I - da incapacidade do olhar


Era uma rua sossegada, quase triste. O empedrado desenhava labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria desajeitada, tosca. As casas colavam-se às portas, as portas às janelas, as escadas por ali acima e os telhados subiam ao céu. Se chovia, fechava-se uma cortina espessa e os habitantes diziam, que saudades do verão. Se o sol regressava, os olhos ganhavam outro brilho e assim alternavam sentimentos de ganhos e perdas e a vida corria devagar ou depressa consoante a esperança de cada coração.
Às vezes apareciam uns sapatos perdidos, ou uma frase incompleta caída no chão, tudo o mais era monótono, repetitivo, baço.
Quando chegou, ninguém deu por ele. Levantou a tampa das águas pluviais, esgueirou-se até ao passeio, sacudiu as enormes orelhas e sentiu o estômago roncar de fome. Ergueu o nariz e como não lhe cheirou a nada, engoliu em seco e suspirou. A seu lado as botas verde alface deram um passinho de riso, um tudo ou nada saturadas de água. Ele fingiu que não as conhecia, o que era verdade pois nunca tinha visto umas botas. E por esta ordem passou por ele um polícia, dois rapazes, uma freira, um professor, três raparigas aos gritos, uma senhora gorda e uma sombrinha azul. Não o viram.
E da manhã veio a tarde, os pássaros agitavam as folhas verdes como se fora o vento e as pessoas apressadas calavam o cansaço e o suor e chegou a noite, um pouco mais escura do que ontem, talvez.
Ele permanecia no mesmo lugar. Uma orelha para cima outra para baixo, a cauda virada a sul, as manchas brancas no pelo castanho, a cabeça vigilante.
Foi então que apareceu o rato. Acostumado aos seres das profundezas, à solidão dos subterrâneos, à humildade de quem se cala porque tem muito para falar, não o estranhou. Pé ante pé, cheirou-o, sentou-se a seu lado, pata contra pata, a cabeça vigilante. E permaneceram os dois no mesmo lugar.



o estranho caso de Leonardo Zê, parte primeira








Rolando, o rato





Zê, Leonardo







pela madrugada arrefece sempre um pouco


Quando deixar a cidade quero ir à terra nessa páscoa. Um saco meio vazio atirado para o banco de trás e eu atirada para a frente a ver passar as árvores que dão pássaros.
Quando surgir aquela curva da estrada, não a outra, aquela que eu reconheço pelo contorno violeta das vinhas, sei que estou quase a chegar. A chave debaixo do tapete, o ladrar do cão, a bica de água a correr e a mesa da cozinha. Comprida, de madeira tosca e sólida, a esconder pontapés nas canelas, lágrimas e queixinhas.
Leva farinha, açúcar, leite, manteiga, limão, ovos e fermento. Amassa-se bem, leveda abafado num cobertor, damos-lhe tempo para que cresça, que se faça grande e macio e doce. Vai ao forno pincelado com gema de ovo e três ovos cozidos em cima, come-se ainda quente e recomeça-se tudo de novo. Fazem-se as camas de lavado e discute-se até à exaustão. A paixão, a morte, a indiferença de deus. Os segredos guardam-se por baixo do papel às flores pálidas que forram as gavetas, e na ombreira da escada desenhamos a sangue e canivete o nosso nome e os centímetros de altura.
Pela madrugada arrefece sempre um pouco, mas isso deve-se à deslocação dos medos, umas vezes sonhos, outras não.
Depois renascemos. E a minha mãe e as minhas irmãs acenam-me da soleira da porta, o ladrar do cão e braçadas de papoilas vermelhas.











