Era uma rua sossegada, quase triste. O empedrado desenhava
labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria desajeitada, tosca.
As casas colavam-se às portas, as portas às janelas, as escadas por ali acima e
os telhados subiam ao céu. Se chovia, fechava-se uma cortina espessa e os
habitantes diziam, que saudades do verão. Se o sol regressava, os olhos
ganhavam outro brilho e assim alternavam sentimentos de ganhos e perdas e a
vida corria devagar ou depressa consoante a esperança de cada coração.
Às vezes apareciam uns sapatos perdidos, ou uma frase
incompleta caída no chão, tudo o mais era monótono, repetitivo, baço.
Quando chegou, ninguém deu por ele. Levantou a tampa das
águas pluviais, esgueirou-se até ao passeio, sacudiu as enormes orelhas e
sentiu o estômago roncar de fome. Ergueu o nariz e como não lhe cheirou a nada,
engoliu em seco e suspirou. A seu lado as botas verde alface deram um passinho
de riso, um tudo ou nada saturadas de água. Ele fingiu que não as conhecia, o
que era verdade pois nunca tinha visto umas botas. E por esta ordem passou por
ele um polícia, dois rapazes, uma freira, um professor, três raparigas aos
gritos, uma senhora gorda e uma sombrinha azul. Não o viram.
E da manhã veio a tarde, os pássaros agitavam as folhas
verdes como se fora o vento e as pessoas apressadas calavam o cansaço e o suor
e chegou a noite, um pouco mais escura do que ontem, talvez.
Ele permanecia no mesmo lugar. Uma orelha para cima outra
para baixo, a cauda virada a sul, as manchas brancas no pelo castanho, a cabeça
vigilante.
Foi então que apareceu o rato. Acostumado aos seres das
profundezas, à solidão dos subterrâneos, à humildade de quem se cala porque tem
muito para falar, não o estranhou. Pé ante pé, cheirou-o, sentou-se a seu lado,
pata contra pata, a cabeça vigilante. E permaneceram os dois no mesmo lugar.
o estranho caso de Leonardo Zê, parte primeira
Rolando, o rato
Zê, Leonardo