as canções que a minha mãe me ensinou



















Estaria calor, as andorinhas recém-chegadas, uma promessa de folhas de figueira, uma saudade algures entre o coração e o estalar das telhas de marselha.
Não tinha uma hora certa, era quando lhe apetecia. Calçava as chinelas velhas de borracha, abria a porta e saía para o quintal. Chamava o cão, desenrolava a mangueira, segurava-a e abria a torneira na sua potência máxima. O cão ladrava. Nós ouvíamos estes ruídos em qualquer canto da casa e era um sinal maior de alegria, de liberdade, de loucura consentida. Saltávamos degraus, largávamos as canetas e os cadernos, a faca das batatas, a toalha da mesa. Pelo caminho ficavam os sapatos e as meias e nós descalços aos pulos e aos gritos, mais tarde nus a atravessar o jacto de água, e até doía.
Há um momento em que a realidade se desdobra e estou eu agora aqui deste lado insonoro, apenas a tarde quente e os cristais de luz em cada gota de água. Do outro lado a minha mãe e eu e nós, os cabelos a escorrer, ofegantes e a rir, deitados na relva.




songs my mother taught me das canções ciganas de Dvorak

um dia bonito pá




Prefiro um andamento mais lento. Estou farta do fado, choradinho, do fadinho, que é um destino que se dobra e esconde no bolso. Da samarra. A gola revirada a fazer frente à guarda maldita guarda, acaba com um homem. Acabou com o meu tio Rogério a salto para o outro lado e dele ficou-nos uma fotografia tosca, um rapaz de saias, tão pequeno e inocente e os meus primos gozavam o rapazinho antigo, morto. Eu não, fazia-me pena a ausência daquele tio.
A minha irmã mais velha reprovou duas vezes a Organização Política e Administrativa da Nação porque teimava em responder que o nosso país possuía colónias. São colónias sim. A nossa tia Alice que deus um dia há-de levar tem uma fazenda de café e envia-nos uma carta pelo natal e outra pelo aniversário e escreve, aqui desta colónia de áfrica. A teimosia da minha irmã levou-a a apanhar um enorme estalo da diretora do colégio e foi com tal força que lhe partiu os óculos. À terceira, não saiu no exame a organização das províncias ultramarinas e ela passou.
Nem sei porque vos conto isto, porque foi um dia bonito pá. Não liguem às imagens da época, eramos tão feios, as camisolas apertadas, as calças à boca de sino, os bigodes a cair de cada lado da boca, um corte de cabelo que não lembraria ao diabo. Os campos estavam cobertos de papoilas e de malmequeres silvestres mas mais vermelhos eram os cravos com que nos crucificavam havia décadas.
O meu primo António tinha pesadelos todas as noites, gritava contra as minas e as rajadas de metralhadora, chorava e continuou a chorar nas outras noites. Os seus olhos eram verdes. Também houve quem se fosse embora para ter o direito a não chorar.
Depois nesse dia as portas não foram suficientes para trancar as pessoas, eramos tão bonitos, pá.
Os pais deram a mão aos filhos e com o coração a fugir-lhes do peito, enfeitaram-lhes os cabelos de cravos vermelhos, daqueles perfumados que sobravam nas praças de Lisboa.
Não sei porque vos conto isto, mas quanto mais de cor se entende a história, mais difícil se torna acreditar que somos nós que a escrevemos e se tiver que ser a salto, será, não queremos sonhar noutro lugar, seja este nosso. Pelos dias bonitos, pá.



















III - outro diferente do primeiro



- Quando partimos de um determinado lugar podemos regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro. O mesmo acontece com o tempo, daí a sua circularidade. Compreendes, Zê?
Esta era a voz de Aurora e os sapatos pretos não paravam e Zê abria os olhos imensos no reconhecimento distante de que ela teria decerto razão e quem era ele para questionar tal coisa. No entanto atreveu-se a caracterizar o que procurava, na esperança de que descrevendo a sua terra ela se materializasse mais cedo do que tarde e a passagem perdida fosse apenas a porta onde poderia bater.
E assim foi dando nome ao que lhe recordava o coração e dizia palavras como, pai, casa, árvore, água, framboesa, mergulho, cascata, verde, campo, norte, sul. Rolando, aos pulos, repetia-as, Aurora cantarolava-as, os sapatos batiam o ritmo. E aqui e ali surgia o verde de um campo, a árvore, a casa.
Nem sempre o caminho foi seguro e pelo que nos será dado saber, tiveram de enfrentar a terra escura, o vale das feras enjauladas, a gruta das incertezas e a cobradora de sonhos. Esta última, ao perceber que nem Zê, nem Aurora e muito menos o rato lhe cederiam o mais pequeno dos seus sonhos, levantou o gordo pé direito e pisou com força a cauda de Rolando e este guinchou.
Fugiram dela e dos largos sapatos forrados de pedaços de notas, correram, correram muito e o coração disparou com eles e só muitos quilómetros adiante descansaram deitados na erva, os olhos postos em Vénus que desvanecia. Nesse momento Aurora sentiu um pesado sono invadi-la e compreendeu que não lhe seria permitido continuar. A noite dá lugar à aurora, a madrugada ao dia, este ao entardecer, como o desânimo dará lugar à esperança, completando os círculos imensos que se ligam e desligam, como Zê se ligou a Rolando, como Aurora se ligou a ambos, até ao infinito.
Aurora bocejava, os sapatos aquietavam-se, as meias apagaram a luz aos pirilampos e a sua presença esbatia-se a cada respirar.
-E agora, – disse baixinho Zê, um soluço entalado na garganta – como é que faremos sem ti?
- Apenas têm de seguir o sol, tal como fazem os girassóis amarelos quase laranja – respondeu Aurora.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Rolando e Zê encontraram a passagem secreta que era uma porta mas também não o era, o campo dos girassóis amarelos estava um pouco mais além e os Leonardo receberam Rolando como se fosse um Zê.
O pai, o mergulho, a framboesa, a casa, a cascata, a árvore, o campo, o verde, o irmão, os pontos cardeais e a esperança, materializavam-se à medida que se reconheciam uns aos outros.
E porque quando partimos de um determinado lugar podemos regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro, Rolando, com saudades das fatias de queijo da serra, despediu-se de Zê e voltou para casa.
Estranho, foram os girassóis a crescerem no empedrado que desenhava labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria desajeitada, tosca. E tornaram a rua sossegada menos triste.
terceira e última parte de O estranho caso de Leonardo Zê
em que as sementes de girassol há muito tinham empreendido a viagem de regresso


a cobradora de sonhos
o campo de girassóis amarelos quase laranja









Aurora, Rolando e Zê continuam a encontrar-se nas madrugadas de sábado
umas vezes convidam-me outras não