papaver rhoeas de mb

nos dias mais aguados


Não faz mal, há dias para tudo. Depois da Páscoa pego no meu casaco de veludo preto, um botão de cada cor e vou por aí fora em busca da caneta de tinta permanente que perdi.
Tirava o tinteiro da prateleira da estante, agitava um pouco o frasco e o líquido preto cobria as paredes de vidro. Rodava a tampa para a esquerda e pousava-a em cima da mesa, o tinteiro ao lado. A seguir despojava a caneta das peças que a compunham, carregava na borracha para lhe extrair o ar, mergulhava o aparo e lentamente soltava o dedo polegar. A tinta era sugada fazendo um som voluptuoso, quase obsceno. Fechava a caneta, tapava o tinteiro rodando a tampa para a direita e estávamos prontas para aquela cumplicidade de gestos e de traços.
Muitas vezes me ofereceram recargas de plástico, limpas, práticas, descartáveis, mas não. Eu gostava da tinta Quink, dos dedos sujos, do tinteiro na prateleira da estante, dos desenhos rabiscados na margem dos cadernos a acordar-me longe dali.
Não adiantava dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Simplesmente não é possível escrever com uma caneta que não seja a nossa. O aparo é moldado à pressão da nossa mão, ao tamanho dos dedos, à calma ou agitação que lhe infligimos, ao nosso estado de espírito. A revolta é forçosamente pesada, a alegria enérgica, a tristeza tão mansa. Aparamos o que se torna áspero ou irregular.
E num desajeito, a caneta perdeu-me ou fui eu que a perdi. Comprei uma bic cristal e não adianta dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Não empresto, não posso. Tenho medo que os outros escrevam o que me vai na cabeça, que assinem por baixo, que imaginem por mim.
Nos dias mais aguados dizem que a angústia vem sempre ao de cima, como os corpos dos náufragos, os troncos ocos das figueiras do diabo ou as folhas velhas que perderam o norte à primavera. Talvez.
Nesses dias, seguro entre o dedo polegar e o indicador da mão direita a minha invisível tinta permanente, dedilho o teclado como se fora um piano forte, chamo a luz refletida na água e a paz vem à tona.
Na permanência das coisas que possuímos, a minha caneta é um pássaro preto bico aparo prateado a voar teimoso e fiel sobre o seu país. Para que ele venha à tona e eu acrescente mais um botão a cada cor.
folha sobre luz aguada

fio de uma manhã

Acorda muito cedo naquele primeiro dia. Logo depois dos pássaros, antes do cheiro a café se espalhar pela cozinha. Veste-se, silencioso, rápido, a camisola de lã, a gola puxada até ao queixo, os calções a tiritar joelhos magros, as botas castanhas de pele virada, as meias pelo joelho, uma abaixo outra acima. No bolso guarda um biscoito de mel e azeite e a medalhinha de nossa senhora da conceição. O fio perdeu-o, a medalhinha não.
A chave está na fechadura. Inquieta-se, e se a chave não estiver na fechadura? Está, como sempre esteve. Dá duas voltas, a porta range, ele suspende o movimento, nada mexe na casa adormecida e ele sai para a manhã brilhante de geada, apenas e sofregamente sua.
A bicicleta é encarnada, os rebentos de pessegueiro cor de rosa e os lírios amarelos de cada lado da estrada. Pedala devagar uns minutos, a seguir aumenta a velocidade, o vento cola-se aos lábios, às maçãs do rosto, às narinas. Os olhos bem abertos gotejam uma lágrima ou duas, os cabelos finalmente penteados para trás. Depois tira as mãos do guiador, abre os dois braços em cruz, fecha os olhos e solta-se. O equilíbrio perfeito, a vertigem do absoluto. Não é uma criança, é um movimento acelerado, uma partícula de vida.
Não importa que alguém veja, que lhe falem do risco, que ralhem, que lhe prometam ausência de amêndoas e ovos de chocolate. Ele guarda, esconde, tudo o que um dia lhe possa fazer falta. Pode ser numa caixa, numa gaveta, num saquinho aos quadrados azuis e brancos como os bibes da escola, onde seca as mãos, onde limpa o sangue dos joelhos esfolados. Pode ser no bolso e a medalhinha é testemunha da memória da bicicleta, talvez outro dia.
Regressa e ninguém pergunta nada. Adormece sobre a mesa da cozinha, a chávena de chocolate quente, a torrada a lambuzar manteiga e doce de laranja amarga.


eu tinha uma bicicleta encarnada, acordava o vento nas manhãs de páscoa
e no entanto tenho-a ainda
aquarela de Enrique Ochotorena