se até os bolbos florescem

É muito simples. As andorinhas virão depois. Sobre os telhados ou já nem há telhados sobre as coberturas e destas prefiro as de natas batidas com açúcar, um fruto silvestre a rematar. O imperador tinha um espelho que refletia a maldade humana. A andorinha refletia o azul escuro do céu. É a minha história futura.
As massas de ar frio dirigem-se para o equador, são rápidas, fazem descer bruscamente a temperatura junto do solo. Paralelos somos nós perpendiculares ao meridiano.
Nada disto tem a mínima importância para os bolbos. Despontam no outono florescem na primavera. Umas vezes solitários, outras não.
Narciso não possuía um espelho, olhava-se na água dos rios e sabia-se belo. Dizem que se afogou, que era fútil, centrado em si. Gostamos de justificar tudo, de dissecar, de expor pormenores, alíneas, notas, adendas, parênteses, chavetas. Afogamo-nos.
Assim é meu desejo inquietar-vos com uma esperança de primavera fria, de futilidade de natas, açúcar, vasos amarelos levezinhos como cumulus humilis após a tempestade.
Se até eles florescem nem sempre solitários outras sim.
vaso amarelo abolbado à espera do canto das cigarras

corpo menor




Gostava de pedras, dos seixos dos rios, das rochas da praia. Apanhava-as, sentia-lhes o peso, segurava-as entre o polegar e o dedo indicador da mão direita e olhava-as em contra luz. Depois escondia-as nos bolsos das calças e do blusão e carregava-as o dia inteiro se necessário fosse, a professora a perguntar, o que tens, estás tão parado. A recusa no passe da bola e o incómodo na cadeira do refeitório.
Sabia classificá-las, magmáticas, sedimentares, metamórficas, mas não era isso que o fascinava. Era a sua beleza, a forma que as distinguia, a sua solidão. Uma pedra, mesmo junto de outras pedras, parece sempre só. E ele não resistia, levava-as para casa e dava-lhes um lugar, como o lugar dos copos é o armário e o das camisolas, a gaveta da cómoda. As que refletiam a luz ficavam junto das janelas, as mais tristonhas, ao lado da jarra dos amores-perfeitos. As indefinidas, serviam de travão aos livros de ficção para ganharem coragem e imaginação. As redondas, na cabeceira da cama, as irregulares, prendiam os papéis pardos. Como devem decerto saber, os papéis pardos não têm forçosamente de ser cru claro. Este nome deve-se à sua personalidade vincadamente forte e servem para deixar recados que não se entendem, contas que jamais se poderão saldar, ou poemas mancos, daqueles a que sobram rimas e falta talento.
Quando ouvia alguém dizer, tem um coração de pedra, dava-lhe uma raiva, uma ferocidade da qual não se sabia capaz. As pedras são mansas, ouvem-nos, observam, pacificam, não pedem nada em troca, investem no silêncio, e caladas, são incapazes de dizer disparates.
E uma tarde qualquer, vinda do espaço, passou-lhe rente ao peito uma rocha enorme e o coração saltou-lhe como um seixo branco. Disseram-lhe que era aster, uma estrela que tinha perdido o caminho do universo, que era apenas um ponto luminoso ao entardecer, que não voltaria, que era infiel aos homens e sobretudo às crianças, um corpo menor. Ele não acreditou.
E atirou-lhe dois rebentos de oliveira para que dessem fruto na aspereza solitária das travessias.


