pela madrugada arrefece sempre um pouco


Quando deixar a cidade quero ir à terra nessa páscoa. Um saco meio vazio atirado para o banco de trás e eu atirada para a frente a ver passar as árvores que dão pássaros.
Quando surgir aquela curva da estrada, não a outra, aquela que eu reconheço pelo contorno violeta das vinhas, sei que estou quase a chegar. A chave debaixo do tapete, o ladrar do cão, a bica de água a correr e a mesa da cozinha. Comprida, de madeira tosca e sólida, a esconder pontapés nas canelas, lágrimas e queixinhas.
Leva farinha, açúcar, leite, manteiga, limão, ovos e fermento. Amassa-se bem, leveda abafado num cobertor, damos-lhe tempo para que cresça, que se faça grande e macio e doce. Vai ao forno pincelado com gema de ovo e três ovos cozidos em cima, come-se ainda quente e recomeça-se tudo de novo. Fazem-se as camas de lavado e discute-se até à exaustão. A paixão, a morte, a indiferença de deus. Os segredos guardam-se por baixo do papel às flores pálidas que forram as gavetas, e na ombreira da escada desenhamos a sangue e canivete o nosso nome e os centímetros de altura.
Pela madrugada arrefece sempre um pouco, mas isso deve-se à deslocação dos medos, umas vezes sonhos, outras não.
Depois renascemos. E a minha mãe e as minhas irmãs acenam-me da soleira da porta, o ladrar do cão e braçadas de papoilas vermelhas.











papaver rhoeas de mb

nos dias mais aguados


Não faz mal, há dias para tudo. Depois da Páscoa pego no meu casaco de veludo preto, um botão de cada cor e vou por aí fora em busca da caneta de tinta permanente que perdi.
Tirava o tinteiro da prateleira da estante, agitava um pouco o frasco e o líquido preto cobria as paredes de vidro. Rodava a tampa para a esquerda e pousava-a em cima da mesa, o tinteiro ao lado. A seguir despojava a caneta das peças que a compunham, carregava na borracha para lhe extrair o ar, mergulhava o aparo e lentamente soltava o dedo polegar. A tinta era sugada fazendo um som voluptuoso, quase obsceno. Fechava a caneta, tapava o tinteiro rodando a tampa para a direita e estávamos prontas para aquela cumplicidade de gestos e de traços.
Muitas vezes me ofereceram recargas de plástico, limpas, práticas, descartáveis, mas não. Eu gostava da tinta Quink, dos dedos sujos, do tinteiro na prateleira da estante, dos desenhos rabiscados na margem dos cadernos a acordar-me longe dali.
Não adiantava dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Simplesmente não é possível escrever com uma caneta que não seja a nossa. O aparo é moldado à pressão da nossa mão, ao tamanho dos dedos, à calma ou agitação que lhe infligimos, ao nosso estado de espírito. A revolta é forçosamente pesada, a alegria enérgica, a tristeza tão mansa. Aparamos o que se torna áspero ou irregular.
E num desajeito, a caneta perdeu-me ou fui eu que a perdi. Comprei uma bic cristal e não adianta dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Não empresto, não posso. Tenho medo que os outros escrevam o que me vai na cabeça, que assinem por baixo, que imaginem por mim.
Nos dias mais aguados dizem que a angústia vem sempre ao de cima, como os corpos dos náufragos, os troncos ocos das figueiras do diabo ou as folhas velhas que perderam o norte à primavera. Talvez.
Nesses dias, seguro entre o dedo polegar e o indicador da mão direita a minha invisível tinta permanente, dedilho o teclado como se fora um piano forte, chamo a luz refletida na água e a paz vem à tona.
Na permanência das coisas que possuímos, a minha caneta é um pássaro preto bico aparo prateado a voar teimoso e fiel sobre o seu país. Para que ele venha à tona e eu acrescente mais um botão a cada cor.
folha sobre luz aguada

