um dia bonito pá
Prefiro um andamento mais lento. Estou farta do fado,
choradinho, do fadinho, que é um destino que se dobra e esconde no bolso. Da
samarra. A gola revirada a fazer frente à guarda maldita guarda, acaba com um
homem. Acabou com o meu tio Rogério a salto para o outro lado e dele ficou-nos
uma fotografia tosca, um rapaz de saias, tão pequeno e inocente e os meus
primos gozavam o rapazinho antigo, morto. Eu não, fazia-me pena a ausência
daquele tio.
A minha irmã mais velha reprovou duas vezes a Organização
Política e Administrativa da Nação porque teimava em responder que o nosso país
possuía colónias. São colónias sim. A nossa tia Alice que deus um dia há-de levar
tem uma fazenda de café e envia-nos uma carta pelo natal e outra pelo
aniversário e escreve, aqui desta colónia de áfrica. A teimosia da minha irmã
levou-a a apanhar um enorme estalo da diretora do colégio e foi com tal força
que lhe partiu os óculos. À terceira, não saiu no exame a organização das
províncias ultramarinas e ela passou.
Nem sei porque vos conto isto, porque foi um dia bonito
pá. Não liguem às imagens da época, eramos tão feios, as camisolas apertadas,
as calças à boca de sino, os bigodes a cair de cada lado da boca, um corte de
cabelo que não lembraria ao diabo. Os campos estavam cobertos de papoilas e de
malmequeres silvestres mas mais vermelhos eram os cravos com que nos
crucificavam havia décadas.
O meu primo António tinha pesadelos todas as noites,
gritava contra as minas e as rajadas de metralhadora, chorava e continuou a
chorar nas outras noites. Os seus olhos eram verdes. Também houve quem se fosse
embora para ter o direito a não chorar.
Depois nesse dia as portas não foram suficientes para
trancar as pessoas, eramos tão bonitos, pá.
Os pais deram a mão aos filhos e com o coração a
fugir-lhes do peito, enfeitaram-lhes os cabelos de cravos vermelhos, daqueles
perfumados que sobravam nas praças de Lisboa.
III - outro diferente do primeiro
- Quando partimos de um determinado lugar podemos
regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro. O mesmo
acontece com o tempo, daí a sua circularidade. Compreendes, Zê?
Esta era a voz de Aurora e os sapatos pretos não paravam
e Zê abria os olhos imensos no reconhecimento distante de que ela teria decerto
razão e quem era ele para questionar tal coisa. No entanto atreveu-se a
caracterizar o que procurava, na esperança de que descrevendo a sua terra ela
se materializasse mais cedo do que tarde e a passagem perdida fosse apenas a
porta onde poderia bater.
E assim foi dando nome ao que lhe recordava o coração e
dizia palavras como, pai, casa, árvore, água, framboesa, mergulho, cascata,
verde, campo, norte, sul. Rolando, aos pulos, repetia-as, Aurora cantarolava-as,
os sapatos batiam o ritmo. E aqui e ali surgia o verde de um campo, a árvore, a
casa.
Nem sempre o caminho foi seguro e pelo que nos será dado
saber, tiveram de enfrentar a terra escura, o vale das feras enjauladas, a
gruta das incertezas e a cobradora de sonhos. Esta última, ao perceber que nem
Zê, nem Aurora e muito menos o rato lhe cederiam o mais pequeno dos seus sonhos,
levantou o gordo pé direito e pisou com força a cauda de Rolando e este
guinchou.
Fugiram dela e dos largos sapatos forrados de pedaços de
notas, correram, correram muito e o coração disparou com eles e só muitos
quilómetros adiante descansaram deitados na erva, os olhos postos em Vénus que
desvanecia. Nesse momento Aurora sentiu um pesado sono invadi-la e compreendeu
que não lhe seria permitido continuar. A noite dá lugar à aurora, a madrugada
ao dia, este ao entardecer, como o desânimo dará lugar à esperança, completando
os círculos imensos que se ligam e desligam, como Zê se ligou a Rolando, como
Aurora se ligou a ambos, até ao infinito.
Aurora bocejava, os sapatos aquietavam-se, as meias
apagaram a luz aos pirilampos e a sua presença esbatia-se a cada respirar.