duas oliveiras e um asteróide de mb





















Escrevo-te na certeza de que entenderás o fio do meu pensamento, como um lago entende um fio de água, como as copas das árvores entendem o sussurrar do vento.
Quis o destino que fosses tu rei e eu o habitante do teu reino e na aparente apatia dos nossos deuses, parece-me ter sido uma decisão acertada. A minha maior ambição era saber porque é que a terra gira em redor do sol e na infinita sucessão dos dias, reconhecer cada um deles pelo que edifiquei de belo e jamais por aquilo que destruí. O que tenho de meu não é palpável, a casa, o forno, a árvore, o cão, a nascente, o celeiro, os pincéis, as tintas e os livros, foram-me cedidos e entregá-los-ei inteiros qualquer dia.
Os meus filhos e as minhas filhas trazem nos olhos o encanto das marés, aquelas que fazem o mar subir e descer pelas areias e as gaivotas gritarem sedentas de azul e de barcos carregados de sardinha.
Quanto a ti, corre-te no sangue a bravura dos guerreiros e falar de paz apenas tem sentido depois de se conhecer o horror da guerra. Delimitaste o teu reino, a norte e a este, a terra. A oeste e a sul, o mar. Muitos outros enclaves conquistaste e foram tantas as línguas que aprendemos, que a nossa, mais doce, mais terna, mais poética, permanece espalhada por aí e há sempre uma palavra que nos diz, eu sei quem tu és.
Se a tua memória for a minha, lembra-te da tarde em que nus, mergulhámos no rio na ignorância de quem era o rei e de quem seria o súbdito, ambos crianças a brincar, que é o destino apetecível de quem tem dez anos de idade e eterno é o verão. 
E fizeste uma promessa qualquer, um dia, um dia quando as laranjeiras estiverem em flor, dou-te um cavalo branco e aprenderás a galopar.
Quantas vezes ao olhar-me ao espelho, eu pensava que a tua face era a minha face e sentia o galopar desse cavalo a descompassar-me o coração. Iguais são os reis e os servos e a diferença é-nos imposta, não está decerto na nossa natureza. A película que reveste uma semente é semelhante à que reveste um homem ou um animal. 
No entanto andam vazios os barcos e as sardinhas não se podem pescar. Os homens inteligentes perderam as saídas para o mar e a estupidez grassa como erva daninha, como eucalipto invasor a abater os pinheirais mansos.
Assim, envio-te daqui num saquinho bordado a ponto cruz, dois grãos de pimenta, três grãos de trigo, duas sementes de trepadeira e esta carta.
A não seres tu rei serei eu quem te empresta um rio.









III - como uma pele fina e macia




Quando nasceu ouviram-se três gritos de uma ave e ninguém soube explicar porquê. A mãe olhou-o, sentiu-lhe o peso, contou dez dedos das mãos e outros dez dedos dos pés, admirou a perfeição das orelhas e a força do choro. Por fim observou que no lugar de cada sobrancelha, pairava uma nuvem branca. Não se assustou, não ouviu os presságios dos falsos magos nem tão pouco as dúvidas das outras mulheres. Chamou-lhe Li e disse, vai ser feliz este meu filho. 
Li cresceu robusto e ágil e as nuvens-sobrancelha cresceram com ele. Nos dias de mercado estendia um tapete azul no meio da praça e fazia acrobacias, saltos, cambalhotas e riam as crianças que faltavam à escola só para o ver. Li mimava os trejeitos do governador, a vaidade da mulher do chefe da aldeia, a avareza do mercador, a imponência do juiz. E quem o via aplaudia e os mais fracos sentiam-se mais fortes e os injustiçados menos carentes de justiça.
Nas tendas comentava-se a coragem de Li, mas o rancor que criava no palácio e no tribunal ia aumentando, surdo e viscoso.
Li, alheio à verdadeira maldade dizia-lhes, esta é a minha arte, eu imito o que vejo fazer.
Uma noite sem lua quando todos dormiam e calados estavam os cães porque nada havia a temer, chegaram dez homens armados e arrancaram Li da sua cama e a mãe temeu pelo filho que desejava feliz e as nuvens brancas de Li escureceram e choveram lágrimas e água doce do céu.
Nos dias de mercado os homens estendiam um tapete azul no meio da praça e as crianças eram a ausência triste do riso e das palmas.
Mas Li era robusto e ágil e não cedeu ao medo nem à solidão e ao completarem-se trinta dias de cativeiro ainda nenhum juiz ousara acusá-lo de crime algum. Na madrugada do trigésimo primeiro dia uma ave gritou três vezes e quando os guardas abriram a cela, encontraram-na vazia. O governador disse, deixem-no, já deve ter aprendido a lição. Mas a verdade é que temia a inocência de Li e sabia da vacuidade do poder.
Li sabia muitas coisas e intuía outras tantas, mas não sabia viver sem as suas histórias na certeza de que representando fazia girar a aldeia e com ela as montanhas e os barcos e a profundidade do rio.
Juntou então pedaços de madeira escura, cartão preto, varas, fios, tachas, e com uma tesoura recortou as figuras de todos os habitantes da aldeia, da mãe, do governador, do juiz, das crianças, das aves. Depois pegou numa pele de peixe fina e macia, esticou-a até à máxima tensão e colou-a sobre os seus bonecos. Guardou-os cuidadosamente numa caixa pintada de flores e só os soltava nas noites escuras, a fonte de luz por detrás de um pano branco e ele ajoelhado no tapete azul, invisível na subtileza das sombras.
E já não era ele mas sim os bonecos que falavam, contra luz, que é uma outra forma de ser amado.
As crianças tresnoitavam e riam e aplaudiam e adormeciam na escola só para o sentir.




contos de palco, o último