Não foi difícil fechar-se na concha. Encolheu um pé, o outro cresceu, o ventre deslizou sobre a rocha. À tona de água as gaivotas guincharam risos de troça mas o homem-búzio fez burriés de mercador e disse, esta é a minha casa. Levou algumas horas a adaptar os olhos ao sal da água, piscou, pestanejou, fechou e abriu as pálpebras. À tardinha era o sol laranja a espelhar azul quando chegou o barco. Pequeno como as pulgas-do-mar, casco acastanhado e a vela recolhida por falta de vento.
O homem-barco gostava de abismos e de tempestades, mareava na calmaria, bocejava em mar chão. E ficou ali parado e deitando a mão à água apanhou o búzio, olhou-o, revirou-o e perguntou, está aí alguém? Estou eu, respondeu o homem-búzio - e mergulha-me se fazes favor, porque a ausência de impulsão faz-me doer as costas. O homem-barco deitou-se de bruços e atirou o búzio à água. Ficaram os dois a olhar um para o outro e a noite chegou e levantou-se uma brisa e o búzio deixou escapar uma enorme bolha de ar e disse, perdão.



Então o homem-barco soltou o velame azul-marinho e dir-se-ia azul-escuro na noite ainda sem estrelas. Os panos estalaram um ruído seco e compassado e largaram rumo ao mar alto. As ondas faziam subir a proa e logo baixava quase a afundar. Os olhos do homem brilhavam como dois faróis, o coração era o leme e os braços os remos. À ré, desfiava o que o atormentava e as partículas de dor pousavam e prateavam a marca de água como se fora rede de emalhar.





Os búzios da maré vaza ecoaram a rota do homem-barco e esperaram por ele nos recifes de coral onde a água é rasa e os peixes-frade nadam aos pares a rezar as matinas pela madrugada.
O homem-barco ancorou os pés na areia e enrolou ao pescoço uma alga marinha. Um instante apenas para descansar.

























o peixe tem saudades do mar


Eu nunca vi o mar. A minha mãe nasceu na montanha, o meu pai na planície. Eu nasci entre os quatro. A minha mãe, o meu pai, a montanha e a planície. Vestiam-me da cor da neve no inverno, das papoilas vermelhas na primavera, das castanhas no outono, das amoras no verão. Quando eles se foram, eu continuei a vestir-me exatamente das mesmas cores para que não se esquecessem de mim.
Se chegavam viajantes vindos de muito longe e eu suspeitava pelo tisnado da pele ou pelo cheiro das roupas, a sua relação, ainda que ínfima, com as praias, não os largava com perguntas e anotava todas as respostas neste caderno, o mesmo a que arranquei duas folhas para te escrever esta carta.
Não me alongarei. Para contar aos outros o maior dos nossos desejos, são quase inúteis as palavras. No momento em que desdobraste o tecido azul e disseste azul-marinho, eu senti a cara cheia de salpicos e eram salgados como os cristais que acrescentamos à sopa, à massa do pão a levedar, ao estufado de cordeiro pela páscoa. Formaram-se ondas à superfície e depois aquele peixe longo a rasar o campo e a pousar no ramo mais alto daquela árvore e eu a pensar que não conheço nada, pois se nunca vi o mar.
Todas as noites trepo à árvore e fico-me ali no alto a ouvi-lo e diz-me que tem fome de plâncton e de espuma e que partirá em breve e eu sei que apenas espera por mim.
Peço-te que me emprestes um pedaço grande do teu pano azul-marinho para que dele faça uma vela para um barco e um vestido dessa cor que eu ainda não vesti. Deixo-te ficar o Loris, toma conta dele como se fosse teu. Ele é manso, tímido, afetuoso e muito inteligente, não te irá jamais desiludir. Cabe no bolso da tua camisa e gosta de escutar o bater do coração. Quando eu voltar não terei dificuldade em vos encontrar, mas por ora é esta a minha demanda e tudo isto é tão fácil de explicar como de entender.