-E agora, – disse baixinho Zê, um soluço entalado na
garganta – como é que faremos sem ti?
- Apenas têm de seguir o sol, tal como fazem os girassóis
amarelos quase laranja – respondeu Aurora.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Rolando e Zê encontraram a passagem secreta que era uma
porta mas também não o era, o campo dos girassóis amarelos estava um pouco mais
além e os Leonardo receberam Rolando como se fosse um Zê.
O pai, o mergulho, a framboesa, a casa, a cascata, a
árvore, o campo, o verde, o irmão, os pontos cardeais e a esperança,
materializavam-se à medida que se reconheciam uns aos outros.
E porque quando partimos de um determinado lugar podemos
regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro, Rolando, com
saudades das fatias de queijo da serra, despediu-se de Zê e voltou para casa.
Estranho, foram os girassóis a crescerem no empedrado que
desenhava labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria
desajeitada, tosca. E tornaram a rua sossegada menos triste.
terceira e última parte de O estranho caso de Leonardo Zê
em que as sementes de girassol há muito tinham empreendido a viagem de regresso
a cobradora de sonhos
o campo de girassóis amarelos quase laranja
Aurora, Rolando e Zê continuam a encontrar-se nas madrugadas de sábado
umas vezes convidam-me outras não
II - como uns sapatos pretos alteram o curso da história
Rolando era um rato ágil e esperto. Não existia
contrariedade que o demovesse nem perigo que o fizesse desistir. Conhecedor das
casas, dos esgotos e das ruas, movia-se tão rapidamente que se alguém abrisse a
boca para gritar, olha um rato! não gritava. Porque Rolando já não estava ali.
Também não era fácil admitir que numa cidade como aquela
ainda habitassem roedores e assim ninguém fechava o queijo da serra nos
armários, ou escondia o chouriço de carne na despensa.
Quando o estômago de Leonardo produziu um novo ruído,
Rolando pegou-lhe na ponta da orelha esquerda e disse-lhe:
- Não saias daqui.
Foi num pé e veio no outro, as patas dianteiras
espalharam sobre um guardanapo amarelo duas fatias de tarte de maçã, um paio e
uma perna de frango. A cauda de Zê abanava da esquerda para a direita e minutos
depois apenas restava o guardanapo amarelo. O rato arrotou estrondosamente e Zê
riu-se, depois dobrou o riso e era tão contagiante a sua alegria, que o rato se
rebolava a rir e ficaram com soluços os dois. E Zê disse com se fora muito
pouco:
- Perdi-me.
Foi então que apareceu Aurora. Neste tempo de dias a
crescer, ela chegava sempre mais cedo e trazia consigo o tom azulado daqueles
espaços da fronteira entre o dia e a noite, entre o sonho e o pesadelo, entre a
mágoa e a alegria. Quantas são as vezes em que choramos a rir. Aurora calçava
uns sapatos pretos, meias vermelhas de acordar pirilampos e sapateava nas
pedras da calçada, nos paralelepípedos dos passeios, nas tampas dos esgotos.
Conhecia as passagens secretas por onde circulam os ratos, as certidões de
nascimento rasgadas em pedacinhos, os pauzinhos de gelado de baunilha. Os
sapatos pretos dançavam e o clap clap clap das solas pretas desacertavam o
passo com os ti ti ti ti dos despertadores e as pessoas adormecidas viravam-se
para o outro lado e dormiam mais duas horas com se fossem dez.
Zê continuou:
- Procuro o campo dos girassóis amarelos.
Aurora parou de sapatear e virando-se para o rato
perguntou:
- E esse aí, é um cão perdido?
Aurora e o rato olharam Leonardo que tinha parado de rir
e este respondeu:
- Eu sou Zê da tribo dos Leonardo.
E na antemanhã, Rolando, o rato, e Leonardo Zê, seguiram
os sapatos pretos de Aurora em busca da passagem perdida que os levasse ao
campo dos girassóis amarelos quase laranja.
A cauda de Zê apontava o norte.
foi num pé e veio no outro
o estranho caso de Leonardo Zê, parte segunda
em que o rumo perde a história para a voltar a encontrar
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