fio de uma manhã

Acorda muito cedo naquele primeiro dia. Logo depois dos pássaros, antes do cheiro a café se espalhar pela cozinha. Veste-se, silencioso, rápido, a camisola de lã, a gola puxada até ao queixo, os calções a tiritar joelhos magros, as botas castanhas de pele virada, as meias pelo joelho, uma abaixo outra acima. No bolso guarda um biscoito de mel e azeite e a medalhinha de nossa senhora da conceição. O fio perdeu-o, a medalhinha não.
A chave está na fechadura. Inquieta-se, e se a chave não estiver na fechadura? Está, como sempre esteve. Dá duas voltas, a porta range, ele suspende o movimento, nada mexe na casa adormecida e ele sai para a manhã brilhante de geada, apenas e sofregamente sua.
A bicicleta é encarnada, os rebentos de pessegueiro cor de rosa e os lírios amarelos de cada lado da estrada. Pedala devagar uns minutos, a seguir aumenta a velocidade, o vento cola-se aos lábios, às maçãs do rosto, às narinas. Os olhos bem abertos gotejam uma lágrima ou duas, os cabelos finalmente penteados para trás. Depois tira as mãos do guiador, abre os dois braços em cruz, fecha os olhos e solta-se. O equilíbrio perfeito, a vertigem do absoluto. Não é uma criança, é um movimento acelerado, uma partícula de vida.
Não importa que alguém veja, que lhe falem do risco, que ralhem, que lhe prometam ausência de amêndoas e ovos de chocolate. Ele guarda, esconde, tudo o que um dia lhe possa fazer falta. Pode ser numa caixa, numa gaveta, num saquinho aos quadrados azuis e brancos como os bibes da escola, onde seca as mãos, onde limpa o sangue dos joelhos esfolados. Pode ser no bolso e a medalhinha é testemunha da memória da bicicleta, talvez outro dia.
Regressa e ninguém pergunta nada. Adormece sobre a mesa da cozinha, a chávena de chocolate quente, a torrada a lambuzar manteiga e doce de laranja amarga.


eu tinha uma bicicleta encarnada, acordava o vento nas manhãs de páscoa
e no entanto tenho-a ainda
aquarela de Enrique Ochotorena

II - o imperador











Quando se olhava, via-se outro. Podia ser nas águas paradas do lago dos peixes vermelhos, no olhar das pessoas que o rodeavam, na chapa exterior da fechadura da porta ou tão somente no espelho que o pai lhe tinha deixado como legado.
- Deixo-te esta serra onde cresce o carvalho negral, as aveleiras e os medronheiros, este palácio arruinado e este espelho. Um dia verás como ele é especial – disse-lhe o pai.
E ele olhava-se e via-se pequenino, o manto a roçar o chão, as mangas a sobrarem pano, os sapatos de veludo azul escondidos nos pés quase invisíveis. Sabia-se um homem e o espelho refletia uma criança assustada. Com o passar do tempo habituou-se e desviava o olhar das superfícies lisas e espelhadas.
Na serra coberta de verde existiam muitos e variados reinos e não raras eram as vezes em que se pegavam a discutir e a guerrear. O reino dos seres pacíficos era invejado pelo reino dos seres insuportáveis de rancor. O reino das plantas era aniquilado pelo reino dos destruidores compulsivos. O reino dos homens corajosos vivia em sobressalto temendo a ira dos homens mal falantes. Justificado de uma outra forma, o direito e o avesso de cada reino tal e qual o imperador e a sua imagem no espelho.
O palácio era composto por sete alas, um pavilhão, uma torre sineira e um jardim onde cresciam desordenadamente ervas aromáticas e abóboras-menina. Na primeira ala viviam as crianças órfãs, na segunda ala, os poetas. Na terceira, os que não possuíam casa. Na quarta os que sabiam um ofício e o ensinavam a quem desejava aprender. Na quinta ala, os pássaros exóticos, na sexta, uma companhia de teatro e por fim a sétima e última ala estava reservada aos passantes e a quem, sem destino, lhe apetecesse ficar. Ele, despojado que era de ambições mas repleto de sonhos, habitava os sótãos, onde pelas telhas quebradas umas vezes entrava a chuva, outras não. Era aí que guardava o espelho do pai e pelas janelas de mansarda olhava o longe e a distância da serra ao mar e à noite cantava com saudade dos dias que ainda não tinha vivido.
E ela ouviu-o. Volteou sobre o loureiro, a torre sineira e por fim pousou no parapeito da janela. Ele não se mexeu.
-Parece-me que cheguei – disse a andorinha.
Ele ficou calado, não lhe parecia nada.
-És tu que cantas? A tua fama é maior do que tu - disse a andorinha e sem esperar pela resposta continuou – gosto destas ruínas, daquela torre, posso fazer aqui a minha casa?
E olhou-o e viu-o pequenino e de boca aberta de espanto.
A andorinha ficou e construiu o seu ninho diferente do das outras andorinhas, um túnel perfeito e depois a casa, da lama dos ribeiros onde crescem os freixos e os sanguinhos.
Todos os dias visitava o sótão das telhas quebradas e conversavam os dois, a andorinha dáurica e o imperador. Ele contou-lhe do rapaz assustado que via no espelho, ela disse-lhe que é preciso coragem para atravessar os oceanos.
Uma noite, o espelho refletiu a lua. Abandonado o manto e uns sapatos de veludo azul.

o imperador e a andorinha, segunda e última parte


abandonado o manto e uns sapatos de veludo azul