol laranja a
espelhar azul quando chegou o barco. Pequeno como as pulgas-do-mar, casco
acastanhado e a vela recolhida por falta de vento.
O homem-barco gostava de abismos e de tempestades,
mareava na calmaria, bocejava em mar chão. E ficou ali parado e deitando a mão
à água apanhou o búzio, olhou-o, revirou-o e perguntou, está aí alguém? Estou
eu, respondeu o homem-búzio - e mergulha-me se fazes favor, porque a ausência
de impulsão faz-me doer as costas. O homem-barco deitou-se de bruços e atirou o
búzio à água. Ficaram os dois a olhar um para o outro e a noite chegou e
levantou-se uma brisa e o búzio deixou escapar uma enorme bolha de ar e disse,
perdão.
Então o homem-barco soltou o velame azul-marinho e
dir-se-ia azul-escuro na noite ainda sem estrelas. Os panos estalaram um ruído
seco e compassado e largaram rumo ao mar alto. As ondas faziam subir a proa e
logo baixava quase a afundar. Os olhos do homem brilhavam como dois faróis, o
coração era o leme e os braços os remos. À ré, desfiava o que o atormentava e as
partículas de dor pousavam e prateavam a marca de água como se fora rede de
emalhar.
Os búzios da maré vaza ecoaram a rota do homem-barco e
esperaram por ele nos recifes de coral onde a água é rasa e os peixes-frade
nadam aos pares a rezar as matinas pela madrugada.
O homem-barco ancorou os pés na areia e enrolou ao pescoço uma alga marinha. Um instante apenas para descansar.