- Quando partimos de um determinado lugar podemos
regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro. O mesmo
acontece com o tempo, daí a sua circularidade. Compreendes, Zê?
Esta era a voz de Aurora e os sapatos pretos não paravam
e Zê abria os olhos imensos no reconhecimento distante de que ela teria decerto
razão e quem era ele para questionar tal coisa. No entanto atreveu-se a
caracterizar o que procurava, na esperança de que descrevendo a sua terra ela
se materializasse mais cedo do que tarde e a passagem perdida fosse apenas a
porta onde poderia bater.
E assim foi dando nome ao que lhe recordava o coração e
dizia palavras como, pai, casa, árvore, água, framboesa, mergulho, cascata,
verde, campo, norte, sul. Rolando, aos pulos, repetia-as, Aurora cantarolava-as,
os sapatos batiam o ritmo. E aqui e ali surgia o verde de um campo, a árvore, a
casa.
Nem sempre o caminho foi seguro e pelo que nos será dado
saber, tiveram de enfrentar a terra escura, o vale das feras enjauladas, a
gruta das incertezas e a cobradora de sonhos. Esta última, ao perceber que nem
Zê, nem Aurora e muito menos o rato lhe cederiam o mais pequeno dos seus sonhos,
levantou o gordo pé direito e pisou com força a cauda de Rolando e este
guinchou.
Fugiram dela e dos largos sapatos forrados de pedaços de
notas, correram, correram muito e o coração disparou com eles e só muitos
quilómetros adiante descansaram deitados na erva, os olhos postos em Vénus que
desvanecia. Nesse momento Aurora sentiu um pesado sono invadi-la e compreendeu
que não lhe seria permitido continuar. A noite dá lugar à aurora, a madrugada
ao dia, este ao entardecer, como o desânimo dará lugar à esperança, completando
os círculos imensos que se ligam e desligam, como Zê se ligou a Rolando, como
Aurora se ligou a ambos, até ao infinito.
Aurora bocejava, os sapatos aquietavam-se, as meias
apagaram a luz aos pirilampos e a sua presença esbatia-se a cada respirar.
-E agora, – disse baixinho Zê, um soluço entalado na
garganta – como é que faremos sem ti?
- Apenas têm de seguir o sol, tal como fazem os girassóis
amarelos quase laranja – respondeu Aurora.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Rolando e Zê encontraram a passagem secreta que era uma
porta mas também não o era, o campo dos girassóis amarelos estava um pouco mais
além e os Leonardo receberam Rolando como se fosse um Zê.
O pai, o mergulho, a framboesa, a casa, a cascata, a
árvore, o campo, o verde, o irmão, os pontos cardeais e a esperança,
materializavam-se à medida que se reconheciam uns aos outros.
E porque quando partimos de um determinado lugar podemos
regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro, Rolando, com
saudades das fatias de queijo da serra, despediu-se de Zê e voltou para casa.
Estranho, foram os girassóis a crescerem no empedrado que
desenhava labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria
desajeitada, tosca. E tornaram a rua sossegada menos triste.
terceira e última parte de O estranho caso de Leonardo Zê
em que as sementes de girassol há muito tinham empreendido a viagem de regresso
a cobradora de sonhos
o campo de girassóis amarelos quase laranja
Aurora, Rolando e Zê continuam a encontrar-se nas madrugadas de sábado
umas vezes convidam-me outras não