o peixe-voador










o peixe-frade
que não faz a menor ideia do que está a fazer aqui






loris o vagaroso


Levanta-se antes do nascer do sol, coloca a chaleira ao lume e prepara o chá. Come uma taça de arroz que tenha sobrado da véspera, toma banho, arruma a casa e veste-se. Sobre o ombro esquerdo os anilados, sobre o direito, os tecidos cor da terra. Num saco de pano carrega todos os outros que sobram. Quando chega às aldeias escolhe um lugar à sombra e sobre uma esteira estende os tecidos e espera que lhos comprem. Não apregoa, não chama as mulheres, tão pouco os homens. Ele pensa que a melhor forma de levar as pessoas a desejar um pano, é valorizá-lo, dando-lhe espaço e luz, colocando lado a lado a cor que combina, volteando-o, pregueando-o. Quando no olhar de alguém vê refletida a sua imagem, ele percebe que o está prestes a vender. O preço é variável, pode valer duas moedas, um pão, um saco de farinha, uma frigideira, uma lâmpada, um livro. Se não possuem nada, ele desafia-as estendendo-lhes um lápis e duas folhas de papel, escrevam-me uma carta, para que eu não me esqueça de vós.
Muitos chamam-lhe estranho, solitário, desconcertante, uns gostam dele, outros não.
Regressa a casa quando o sol se põe, pousa os tecidos, acende o lume e senta-se na soleira da porta a ler as cartas que lhe escreveram. Depois guarda-as numa capa forrada de papel de arroz onde desenhou um lírio.
Em tempos de fartura, vende todos os seus tecidos, conserta o telhado, compra uma manta nova para a cama e paga os impostos. Nos tempos de míngua, gasta as solas das sandálias, crescem-lhe bolhas nos dedos dos pés, a capa de papel de arroz incha, repleta de cartas. Atravessa as aldeias e vai cada vez mais longe, as pernas a tremer de cansaço, um desânimo a picar-lhe na garganta. Foi num desses dias que ela apareceu, tímida, calada, quase invisível para que não dessem por ela. Colou os olhos a um tecido azul marinho e se por um acaso ele estivesse atento, veria as ondas e os peixes e talvez um cavalo marinho a deslizar. Ele abriu o tecido, balançou-o, ela aproximou-se, tocou-o levemente com as costas da mão e pegando numa ponta, prendeu-o à túnica branca quase transparente que trazia vestida. Do bolso da túnica apareceram duas orelhas e uns olhos pequenos a espreitar.
-Este é o Loris - disse a rapariga. Roubei-o aos vendedores de espécies raras porque o maltratavam.
O mercador de tecidos soltou uma gargalhada e o bicho escondeu-se. A rapariga também se riu e sentando-se no chão junto da esteira, cruzou as pernas, pegou no animal com todo o cuidado e entregou-lho. Devagar, muito devagar, Loris subiu-lhe por um braço agarrando-se nas suas quatro patas, os olhos a fixar tudo em redor, atento, calmo. Quando chegou ao cabelo parou.
- Gosta de ti - disse a rapariga.
O homem tirou do saco uma faca e uma maçã vermelha, partiu-a em pedaços e dividiu-a com a rapariga e com Loris, que comeu devagar.
Do tecido azul marinho saiu um enorme peixe-voador e foi pousar na árvore mais alta.

pimenta do reino








E por fim ri-se. Num gesto ainda bonito, atira para trás os cabelos pretos azeviche, lustrosos como veludo, pega no saco e desce as escadas a correr. Eu aceno-lhe e penso como duas pessoas tão diferentes conseguem ser iguais. Às vezes estamos mais de um ano sem nos vermos e a conversa é reatada no ponto em que ficou e rapidamente unimos os pontos separados e os outros que pintamos por aí. Fazem uma linha.
Lembras-te daquela casa com um portal, duas colunas, a varanda toda à volta e os espanta espíritos que afinal não espantavam nada e até atraiam os morcegos. Lembro-me. Da cozinha negra de carvão, as vasilhas de cobre, o poço. Também. Dos macacos zangados a arrancar telhas, da chuva forte, dir-se-ia eterna, do cheiro da terra. E do rio ao fim do dia. Sim. Divertimo-nos como loucas. Pois foi. Quem diria este tempo desapiedado que estamos a viver agora.
O vendedor de açafrão tem duas filhas esguias como juncos, os cabelos presos numa trança. Um dia rolou um grão de mostarda pelo colo de uma e um grão de pimenta pelo colo da outra. O pai zangado ordenou-lhes, procurem os grãos perdidos, pois um não é nada sem o outro e é com eles que eu encho os sacos para levar ao mercado e compro o arroz que cozinhamos à ceia.
As filhas esguias como juncos e sensíveis como asas de borboleta, desfizeram as tranças e soltaram os cabelos e as lágrimas, e estas eram grãos de água transparente. Procuraram debaixo da mesa, nas gavetas, nas traves do teto, na rua, no mercado, no templo, entre a areia da praia. E as filhas, frágeis como a lua nova, cansadas, adormeceram.   
Desço com ela e apanhamos jarros, margaridas e uma braçada de hortelã. Na cidade as flores estão-lhe distantes e há pouco espaço em redor das casas.
Os jarros não gostam que se lhes corte o pé. Vingam-se largando um líquido castanho que põe nódoas na roupa. Assim nunca mais nos esquecemos.
Foi então que dos sonhos das filhas do vendedor de açafrão surgiu uma ave rara e abriu a sua enorme cauda, estendeu o bico e largou na almofada do pai dois grãos, um de mostarda e outro de pimenta.
Depois pegou nas raparigas esguias como juncos e levou-as para um reino distante.